Sobre um ano que vi, sim, passar
“Pawwlow, parou mesmo com o blog? Nunca mais colocou nada; desistiu mesmo? Não escreve mais?”
Amigos e leitores me cobram assim nos últimos anos; como não vivo do blog …vocês que leem o blog conhecem minhas explicações, e nelas um dado me vejo obrigado a reiterar: nunca escrevi tanto em quantidade na minha vida inteira. Nada que me animasse a postar, contudo. Acabo sendo repetitivo: os alvos de minha escrita são sempre os intelectuais (ou aspirantes a, ou fingidores de) que se colocam como adversários do Sistema de Poder do PT e associados, o braço político partidário da casta acadêmica.
Nada aprenderam com a derrota: as mesmas piadas sem qualquer graça, as mesmas bravatas, a mesma pressa, a mesma fé em facilidades históricas que jamais se confirmam. O conspiracionismo também vai forte, sem qualquer abatimento. Disposição de militar em redes sociais desproporcional ao ânimo de fundar partido, frequentar grupos de estudo, engrossar iniciativas (caso apareçam) de movimento de Oposição de massas.
O empreendimento intelectual máximo de muitos é elaborar e comentar sobre teorias a respeito da suposta (ou possível, ou desejável) morte de Lula e sobre possíveis sósias.
As páginas de Esquerda (também pródigas em tolices) contam assim com material inesgotável de sátiras sobre o que se denomina Direita. Falo das caixas de comentários das redes sociais e das plataformas de vídeos, não imagino estes ativistas de internet criando blogs ou revistas eletrônicas.
Já muitos da Esquerda…criam e militam em revistas eletrônicas (sobretudo literárias) e blogs. Alguns do que se denomina (qualquer um que critique a Esquerda dominante é rotulado como direitista) de Direita também tentam, mas…
O Brasil perdeu Dalton Trevisan (escreverei em breve texto sobre o escritor) e diversas revistas literárias e perfis literários de redes sociais escreveram a respeito. Quantos direitistas (ou qualificados como direitistas) o fizeram?
Então…
Foi ano que não me animou a publicar, mas a escrever e estudar, sim. Mesmo porque fui entrevistado pelo podcast “O Repórter Belga” por cerca de três horas, durante as quais disse, e o fiz sem temer repetições, muito do que escrevi acima. Estes jovens deste canal, sobretudo os que mais me fizeram perguntas (André Rabello e João Pedro Laguna), por exemplo, são exceções entre o que se conhece por Direita: interessados por Cultura e avessos às simplificações estúpidas (recomendo, e muito, o canal O Repórter Belga).
E assim decidi estudar mais, ler e refletir como há anos não o fazia. Talvez tenha lido neste ano mais que nos cinco anos anteriores. E tomando nota. E concluindo por adiar publicações no blog, preferindo cuidar de assuntos pessoais e deixando que interessados no que escrevo se sirvam das cerca de quatrocentas publicações constantes no arquivo.
2024 foi ano que vi, sim, passar, portanto.
Não pode ser um ano como tantos quando se perde Silvio Santos e sua concorrente e antagonista maior, a Rede Globo, dedica um dia a honrá-lo. Silvio Santos é de fato figura que se pode qualificar como “única” e “insubstituível” sem temer clichês.
(além do que representou para a televisão brasileira, foi homem que utilizou seu carisma e Poder midiático para causas nobres como a AACD; quantos brasileiros contribuem para esta obra de valor imenso de hospitais e centros de reabilitação graças às campanhas do Teleton?).
Num ano comum não se perdem nomes como Quincy Jones, Arthur Moreira Lima, um escritor quase centenário (Dalton Trevisan) e um ex-presidente centenário (Jimmy Carter), e alguns que esqueço no momento. Foi desfalque e tanto no capital das figuras de peso do século passado ainda em atividade neste que vai para seu vigésimo quinto aniversário.
A cada uma destas mortes pretendi escrever um texto, mas me contive; quantos textos sem contribuições significativas para o entendimento destes nomes já não foram escritos? A reflexão sobre o que deixaram neste mundo e o que pude aproveitar de suas figuras me preencheu em cada uma destas desistências de escrever textos rotineiros. E senti, também por esta razão, o ano passar, como poucas vezes antes.
E também por razões pessoais que, se me balançaram um bocado, me ensinaram muito (e me presentearam com musculatura emocional) me fizeram o ano nítido, palpável.
Brasil? Mundo? Nisso tudo também foi ano que não se pode tomar como comum: a nitidez das posições, ações e omissões (podem me incluir neste ano, mas já adverti muito, e fui mesmo repetitivo, em anos anteriores) de cada pessoa, das públicas às de convívio íntimo, só não ensinam muito a quem nada deseja aprender. Este ano acabou com qualquer desculpa, sobretudo a da ignorância. O clichê “ano em que as máscaras caíram” nunca me pareceu tão verdadeiro. A História não admite desculpas esfarrapadas, e o Jornalismo, mesmo o Literário, é a História do dia depois do dia. 2024 fazendo-se tangível como poucos anos no calendário infinito, que cada um responda ao próximo e diante do espelho como se portou.
XXX
Votos de 2025 produtivo aos leitores e amigos do blog.