Sobre consciência de dever cumprido

Não, não tenho do que me desculpar com leitores. Não preciso escrever justificativas ou elaborar recitais de autoelogio. Mesmo se publicando pouco, digo a mim e aos que me questionam sobre produção reduzida que nada ganho com o blog e pouco sou citado ou mencionado. O arquivo do blog me explica mais que qualquer esforço. Com os amigos e interlocutores habituais, chego a ser mesmo enfadonho: Eu avisei.

Não estou eufórico com o horizonte político à frente, mas não estou surpreso. Tudo colaborou, na conduta do já ex-Presidente Jair Bolsonaro, com o desfecho que será encenado amanhã. Há textos meus do primeiro mês de Governo, cujo link dei no texto anterior deste blog. Há os que escrevi ainda na candidatura. Há ainda os que escrevi em anos em que a disputa contra o PT era ainda enfrentada pelo PSDB. E quando declarei em textos a opção por Jair Bolsonaro não enganei sobre o que esperava, mas também não temi perder leitores ou possíveis leitores; não me acovardei.

Elogiei políticos que hoje não me inspiram a redação de uma vírgula, mas nunca cogitei apagar estes textos do blog; erros em um blog que existe desde o final de 2008 são parte importante desta biografia na internet e de minha biografia pessoal. Fiquei menos ingênuo e quase nada inclinado a acreditar em soluções apenas político-eleitorais. O que escrevi no blog desde o impeachment de Dilma Rousseff me demonstra cético, com olhos em movimentações que ainda poderão ocorrer. O que une meus textos, tanto os ainda ingênuos aos já desapaixonados, é a crítica aos ditos formadores de opinião que vêm fracassando na luta contra o esquema de Poder do PT e associados, ou ao Pós-PT, ou ainda ao elemento político da casta acadêmica. Por pressa, por leviandade, por soberba.

E Lula vence uma vez mais. E será empossado, com faixa presidencial e desfile em carro aberto sob aplausos de seus fiéis. Bolsonaro foi apenas um intervalo rápido na jornada rumo ao sonho da hegemonia absoluta. Um sonho, uma miragem, uma projeção ou delírio dos que sonham lutar contra algo musculoso e inteligente sem precisar cultivar, por anos (talvez muitos anos; com esforço concentrado talvez menos), músculos e inteligência.

Culpar quem? Os esperançosos, os ingênuos cobertos com a bandeira nacional, acampados diante de quartéis e estradas? Culpar os que julgam (talvez com alguma razão) que o governo do PT os atendeu e por isso escolheram Lula? Culpar maquinações de comprovação problemática (ou impossível) no prazo útil? Culpar um político que se viu alçado à boca de cena sob canhões de luz depois de anos no fundo do palco e que, portanto, estava pouco ou nada preparado para o massacre que sofreu?

E culpar alguém agora serviria a qual propósito? Há uma longa estrada que se deverá enfrentar sem queixas, sem lamúrias, quase com afeto. Talvez ela seja mais extensa no tempo do que imaginam os desejosos de soluções rápidas (estes nunca aprendem e suspeito que nunca aprenderão), podendo mesmo cobrir o que resta da vida de muitos de agora e repeti em alguns textos advertência que fiz sobre eventual malogro de Governo que se disponha a enfrentar o esquema de Poder do PT e associados e o Pós PT: voltariam para o que se costuma chamar de “sempre”.

Será, para quem tem olhos educados, divertido assistir ao acerto de contas dos fiéis do petismo (e do Pós Petismo mais orgânico e compacto) com adesistas, com gente que se descobriu de Esquerda somente sob Bolsonaro, ou com quem retornou, após anos na Direita ou no Centro cético e irônico, aos uniformes esquerdistas de juventude nestes últimos quatro anos por mero espírito de subserviência ao núcleo dominante, ou aos patrões desafetos do Presidente. E este acerto virá logo que se verifique o número limitado de cadeiras no salão. “Não esquecemos do seu apoio ao Bolsonaro lá no começo”. “É…você ajudou, e muito, no Golpe contra a Presidenta Dilma”.   “Agora virou progressista? E suas piadas sobre o Movimento (negro, gay, feminista, …)?”

Para interessados, e mesmo estudiosos de Ciência Política, será obrigatório acompanhar a luta interna dentro do Pós PT entre a ala que vem desde o PCB, passando pelo MDB, depois PMDB, depois PSDB e a ala que vem das dissidências históricas dentro do PCB agrupando também jovens ex-direitistas convertidos ao esquerdismo armado que se aglutinaram no PT. E as dissidências do PT. Este curso de política talvez seja ministrado em ritmo lento, ou em ritmo avançado, a depender das circunstâncias, dos sucessos ou fracassos do Governo. Será um banquete aos iniciados.

(Sou honesto: coloco mais esperança neste atrito entre forças internas como motor de destruição que as tentativas desastradas da Direita. Este esgarçamento, mais o possível descontentamento das massas, talvez produza belas explosões.)

Pretendo, com esta volta do PT ao Governo, me ocupar com minhas fixações, meus interesses mais vitais: o cinema, a Literatura de ficção, a Literatura histórica (relatos de observadores da infância da História do Brasil), as reminiscências, as observações da cidade e a crítica dos órgãos de comunicação. Sobre Literatura e reminiscências fiz os textos que mais me agradam neste blog.

Que se ocupem da política imediata os formadores de opinião (imagino que bem) pagos, os profetas (sobretudo blogueiros e vlogueiros) que erram todas as previsões mas não perdem público, os que anunciaram futuro glorioso para Bolsonaro até um minuto antes de seu pronunciamento final. Os linchadores da Esquerda ora triunfantes também podem ficar com a Política rotineira, com a defesa apaixonada do líder e com o ataque aos divergentes, aos “fascistas” e aos “reacionários”. Fartem-se!

Há Política no estudo, na contemplação das artes, a tudo que não é corrompido pelas contingências. É, como observou Norman Mailer no seu “Exércitos da Noite” (Armies Of The Night), a política a ser tomada como Dever por quem tem como arma o domínio de alguma linguagem artística. Ou pretensão, ou aspiração. O Mundo sobrevive apodrecido demais, e não precisa de mais medíocres neste momento de perdas gigantescas (um Papa e uma Rainha que reinou por décadas na Inglaterra).

Vejam, o Brasil sofreu este ano mais um avanço do Deserto com a perda de Arnaldo Jabor, Erasmo Carlos, Gal Costa e Pelé.

Um lembrete sobre a necessidade de cada um cumprir, com o máximo de esforço, com os deveres próprios dos seus ofícios.

Que leitores e amigos do blog tenham 2023 produtivo!

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.