Sobre leituras – História do Brasil República Velha
Escrevem-se ainda livros como “Os Tenentes na Revolução Brasileira” de Octavio Malta, jornalista de texto admirável? Não sei se houve reedição, a edição que leio (Ed. Civilização Brasileira) é de 1969. Uma reedição, em livro, de material publicado no jornal “Última Hora”. Merece ser reeditado e lido, assim como os livros que cita, “O General Góis Depõe” e memórias de João Alberto e Gilberto Amado, personagens da História, de um pedaço da História do Brasil conturbado e que é o pai, em muitos pontos, do Brasil de hoje.
Sim, as dores e os sobressaltos das décadas de 20 e 30 resultaram no Brasil de 2023; entreviste-se qualquer político de relevo hoje e ele citará Carlos Lacerda, Arthur Bernardes, Luís Carlos Prestes, e Getúlio Vargas, ainda o político mais importante da República. O mais citado; amado ou odiado, Vargas permanece ainda o marco em torno do qual elaboram-se juízos sobre os políticos (sobretudo Presidentes) do Brasil. Como observou Carlos Lacerda no seu “Depoimento”, todos têm em sua memória algum momento onde sua figura esteve como símbolo. E deste livro de Malta, o Getúlio Vargas que aparece é o mago das saídas de conciliação nas quais ele sempre resultava protagonista .
Arthur Bernardes, que anos depois dos acontecimentos retratados nos textos deste livro teria confessado “Como Presidente da República, fui apenas um Chefe de Polícia”, também surge como personagem antagonista dos Tenentes. Sua Presidência fora combatida desde antes da posse por imprensa que o criticava como nacionalista tacanho quando ele, como governador de Minas Gerais, apenas resistiu ao que havia de predatório nas empresas estrangeiras em relação ao minério. E o livro, embora crítico à mentalidade conservadora dos homens da Política que os Tenentes combateram, é justo com ele. Não deixa de qualificar como “entreguista” o contrato da Itabira Iron que o teve como adversário.
Antônio Carlos de Andrada e sua sagacidade; a convicção nos golpes de força de Góis Monteiro; a malícia de Assis Chateaubriand, que percebeu naquele período turbulento o Brasil que viria; a doação pessoal dos Tenentes à causa do Brasil de eleições limpas; a insatisfação de Prestes com o que julgava inconclusivo na revolução política que não trouxera revolução social e a disposição dos seus amigos de continuar a luta de acordo com o realismo político saltam, todos eles, das páginas com o calor dos vivos, parecendo gritar aos leitores: “O Brasil é país de personagens singulares e momentos expressivos, não acreditem que somos talhados para a mediocridade e para a Colônia.”
O livro traz como anexos os Manifestos de Luís Carlos Prestes e o de Juarez Távora, ambos sem dúvida comoventes pela fé dos seus autores num Brasil que viria forte e livre depois de superadas as suas mazelas. O de Prestes é comovente, pois arrebatado e crente em revoluções sociais para que o Brasil atingisse sua emancipação e prosperidade. O de Juarez Távora, também convicto de que o que respondia por Sistema da República Velha não se extinguiria sem luta, mostrava-se, porém, desconfiado com dogmas e ideais importados sem atenção ao que somos e como somos. Acreditava na tentativa e erro, em nova tentativa e erro e mais nova tentativa e…como método mais recomendado ao País para encontrar seu Destino. Também impressiona, se não comove, pelo realismo duro, estoico.
O Brasil parecia, antes destes homens (Washington Luís, Prestes, Lindolfo Collor, Bernardes, Siqueira Campos, etc) adormecido, sem perspectiva e sem História. E estes homens contribuíram para a encenação de um épico que duraria décadas.
História introduzida, com tiros e punhaladas, na mente de milhões.
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Carlos Lacerda, no “Depoimento”, revelou desejo de editar pela sua “Ed. Nova Fronteira” o livro de Tobias Monteiro, “O Presidente Campos Sales na Europa”. Morreu pouco depois e ignoro se sua editora o fez. A Editora da Universidade de São Paulo e a Ed. Itatiaia o fizeram em 1983, e deram assim um presente aos brasileiros. Fosse livro de autor americano sobre a viagem de um Presidente dos Estados Unidos à Europa em sua peregrinação em busca de dinheiro para um país esgotado por perturbações políticas que tivessem lhe drenado o Tesouro, seria um clássico do jornalismo, um pai do New Journalism, obra sempre reeditada e estudada. Aqui, viveu anos fora do prelo e das livrarias. Quantos deviam mencioná-lo nas décadas em que era item de antiquário, além de Lacerda?
E é aula de Brasil. Tobias Monteiro faz, na Introdução ao evento das viagens do Presidente Eleito (cobertas por ele como repórter do “Jornal do Comércio”), resumo do que vinha acontecendo no Brasil desde a Proclamação da República:
“Quando Campos Sales foi eleito Presidente da República, em março de 1898, o Tesouro estava exausto”, a esta frase de abertura, o autor descreve as dificuldades políticas causadas por homens sem vocação para a política, pois militares. Militares com intenções honestas indiscutíveis, mas com tendência ao espírito beligerante, o Brasil convivia com revoltas e violência inéditas. Hierarquia e qualquer garantia legal eram figuras literárias.
O país, portanto, que Campos Sales colheu das urnas estava com sangue coagulando nas ruas e economia, depois de aventuras de emissões com vistas a algum golpe de sorte, caótica e desmoralizada no Exterior. Ele deveria fazer viagem aos grandes do Mundo convidando-os a acreditar no Brasil e na sua intenção de cercar-se de gente capaz e séria.
O autor descreve a paisagem natural e humana de países que experimentavam a industrialização e o progresso. Descreve com admiração, sem dissimular o fascínio com países e homens que pareciam de fato muitos anos à frente do Brasil de hora tão melancólica. E a eloquência de um político que pedia que, a despeito de tudo, confiassem no Brasil. Não declamou promessas inexequíveis em prazo e recursos limitados, mas expôs seu programa de governo e o que vinha fazendo com o ainda Presidente no sentido da continuidade. Não parecia disposto a destruir o Brasil por capricho ou sentimento de desforra, e esta oratória lhe abriu portas.
Tobias Monteiro registra que, depois de deixar a Presidência, Campos Sales não tinha recursos para manter administrador na sua fazenda nem serviçais domésticos; ele próprio e suas filhas e esposa cuidavam da fazenda e da casa. Sem queixas públicas, sem lamentações berradas na Imprensa, recomendando mesmo à família que não pleiteasse pensões e ajuda depois que ele morresse. “Vivesse como pudesse”.
Um livro a se ler e reler; o Brasil tem sim personagens e História que não autorizam sentimento de inferioridade.