Sobre preferir ter errado todas as previsões
Reli, antes de rascunhar este texto de despedida de ano pré-eleitoral, o que venho escrevendo nestes textos de final de ano: são repetitivos, reconheço. Admito que pode-se brincar de jogo dos sete erros com eles. Será minha culpa?
Não vejo sinais de aprendizado, entre formadores de opinião e ditas lideranças políticas adversários do sistema de Poder do PT e associados, hoje Pós PT, das lições severas da derrota de 2022. Muitos sequer percebem que vivemos em pleno Pós PT. No Pós PT que expliquei como seria em https://fernandopawwlow.wordpress.com/2017/01/10/notas-10012017/ — sobre o futuro do PT numa fase na qual ele não mais significaria “mudança” para as massas, nem o PSOL alternativa no curto prazo.
Esta a dica sobre o “Pós-PT”: estas duas siglas compondo algo maior, um movimento amplo de forças “progressistas” que abrigaria as duas siglas mais “movimentos sociais”, ONGs, etc
Perfis nas redes sociais onde comentaristas e mesmo postagens sugerem que Lula está morto e que ocupa o Palácio do Planalto é um sósia continuam com alguns milhares de seguidores, obrigado. Idem os que sustentam não ter sido ele de fato o vencedor e sim o sistema de apuração. Nada os muda. Não são poucos os que contam como vitória as eleições de 2024 quando o Centro e o Centro-Direita vitoriosos ali muito pouco têm relação com o ideário que estes direitistas de rede social dizem defender (lembro de meu ceticismo quanto àquelas eleições quando respondi na entrevista a “O Repórter Belga”, que acreditava prematuro decretar futuro do Governo antes daquelas eleições).
E este erro, acreditar que as eleições de ‘24 sinalizavam a ruptura das massas com o Governo do PT, fez com que os adversários relaxassem (ainda mais). E surgiram então preocupações com problemas que, ainda que graves, não poderiam ter tomado o lugar de preponderância nos debates, sobretudo no Parlamento: Bets, “adultização”,etc. Muito da energia das ditas oposições foi dissipada nisso. E o INSS foi se retirando sorrateiro da cena, seguido pelos Correios, depois pelo…qual último escândalo mesmo? Acho que boicote a uma marca de sandálias, por conta de provocação pueril tomou-lhe a vez também.
Este o nível de combate que a “Maior Oposição Eleita do Parlamento, na História do Brasil” vem proporcionando, pois não há partido, não há representação sedimentada, na política institucional, destes milhões que rejeitam o Governo e sua agenda. Falta de tempo? Ora, em três anos não se poderia tentar algo, o ímpeto depositado no esforço de criar perfis e grupos na internet não poderia, senão deveria, canalizar-se na criação de um partido com instituto de estudos sério? Vejam os números de inscritos em redes sociais e em perfis grotescos e dá número para criação, em cada estado, de seções partidárias, e ainda sobra.
Escrevi no parágrafo acima sobre institutos de estudos, não? Todo partido de esquerda, e mesmo Centro Esquerda, tem o seu. Neles formam-se quadros, aprimoram-se debatedores internos e estes quadros aptos a vencer debates internos serão candidatos lógicos às arenas de discussão pública, sobretudo a maior delas, o Parlamento. Como também escrevi em https://fernandopawwlow.wordpress.com/2017/01/13/notas-13012017/
Talvez o Brasil nunca tenha tido o que estudiosos como Gaetano Mosca categorizavam como “Classe Política”, casta de agentes capacitados para gerir a sociedade partindo de um projeto de Poder e de uma escola de formação de quadros. Apenas a Esquerda no Brasil parece ter se preocupado com esta formação de quadros, ao menos de forma contínua. Houve tentativas no Integralismo (e em seu continuador na política institucional, o PRP – Partido de Representação Popular) que não sobreviveram aos revezes desta facção (Estado Novo e o imediato pós-64) político-ideológica.
A Esquerda foi, como dito acima, mais efetiva na formação de quadros. Dos primeiros grupos anarquistas aos círculos marxistas que formaram o velho Partido Comunista Brasileiro – PCB aos institutos do PT, a instrução de jovens ativistas e intelectuais foi vista como etapa primeira na luta pelo Poder. Política sem observar esta necessidade é campo de aventureiros apenas.
Sem esta instância superior, os partidos não formam quadros que hierarquizam problemas e acaba-se assim caindo em arranjos muito bem feitos: a Esquerda conhece a paixão moralizante da Direita e lança pautas que contam com o apoio decidido de direitistas, reais ou (auto) presumidos. Foi assim que muito escândalo promissor foi negligenciado, porque para estabelecer prioridades é necessário algum estudo e dose não modesta de malícia: “Ei, os jogos são uma praga de fato detestável, mas pertencem a um terreno que escapa aos políticos neste momento.” Ou: “que cada um cuide de sua internet e que se lute por cumprir o que já se encontra no Estatuto da Criança e do Adolescente. O momento agora é outro.” Parafraseando o Presidente Lula, “Estou absolutamente convencido que as pessoas, cada vez mais, já perceberam que simplismo não é a resposta.”
Ora, para que se formem partidos e seus respectivos institutos (como o PSDB e seu Instituto Teotônio Vilela, o PT e a Fundação Perseu Abramo, o PC do B, a Fundação Maurício Grabois, o PDT, o Instituto Alberto Pasqualini, o MDB, a Fundação Ulysses Guimarães), é necessário que haja simpatizantes com posses dispostos a financiar compras de livros e que haja também lista de prioridades na aquisição destes livros: Ciência Política, História do Brasil (sobretudo itens da Coleção Brasiliana), História Geral, etc.
Não vale dizer: “estamos estudando, meus amigos e eu maratonamos os vídeos no YouTube de True Outspeak do Olavo de Carvalho”. Ou repetir o “Decálogo de Lenin”. Ou acreditar-se Doutor em Sartre por assistir vídeo sobre ele no Brasil Paralelo. Curiosos ocasionais e estudiosos diletantes podem; candidatos a formadores de opinião e atores políticos, não.
Uma vez vencida esta etapa, virão provas de fogo, diversas. Mas não virá o Poder, sobretudo o Poder duradouro, sem cumpri-la.
Porque como escrevi em outras oportunidades (sobretudo nestes textos de final de ano), sem quadros, não se saberá ser Oposição, e sem se saber ser Oposição, não se sabe ser Governo. Estes três anos confirmaram a Direita (ou as Direitas com algum parentesco ideológico entre si) como Oposição fraca, risível. O que leva os que entendem o mínimo de Política a acreditar que ainda que venham a ganhar de novo eleições no médio prazo (acredito em Lula reeleito), não saberão, como não souberam quando tiveram oportunidade, ser Governo forte. Uma Oposição forte não pede interferência norte-americana em assunto que caberia à Oposição cuidar, nem admite bandeira dos Estados Unidos numa parada de Sete de Setembro (e para tudo resultar em…). Nem se permite pautar por páginas grotescas de internet. E muito menos joga tudo, todo seu Futuro, em eleição incerta, quando o trabalho político deve ser constante.
Não há prazer em acertar previsões tristes quando se está mergulhado nelas.
Acredito que já escrevi linhas semelhantes, várias vezes. Adoraria não mais escrever.