Sobre a Marcha de Bolsonaro

Que escrever semana depois da Marcha de apoio ao Jair Bolsonaro? Ah! A Marcha fora invocada com outro nome e outro propósito declarado… mas era dele a Marcha.

Discute-se ainda hoje quantos estavam, e, instados por Lula, alguns questionam como chegaram à Paulista (como imaginam que multidão daquele porte foi transportada em bloco, por encomenda?), mas não se discute que é imagem (multidão lotando a Paulista e vias próximas) que impressiona e significa algo.

Bolsonaro não morreu por artes da inelegibilidade; inelegibilidade que ativistas de caixas de comentários têm por argumento único (tudo bem, bolsonaristas também contam com arsenal discursivo limitado: “ex-presidiário”, “Nine” e tolices deste calibre). O “Inelegível” ainda respira, ainda é o adversário mais potente que Lula enfrentou (e enfrenta) em décadas.

Não que oradores tenham se distinguido pela oratória ou pela substância do que expressaram, mas há sensação de que se pode fazer algo, se houver organização e vontade de não se render por completo. E percebo que não só bolsonaristas (assim como não apenas evangélicos, em evento que teve como autor principal Silas Malafaia) compareceram. Talvez muitos eleitores de candidaturas que não alcançaram o Segundo Turno e os que decidiram protestar em 2022 não votando nem em um nem em outro (confiantes de que isso não traria consequências concretas) compareceram para desabafos, e para ajudar a compor o quadro que diz: “Não! Não se venceu a Guerra ainda! Não tripudiem tanto! Os Srs. têm Oposição!”

Escrevi algumas vezes aqui no blog sobre o que considero perda de tempo em marchas e demonstrações; não raro, contentam-se (os manifestantes e seus entusiastas) com as marchas e demonstrações e delas não partem para atitudes mais efetivas. Como formar um partido, por exemplo. Ou fundar e angariar recursos para um jornal próprio (ainda que apenas eletrônico). Quantas assinaturas não se poderia colher ali para ambas as iniciativas?

E ainda assim tomei a coisa como sinal de vida promissor onde antes parecia haver apenas luto e gemidos. Que venham outras, que frutifiquem em…

Como se poderá frutificar em Política sem autocrítica impiedosa? Ainda insistem (os simpatizantes e militantes do bolsonarismo nas redes sociais) em atribuir a eleição de Lula e do Pós PT às fraudes quase impossíveis (ou mesmo impossíveis) de se provar. Buscam com lupa quem errou no dia X ou quem foi o Traidor sempre à espreita, nunca aludindo à lentidão de Bolsonaro para responder aos ataques como algo mortal para a única tentativa em décadas de se construir opção política sem qualquer apoio da casta acadêmica e seus braços nos meios de comunicação de massa. Não se aponta para o que era débil e repulsivo (às massas e aos formadores de opinião com algum apego aos estudos) no círculo próximo ao Presidente como algo decisivo para seu declínio.

Silas Malafaia e Antonia Fontenelle são exceções (confirmadas em vídeo recente de ambos) ao apontar, Antonia, o círculo imediato de Bolsonaro, e Malafaia a disposição inexplicável e incansável de produzir fake news, como os venenos que enfraqueceram até a quase morte o bolsonarismo e o que responde por Direita no Brasil (o que ambos apontam como hipóteses eleitorais em substituição ao Bolsonaro inelegível prefiro evitar, ou deixar para outro texto). Que outras exceções venham e animem o debate necessário para que haja de fato Oposição. Não se precisa, agora, abstenção.

Há, nota Fontenelle, os que sonham com alguma reversão da inelegibilidade. Algum milagre, alguma Graça. E se não for da Vontade Dele que tal aconteça? E se estiver escrito nas linhas do Destino que Bolsonaro deverá combater do lado de fora, organizando partido e ajudando a formar quadros? Será razoável desperdiçar esta configuração, onde o líder em recesso compulsório se recolhe aos estudos (estudos de livros e autores, não maratonas de vídeos de “Brasil Paralelo” e congêneres) e ao trabalho organizacional? Não sairá disto tudo Bolsonaro mais maduro e ameaçador, e Direita mais preparada e habilitada ao Combate? E setores independentes (nos quais me situo) também mais animados, menos prostrados pelo desânimo, menos propensos à renúncia e ao espírito de individualismo depressivo? Não sonho com a reversão da inelegibilidade como saída única do labirinto.

Assim como eleitores do PT e do Pós PT tiveram o argumento da superioridade moral na eleição onde seu candidato (forte) estava preso, eleitores de Bolsonaro ou da Direita poderão dizer “É… vocês ganharam; mole, nosso candidato forte está inelegível, né?”

Que se saiba tirar partido desta adversidade, Política é também isto.

E que (sei que me repito, mas inevitável) não se abandone a ideia do Partido próprio; a Direita e o Bolsonarismo jamais serão fortes como o PT (e o Pós PT) sem partido próprio. Lula não seria Lula se tivesse, na virada da década de ‘70 para a de ‘80, se mudado para o PCB ou para o MDB. Não! Criou seu Partido, com seus quadros, seu setor intelectual atuante, suas bases. Ou isto, ou não adianta superlotar vias públicas.

A quem sabe ver, domingo passado foi comovente pelo que mostrou ser possível se não se esquivar das obrigações de longo prazo. Um primeiro domingo…

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.