Sobre lamentações

Uma semana depois, o que se há de fazer? Não, não fiquei eufórico, e não me envergonha confessar certa tristeza. Surpreso? Não.

Como disse no texto anterior, escrevi no blog desde o início do mandato sobre o que me parecia receita completa de fracasso político: triunfalismo, subestimação dos oponentes, ausência do desejo de lutar. O arquivo e os links que coloquei no texto me confirmam. Quisera ter errado, ter sido um pessimista, um apostador comodista em perdas certas que se visse desmoralizado pelos fatos. Ouvir dos amigos bolsonaristas: “E aí? O cara não se reelegeu, hein? Cadê a bola de cristal, mandou pro conserto?”

Mas o aprendizado duradouro cobra seus tributos e a derrota da candidatura Jair Bolsonaro para a candidatura do Pós-PT (Pós-PT sobre o qual escrevi diversos textos desde o tempo de Dilma Rousseff) encabeçada pelo ex-presidente Lula, é um destes. Tributo pago (bom, a se pagar pelos próximos anos) que se fique com a mercadoria: o aprendizado político.

Não é o que se vê, por evidente. Depósito de esperanças em fake news e espetáculos de ignorância e histerismo desmentem previsões otimistas no médio prazo (mesmo no curto; como pretendem ser espinho no pé do governo como oposição consistente com o grau de alheamento da realidade que demonstram?) e as recordações amargas visitam quem observa e estuda. E mantém blog desde final de 2008.

Lembro das derrotas do PSDB para o PT mesmo com as denúncias de corrupção; apostas na crença (preciso escrever que ingênua?) de que “agora o Povo está acordando”. Como não lembrar também das “Jornadas de 2013”: “O Gigante Acordou” (eu próprio escrevi textos onde me confessava esperançoso; relendo-os percebo como fui iludido, tolo)?

Ocasiões onde não se tomou o cuidado para não se gastar em excesso com comemorações vindouras (que não vieram): editoriais e artigos pomposos com retórica da década de ‘50, planos a respeito de governos hipotéticos, os nomes mais adequados aos tais governos da fantasia. E…

Portanto, esta foi apenas mais uma porretada na cabeça. Quem observa com seriedade (pois precisa fazê-lo para escrever e escrever é diferente de gravar vídeos nas cadeiras de gamer ou em volantes de automóveis) desenvolve, por óbvio, alguma calosidade. Calosidade que passa por cinismo, mas que se ataque um escritor por cínico que atacá-lo por néscio, não? Que se deixe o estoque de grandiloquência vazia aos governistas (tanto do Bolsonarismo como do Lulismo), aos que escrevem mirando os lustres dos salões do Poder. Aos que escrevem respirando poeira dos volumes empilhados na mesa, exigência total; alegar ignorância não cabe. Um escritor culto produzindo simplificações para servir a um partido, entende-se (entende-se com repulsa, mas entende-se) e já começou o espetáculo de colunistas consagrados produzindo para Lula os pôsteres da vitória ao feitio stalinista (que alguns destes propagandistas venham do trotskismo não chega a ser contradição, antes diz muito do trotskismo de países como o Brasil, e do caráter de classe destes autores): “O Herói do Proletariado Volta Para Mais Uma Batalha”, “O Vingado Pelas Massas”, “O Injustiçado Que Retornou Nos Braços Da Sua Gente” e outras peças desta natureza. Mas um escritor de blog sem laços com qualquer Poder tem o dever da sobriedade, ainda que solitária, ainda que sem qualquer compensação, ainda que escrevendo sem citações ao seu trabalho, nem na forma de ataques e muito menos da de elogios com restrições.

Estuda-se, escreve-se, cumpre-se o dever.

Como, por exemplo, não olhar imagens destes bloqueios de estradas e vigílias diante de quartéis e não se perguntar se todo este volume de corpos não faria melhor reunindo assinaturas para a formação de um partido que defenda os pontos de vista comuns? Como não se perguntar, observando o mesmo quadro, por que não utilizam aplicativos de conversa para dicas de estudo e leitura, para formação de grupos – sérios, não reuniões de declamadores de clichês e simplificações colhidas em algum vídeo – de estudo ? Há muito material disponível na internet a quem considera o aprendizado de outro idioma – sobretudo o Inglês – preço razoável a se pagar por bibliotecas virtuais gratuitas que fornecem conhecimento e consequente argumento para discussões internas e com antagonistas. Mas parece que concebem aplicativos de conversa apenas como instrumento sagrado de disseminação de boatos e narrativas fantasiosas (o que chamam de “fake news”). Não parecem aprender coisa alguma, ou desejosos disto, muito menos considerar necessário. A cada boato, comemoram. Ou choram. Ou perdem o sono. Boato desmentido, estão prontos para o próximo. E há verdadeiras avenidas abertas no campo adversário.

Sim, avenidas abertas. O que observo é que a casta acadêmica não vem produzindo mais intelectuais notáveis e esforçados como outrora. Vejam, por exemplo, uma coleção como “Os Pensadores” da Ed. Abril (volumes organizados e traduzidos pela nata da Academia – no caso, USP- dos anos ‘70). Surgiu outro esforço coletivo no sentido de popularização de material de qualidade (idem coleções da mesma editora como “Nova História da Música Popular Brasileira”e “Literatura Comentada”-como minha geração deve às duas) de valor equivalente? Os argumentos da Esquerda têm ido além de desqualificações profissionais e mesmo pessoais de oponentes? Não é o que vi nos meus dias de UFMG (exceto em círculos muito restritos, quase secretos pela discrição) e vejo na internet em páginas de esquerdistas. Insultos, piadas sem graça e coletivismo fácil são encontradiços.

Mas para combater militantes grotescos e seus professores medíocres é necessário ser melhor que eles, meus leitores concordam? A Direita que conheci na UFMG e observo na Internet não é, em nada, menos ridícula e previsível. E está, não é demais lembrar, em desvantagem numérica e histórica, logo…

Como não lembrar que muito da responsabilidade da derrota de Jair Bolsonaro para Lula cabe aos que lideraram o movimento pelo voto nulo ou branco? Os “puros”, os “que não corromperam suas consciências escolhendo entre dois candidatos ruins o menos pior” levaram outras tantas personalidades influenciáveis a se abster em hora tão grave. Este idealismo de almanaque “Eu Sei Tudo” deu à candidatura da casta acadêmica e do show business a vitória quase no Primeiro Turno, e por fim (como não parecem ter se assustado com o resultado da omissão que cometeram) no Segundo Turno. Bom, será preciso escrever que estes formadores de opinião a quem Lula deve bastante são quase todos -senão todos- dissidentes do Olavismo, o culto ao Olavo de Carvalho que fez muita mediocridade obter fama e fortuna? Logo…odiar os filhos dos condomínios de luxo e seus admiradores da parte mais pobre da sociedade (que julgam ser este meio de ascensão cultural e social) que fazem o “L” gargalhando como provocação (maneira curiosa de militar) me parece estupidez. Eles, os palhacinhos de vermelho, estão descarregando fúrias e recalques (de quê?), aproveitando a festa do momento. A mágoa de quem amarga esta derrota deve, em minha opinião, ser dirigida aos incompetentes, aos descuidados, aos arrivistas, aos pedantes, aos medíocres promovidos por um público não exigente ao posto de formadores de opinião. Como não citar Machado de Assis, “Ao vencedor as batatas”? Aos perdedores arrogantes e presunçosos cabe o quê?

Lamentações sem ajustes de contas com as próprias falhas – e estudos de material adequado: História, Ciência Política, Sociologia – atrairão mais derrotas e mais lamentações.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.