Sobre as eleições de 02/10/2022

Fernando Pawwlow envolvido pelo espetáculo das tendas das candidaturas presidenciais na Pça. Sete, o Hyde Park que coube a Belo Horizonte; jingles, algum orador de ocasião, distribuição sorridente de panfletos, e Pawwlow percebeu-se tocado no ombro por um conhecido seu, também leitor (suspeito que muito ocasional) do blog:

“Paaaaww, se decidiu? Vi outro dia no seu blog que ele anda parado, sem postagem faz meses, desistiu?”

Pawwlow reprimiu o desejo de berrar “Publicar novos posts pra quê? Para não ter um comentário, um compartilhamento, uma nova inscrição no blog? Para toda vez que supostos leitores me encontrarem, perguntarem pelo blog denunciando a não visita ao mesmo, e alegando falta de tempo? Não vivo do blog, nunca arranquei dele centavo…” e, colhendo do espetáculo político partidário resistência e determinação, respondeu com seu máximo de espírito de conversação amena:

“Tenho me ocupado em cuidar da vida com suas preocupações ordinárias e retomando leituras (persistindo em releituras) e rascunhando textos sem descanso. O que houve neste ano de eleições não me inspirou a escrever; temi, por todo este intervalo de tempo, repetir o que muitos já dizem e eu próprio já escrevi no blog. Não houve, na verdade, fatos que, do ponto de vista da luta política, me mostrassem algum dado histórico novo. Jair Bolsonaro apenas resolveu se defender mais de ataques, mas muito tarde, na minha opinião.”

O conhecido de Pawwlow observou que as participações de Bolsonaro (de quem o interlocutor do blogueiro foi eleitor, ainda que sigiloso) em podcasts (de Igor 3K e Rica Perrone) podem ter mostrado aos não militantes da Oposição que o Bolsonaro criado pelo tratamento da mídia hegemônica é apenas mais uma “narrativa”, uma “construção” (termos que aparecem “aspeados”, pois penso que o uso frequente e compulsório deles irrita leitores habituados aos textos clássicos e ao estilo não contaminado por estas imposições de jargão), que há um político que erra e acerta e que não existe o “genocida” da ficção estabelecida. Não é assim que se conquistam as mentes dos indecisos, estas autoridades máximas do processo eleitoral? Não é este, o recurso de se dirigir às massas, o uso mais inteligente do tempo para políticos?

“Sim, claro que foi um acerto político, talvez o maior desde que eleito, mas não poderia ter sido feito ano passado, ou logo no começo da pandemia de covid? Preferiram-se as lives que a grande massa não assiste por considerá-las sonolentas (avisei sobre isto em https://fernandopawwlow.wordpress.com/2019/04/14/notas-14-04-2019/ : “Penso que a comunicação com os eleitores deveria ser melhorada; lives de Bolsonaro têm a inconveniência do formato, cansativo e quebradiço.”)”

Pawwlow neste momento da conversa irrita-se em silêncio – “Claro que este conselho foi ignorado, pois ignorado é meu blog e os de tantos outros que desistem dos seus, na contemplação das nulidades que, do alto das suas cadeiras de gamers, pontificam no YouTube como ‘formadores de opinião’ e ‘produtores de conteúdo’, tendo ao fundo dos seus cenários a estantezinha de livros estalando de novos, capas brilhosas, imaculadas, aparentando virgindade de manuseio e descarregando o repertório habitual – tudo que aprenderam nos vídeos do Olavo de Carvalho sobre ‘estratégia gramsciana’, ‘o Marxismo Cultural da Escola de Frankfurt’, ‘ estratégia das tesouras’, ‘acuse-os do que você é do ‘Decálogo de Lênin’. Os que de fato poderiam sustentar uma discussão com militantes de alguma leitura (dos que podem destruir os tais YouTubers mencionados com perguntas como ‘Em que livro está isso aí?’) não têm qualquer vez neste centro de arena política”.

“Não sei quem aconselha Bolsonaro, se há quem o aconselhe, na verdade. Não vejo neste grupo que conseguiu a vitória sobre a casta acadêmica e seu aparato de comunicação com as massas, o conhecimento do que encarna (aspirações, valores, desejos e luta decisiva contra o modelo político vigente desde o fim do Regime Militar) e da chance histórica que lhe foi destinada. Parece que Bolsonaro foi eleito num cochilo do sistema hegemônico e dos elementos que compõem o Pós-PT – o próprio PT, o PC do B, PSOL e PSDB e siglas e movimentos políticos associados. ‘A gente conseguiu a eleição contra essa turma toda, o pior já passou’. O Poder e seus representantes no Judiciário, na Imprensa e mesmo no mundo dos espetáculos (nunca houve tanto esquerdista furioso – fúria dirigida mesmo aos pares não alinhados – entre artistas que antes se orgulhavam do alheamento à política, tanta coragem em gente tíbia, tanto jargão de panfleto de esquerdismo ginasiano na boca de galãs e mocinhas de novelas) não deixou de perceber que o adversário não seria muito difícil de desestabilizar. A covid foi apenas um vetor, um pretexto trágico.”

O interlocutor de Pawwlow apenas murmurava interjeições, mas o fazia num tom que as tornava ininteligíveis, e Pawwlow sentindo-se confirmado, empolgou-se:

“Onde a reação que Bolsonaro deveria ter tomado logo no início do governo contra quem o acusasse sem provas? Onde a disposição de renunciar com pronunciamento enérgico na TV por se sentir destinado a passar quatro anos sem aprovar muito do que prometera aos eleitores? Onde autocrítica no que talvez fosse falha, de fato, na sua gestão (os efeitos econômicos da pandemia não poderiam ter sido atenuados se as medidas tomadas a poucos meses das eleições o fossem ano passado)? Onde o desejo de utilizar, sem pudores impostos por gente chique, a dramaticidade para se fazer entender pelas massas? Onde, enfim, a noção de que não se deveria, nunca, se deixar conduzir até as cordas? Levado às cordas… lembro que escrevi também sobre isso lá atrás, no começo mesmo do seu governo: ‘Bolsonaro ganhou as eleições e em menos de um mês está nas cordas’.”

https://fernandopawwlow.wordpress.com/2019/01/26/notas-26-01-2019/

“O difícil de entender na opção de utilizar tão pouco o diálogo direto com as massas é que Bolsonaro mostrou nos podcasts ser bastante persuasivo quando defende com humor (as piadas com Igor 3K, ‘você está olhando muito nos meus olhos’, a imitação de Geraldo Alckmin em sua rendição a Lula, por exemplo), num feitio de conversa de entorno da churrasqueira, seu governo e suas convicções. Quase impossível não imaginar o homem das ruas assistindo e pensando ‘Onde o monstro? Onde o Insensível? Onde o Genocida? Estou vendo aqui um cara legal, com quem eu gostaria de tomar muitas cervejas.’ Preferiu-se lives que apenas os devotos assistem do começo ao fim e os pronunciamentos do ‘cercadinho’ com a claque. Enquanto isso…”

“Foi o Governo dos meus sonhos – Pawwlow continua, motivado pela abstenção verbal de seu interlocutor- ? Decerto que não. Todos os que votaram nele apenas para derrotar o sistema de poder do PT e seus associados – e eu fui um deles, escrevi sobre isso desde a campanha de 2018 – compreenderam que seria um governo com acertos e erros, mas me surpreendi de maneira positiva com a conclusão das obras herdadas dos governos anteriores. Vi um Governo operoso na infraestrutura. Observei, como tantos que não são fanatizados pela Oposição, que a Imprensa ataca menos seu Governo e mais sua figura. Não é um bom sinal de um Governo quando as manchetes sobre ele são, em sua maioria, publicações grotescas como: ‘Plateia grita Fora Bolsonaro antes do show”, ‘atriz X se pronuncia sobre Bolsonaro: Um Monstro’, ‘Cantor Y : este disco é um grito do fundo de minha garganta contra o desgoverno deste imbecil’? Isto é que me desanima quanto a este governo, o desperdício do material grotesco produzido contra si; fosse Bolsonaro mais entregue ao diálogo direto com as massas, estas talvez se fizessem mais presentes nas caixas de comentários dos portais da imprensa hegemônica e nas redes sociais, observando que, se Bolsonaro está sendo atacado por estas figuras de Belle Époque do mundo artístico, só pode estar fazendo o que é para ser feito.”

Bom, foi o que consegui ouvir deste diálogo de Pça Sete de semana pré-eleitoral sem que minha bisbilhotice fosse percebida pela dupla. Burburinho e os esbarrões de uma quinta-feira às 17 horas e alguns minutos não ajudam muito também, mas um último bocado do que ouvi consegui salvar para os senhores:

“Se vou votar no Bolsonaro (Pawwlow respondeu ao seu interlocutor que indagou quase gritando, quase gritando também)? Ora, não se berra nas paredes que ‘Neutro é Detergente’? Não se cobra decisão e declaração de voto em cada oportunidade de conversa? Não se arremessam insultos (‘Você votou neste bosta, trate de ficar calado, não esquecemos de você em 2018, não’) aos que aderiram à Oposição (por oportunismo ou por ignorância política ou mesmo por covardia, por temor de marginalização social e econômica?) por conta de ser esta decisão tardia, segundo os intimidadores de prontidão? Eu teria que ter muita fé em um suposto amadurecimento do PT ou de Lula, mesmo porque seus pronunciamentos de palanque e o comportamento de sua militância demonstram o oposto disso para sequer imaginar alguma mudança de voto. Ciro Gomes? Ora, votar nele, sobretudo nesta altura dos acontecimentos, seria assinar atestado de neutralidade, e ‘Neutro é…’. Lembre-se, meu caro, que aconteça o que acontecer depois de domingo, ninguém, mas ninguém em absoluto, poderá alegar ignorância ou surpresa.”

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.