Sobre obituários

A Morte bateu à porta de tanta gente ilustre em 2021 e já neste janeiro levou ao Grande Encontro dos Grandes Sidney Poitier (quantas vezes assisti “Ao Mestre Com Carinho” na “Sessão da Tarde”? Quantos outros clássicos como “Adivinhe Quem Vem Para Jantar” nos “Corujão” da madrugada quase manhã?) que não tenho como me lembrar do peso que coube aos redatores de obituários neste intervalo.

Redatores de obituários mereceram atenção de Gay Talese, não? Texto célebre entre os perfis que o mestre do New Journalism trabalhou sobre os tipos famosos e anônimos (ou quase) de Nova Iorque, a descrição da rotina do obituarista do “New York Times”. Alguns obituários eram escritos com antecedência. Imagino que mesmo jovens célebres já eram temas de obituários (vai que Fulano morra no alto da fama aos vinte e poucos anos? Como confiar no dia seguinte?) e toda atenção aos dados do personagem e de seus circundantes era pouco. Lembro de palestra que assisti do Affonso Romano de Sant’Anna na qual ele contava ter visto Carlos Drummond de Andrade na rua, pouco depois de ter perdido sua filha. O abatimento do poeta lhe parecera premonitório; o escritor estava compondo seu obituário para o “Jornal do Brasil”, o qual seria publicado dali a poucos dias.

“Vocês não sabiam que toda pessoa famosa tem seu obituário já pronto para publicação? A pessoa ficou conhecida e já se pensa nisso.” Cito Sant’Anna de memória, mas era este o tom de seu esclarecimento aos estudantes. A Morte é tema que o Jornalismo não pode ignorar, fazer de conta que não existe como fato.

Perdi a conta das admirações que 2021 me levou. Não escrevi a respeito de nenhuma. Não quis improvisar obituário, textos compostos neste ritmo de “Não Posso Perder o Assunto” não são para quem não se preparou. Os textos que fiz em anos anteriores sobre admirações mortas me saíram sem esforço maior, pois eram autores nos quais pensava e sempre rascunhava algum texto: Günter Grass, Carlos Heitor Cony, Tom Wolfe, Ferreira Gullar, dos que me lembro. Sobre o Helio Fernandes escrevi ainda vivo; morto, pouco poderia acrescentar ao que já escrevera antes.

Mas nunca pensei em escrever sobre Charlie Watts. Não concebia um Stone morto. Depois da morte de Brian Jones, os Rolling Stones pareceram a muitos de seus admiradores se banhar na fonte da imortalidade. Charlie Watts desmentiu esta fantasia.

Agnaldo Timóteo, mesmo depois de meses em coma, parecia, senão imortal, ainda com força para atingir o centenário. Personalidade vital, combativa, desafiadora, quem o imaginava morto? Pelo que li dos famosos que o homenagearam em seus perfis no Instagram, o susto não foi pequeno. Alguns destes perfis eram seguidos por Timóteo, e não o seguiam de volta. Não duvido da reciprocidade da admiração, ou da autenticidade do golpe que sentiram. Imagino, sim, que estes artistas calculavam ainda ter tempo para segui-lo de volta. “Sempre encontro com ele nos estúdios de TV ou nos aeroportos…um dia vejo isso”.

Tarcísio Meira, quantos imaginavam sua partida tão para já? Apesar do Hermógenes do “Grande Sertão: Veredas” entre outros desempenhos notáveis, muitos resistiam em reverenciá-lo. Afinal…“ainda um senhor bonito, vai enterrar a todos nós, ha ha!”

Paulo José? “Ainda vamos ver muita coisa do Mestre, espere só”.

E Camila Amado? Eva Wilma? “Estas senhoras são mortais? Muito trabalho ainda à frente”

Sérgio Mamberti? “”Engraçadinha” e “Agosto” foram aperitivos, quantas séries e filmes, e novelas ainda teremos que assistir antes de pensar em qualquer obituário…”

Genival Lacerda …você tem certeza? Não era dos últimos grandes da música popular do Nordeste? Também não se imaginava este desfalque antes dele completar 110 anos, “e seria moço…”

Nelson Sargento, o que escrever sobre um dos gigantes da Mangueira, caminhando decidido aos cem anos, a Tradição Verde e Rosa encarnada? Melhor nem imaginar qualquer linha a respeito, deixa a Morte esquecer dele…

Não escrevi textos que seriam ligeiros a cada uma destas mortes. Que eu escreva sem este sentimento de pressa, de pauta a vencer. Como eles merecem. Certeza que farei melhor que faria agora, na corrida…contra quem? Contra o quê?

A rudeza com que a Morte lembrou a tantos que nem só velhos morrem: MC Kevin e Marília Mendonça tiveram suas trajetórias interrompidas na casa dos vinte anos em mortes inesperadas; queda de sacada de hotel e choque de aeronave com cabo de energia.

Que possível autor de seus obituários imaginaria escrever à altura de suas vidas e carreiras? Não que mortes repentinas, acidentais, de famosos sejam algo inédito. Mas ainda assim…não era preciso apreciar o trabalho de um e de outra para receber a notícia como uma rasteira seguida por um coice.

E não esqueci do Paulo Gustavo, merecedor, pelas gargalhadas que provocou, de mais umas tantas décadas. Mas seu obituário teve tempo de ser elaborado na convalescença, embora duvide que mesmo o obituarista mais técnico não tenha torcido por sua recuperação.

O que notei em alguns obituários dos personagens deste texto é que pareciam ter sido elaborados de última hora, mesmo sobre os veteranos. Quem acompanha desde adolescente e jovem dos anos 70 até aqui estas figuras ilustres, acostumou-se à velhice de muitos, fomos (falo de minha geração, a pouco anterior à minha também e a de agora) um tanto mal acostumados. Nossa visão de plateia foi muito privilegiada, contemporâneos de gente que não me parece de fácil substituição. O desfalque sempre é maior que a capacidade de recuperação, mas 2021 caprichou na retirada…2022 também não está começando como piquenique no parque: Peter Bogdanovich (espero que tenha reencontrado sua esposa, roubada tão jovem de si e que esteja se divertindo na continuação da longa conversa com Orson Welles) e o citado Sidney Poitier.

É duro pensar que tenhamos de ir compondo o obituário de muitos que, não nos enganemos, não demorarão a enriquecer o elenco celeste. Ouvi-los, vê-los, lê-los o mais que pudermos, pois.

Esta a lição severa e fria de 2021.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.