Sobre decisões 

O toque no braço me desperta de devaneio provocado pela contemplação dos passantes apressados na Pça Sete, em tarde onde as definições climáticas (e mesmo reminiscências pessoais) usuais de Belo Horizonte são contestadas; a cidade nunca, ao que me lembre, tão quente. “Como correm para os ônibus lotados, esbarrando-se na corrida!”

“Pawwlow…parou de escrever? Último texto do blog do final do ano passado…”

“Escrevo dia depois de dia, lotei cerca de dois cadernos universitários, de minhas anotações de leitura, nunca escrevi tanto.”

“Mas…por que …”

“Não postei? Porque decidi estudar mais, ler mais livros introdutórios de Ciência Política e reler os que li sem o domínio do material básico. Literatura de língua portuguesa também; Eça de Queirós e Lima Barreto, ler e reler. Fiquei tão absorvido neste programa de estudo (e de vida) e nos problemas particulares, que fui adiando postagens. Não me arrependo. O que não falta é blog palpitando sobre Política, mascando goma de leituras de terceira mão (quando não transcrevendo o que aprendeu em vídeos de outros analistas improvisados), e irritados pelo fato de os seus conselhos não estarem sendo levados em conta pelos grandes do Mundo. Não senti necessidade de ser mais um”.

“Mas sentimos, eu e nossos conhecidos comuns que leem o blog, suas apreciações sobre o governo, sobre o primeiro ano…”

“Não interessa avaliar o Governo para quem já tem suas posições. O que se deve combater no PT e no Pós-PT pode, e deve, ser combatido estando este sistema de Poder ocupando o Palácio do Planalto ou na Oposição. Como venho escrevendo há anos, os adversários (ou mesmo inimigos) deste projeto não se preocuparam em ser Oposição forte, e quem não sabe ser Oposição forte não saberá ser Governo forte, e nem saberá ser Oposição forte de novo, quando for desalojado do Poder. Pode-se criticar pontos, mas a tônica do que vem sendo o Governo foi anunciada durante a campanha. Alegar ignorância ou afetar surpresa…logo…de que serve gastar tinta de caneta…”

“Então se deve cruzar os braços, abaixar a cabeça…ou aderir…”

“Deve-se reconhecer derrota (nunca é agradável), passar em revista os métodos e estudar, ser melhor que os membros da casta acadêmica que apoiaram, apoiam e apoiarão sempre este Governo, pois ele no Poder materializa sua visão de Mundo e seu conjunto de desejos. Custa algum esforço e…”

“Que você entende por ‘ser melhor’ que os membros da casta acadêmica”?

“Evitar as figuras de linguagem gastas e as prisões de lógica que eles aprenderam de professores que também aprenderam de professores; os chavões, os clichês, os esquematismos. Quando citar algum assunto ou linha de pensamento ler e reler mais de um autor (de preferência os dois antípodas mais notórios na matéria) e demonstrar, sem qualquer afoiteza ou submissão à vaidade, saber do que fala. Esta atitude antecipa e desarma o ‘vai estudar’ tão frequente na boca de quem, em geral, apenas reproduz os realejos…”

“Mas e a política econômica, tudo que este Governo vem fazendo…”

“Há especialistas nestes assuntos e deixo a eles a tarefa de criticar ou validar. Como disse e digo sempre, o problema não é administrativo, apenas. O governo que foi substituído por este parece que se esqueceu de que a luta política deveria vir antes e acima de questões administrativas e…”

“Mas…” o interlocutor demonstrou impaciência e preocupação com o relógio; sempre se impacientam quando são lembrados, ou mesmo informados, que tudo exige e exigirá muita paciência e certo esquecimento do relógio.

“Agora pergunto, amigo e leitor que me dá a honra destes minutos de atenção: você está vendo algo sequer assemelhado a algum esforço intelectual, algum parentesco, ainda que remoto, com luta política séria? Não criam perfis e páginas em redes sociais assegurando que o Presidente é, na verdade, um sósia? Entre outras extravagâncias emitidas em Português de alfabetizando que provocam falta de ar, por gargalhadas convulsivas, nos militantes do Governo…talvez seja esta a arma…”

“Você não pode falar com este desprezo de gente que se expôs e se arriscou…lembre-se dos que ainda estão presos depois do 8 de janeiro…”

“Presos alguns por arbitrariedade (os que embora estivessem em Brasília sequer se aproximaram da Pça dos Três Poderes), e estes a História honrará mais que você e eu somos capazes agora e outros por terem cometido seus vandalismos e exercícios de estupidez concentrada. Ambos os grupos vítimas da ignorância e da irresponsabilidade que dominou (domina ainda ) a internet; onde alguém de destaque e público expressivo ordenou que voltassem para casa, saíssem dos acampamentos diante dos quartéis e formassem, com assinaturas e criação de diretórios, um partido político e recomeçassem deste ponto a luta? Não vou me alongar nisso, foi algo grotesco e cruel demais…”

“Só porque não deu certo?”

“O que seria dar certo ali? Militares tomarem o Poder; isso duraria quanto tempo? Convocar outras eleições com base na crença de que houve fraude? Se houve, que impediria mais uma? É o mesmo que levantar suspeitas sobre interesse e sonsice do Governo no 8 de janeiro. Como provar se X ou Y agiu, e se tal ação não teria sido de núcleos isolados? Como confrontar o Judiciário algoz de velhinhas e doentes crônicos sem meios efetivos de Pressão, meios que não se consegue obter da noite de sexta para sábado? Vai se ver, e o tempo e energia gastos nessas empreitadas dão e sobram para se fazer algo mais efetivo, que dure, que seja aço…que cada um que se considere inimigo político e existencial deste Sistema de Poder tome suas decisões, seja seu próprio Comissário do Povo, seu açoite tutelar. Meus cadernos e canetas dedicados aos livros sobre História do Brasil e leis da Política que regem o jogo do Poder são os meus. Literatura clássica do nosso idioma, o bálsamo e o combustível para mais um dia.”

E me percebi devolvido à contemplação da carreira para os ônibus lotados. Se meu interlocutor despediu-se…também ele corria aos esbarrões.

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Que leitores do blog tenham 2024 produtivo!

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.