Notas de leitura de Leslie Lipson e Roger Gérard Schwartzenberg

Os liberais e suas ilusões! Leslie Lipson acredita que o uso excessivo da força (o que se convenciona chamar de tirania) não conta com o apoio dos governados por muito tempo; ditaduras seriam, como acreditava Roberto Campos, biodegradáveis. Mas mesmo Campos acreditava que as ditaduras de Direita o eram, por envergonhadas. As de Esquerda sem tal vergonha, não o seriam. Concordo com Campos, acrescento que mais que ausência de vergonha, as ditaduras de Esquerda sabem trabalhar sentimentos nas massas que são vitais para a duração do Sistema de Poder: o sentimento de pertencer a momento histórico diferenciado, com destino à salvação eterna, pois morre-se mas gerações futuras herdam a Revolução; sentimento de vingança de recalques e humilhações, este superando o primeiro como elemento de arregimentação de porções gigantescas de material humano.

As contradições e hipocrisias de um governo de Esquerda tornam-se, aos que se julgam enfim contemplados por Justiça, pouco perceptíveis, até potáveis. O governado sempre dirá, mesmo quando nada autorizar comemorações, que mesmo abaixo das expectativas mais modestas, prefere tal Governo aos dias de humilhação e espera sem fim. Vida sem premiação, vontades por esquecer.

Regimes totalitários são manipuladores hábeis de sentimento de ódio; como esquecer os batalhões de desempregados convertidos em vingadores históricos contra judeus que eram, todos, conforme lhes explicaram os nazistas, os culpados pelos dias de medo e privação do pós-guerra? Quais regimes liberais ou ditaduras comprometidos apenas com a manutenção da Ordem manejam tão bem estes cordões que movem muitos?

Lipson cita Locke e sua observação sobre os limites da aceitação (ou submissão) dos governados por governantes nocivos, e Platão sobre o temor que poderosos sentem das massas, suas subalternas. De fato, Locke acerta: há um ponto no qual as massas compreendem ser inútil o medo e degradante demais sua situação e se levantam, e Platão teve capacidade de vislumbrar poderoso perdendo o sono imaginando a si e os seus sob a fúria dos que nada têm a perder e a temer. Qualquer hora pode abrigar o bote certeiro e qualquer cálice pode conter o veneno destinado aos que se julgam seguros mesmo cercados de infelizes de memória boa. Mas, séculos depois de séculos, poderosos continuam a ignorar estas advertências e não educar a gula e a ferocidade.

Talvez poderosos tenham chegado onde se encontram desviando-se dos livros, ou então herdando o Poder acreditando-o um peso oferecido por Deus, Ele mesmo, segundo acreditam sonhos liberais. Certo que o subalterno, se não lê, também nada herda, senão a certeza de que há algo maior no Mundo, e que só pode ser obtido com combate sem trégua. Mas, feitas as contas, quantas gerações não assistiram ao sono de ambos?

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Roger Gérard cita Noam Chomsky em sua crítica aos “Novos Mandarins”, estudiosos eficazes e hábeis em vender às massas discurso ideológico comprometido com o Império e a manutenção do quadro social. A tendência nos anos ‘60 e ‘70 (dias do livro de Schwartzenberg) era própria ao sucesso destes intelectuais, pois sociólogos escreviam sobre História, historiadores sobre Ciência Política e sociólogos sobre Literatura. A interdisciplinaridade favorece intelectuais comprometidos com o estudo do Poder, e estes intelectuais criticados por Chomsky deram-se bem neste empreendimento sociopolítico. Mas nada impede que haja outras mentes treinadas neste diálogo dos domínios de saber e muito cientista político passou a se identificar com a Sociologia Política, por considerar a função (assim como a nomenclatura) mais adequada a um tipo de militância intelectual em que várias vertentes de conhecimento concorrem para interpretação da Realidade sem dogmas paralisantes. Hoje (de tempos do livro para o atual) o discurso da casta acadêmica é o elogio da especialização extrema. Citam pensadores como Chomsky esquecidos, ou ignorantes, da abertura que estes praticavam em nome da eficácia intelectual do combate político.

Roger Gérard fornece exemplos, em seu livro, de intelectuais do que chama de Sociologia Política, comprometidos com o conhecimento da natureza elástica do Poder, algo maior e mais abrangente que o Estado e que, portanto, demanda mentes aprimoradas nos ramos comuns de conhecimento, para sua interpretação exata. Uma mentalidade que me parece (se eu não estiver enganado) diferente dos sábios da especialização da casta acadêmica brasileira. A bibliografia de Schwartzenberg prova: certos livros são citados nas diversas bibliografias das seções do livro, por serem úteis em mais que um enfoque ou modelo social estudado. Mas não se pode cantar vitória antes da guerra concluída: muito inimigo declarado da casta acadêmica exibe esta mesma indisposição para estes passeios entre várias seções das bibliotecas. Em sebos, poucos frequentadores identificáveis de algo que não seja a militância intelectual dos campi. E este sinal me diz muito.

Quem lê ainda, os autores citados por Roger Gérard Schwartzenberg, falando nisso? Editoras ainda os publicam? Alguns, como Robert Michels, são disputados nos sebos virtuais a preços desanimadores para estudiosos sem dinheiro. Gaetano Mosca, idem. E pouco se encontra de Leon Trotsky em sebos. Há estes autores e livros nas bibliotecas das Universidades, e estas são povoadas por gente interessada, em todos os sentidos.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.