Sobre previsões que gostaria de ter errado

“Pawwlow, encerrou o blog? Não? Este ano você não publicou nada não, né?”

“Nada, nada não…dois textos apenas, mas nada…lembra de jornais de antanho? Muitos tinham slogans: Gazeta X, “Um Jornal Sempre na Prontidão”, O Berrante da Tribo Y, “Um Veículo de Combatentes”. Meu blog também deveria ter o seu: Fernando Pawwlow – Cadernos, “Um Blog Sem Leitores Mas Com Pauteiros Solícitos”. O que recebo de sugestões e cobranças me faz imaginar que não seguem e não compartilham os textos por timidez… não vivo do blog.”

“Imagino sempre seu juízo sobre o Governo, Jair Bolsonaro parece que não vai…”

“Se reeleger? Bom, fará muita diferença? Alvo de ataques de todo colunista que queira fazer boa figura, jurado de morte pela casta acadêmica (que nunca perdoou sua escolha pelas massas) e insultado dia depois de dia mesmo por artistas que a maioria julgava indiferentes à política, me admiro de ele ainda desejar permanecer no cargo. Deve ser masoquismo ou sentimento de missão muito inflamado.”

“Mas o Governo…”

“Para quem nunca esperou nada de grandioso e que escreveu votar apenas para não votar nas candidaturas patrocinadas pela casta acadêmica, acho mais que razoável. Divulga mal as obras e ações eficazes e é de lentidão de cágado reumático nas respostas (quando responde, quando julga necessário mostrar que está vivo) aos agressores, e isto, esta semi-inatividade política, mata qualquer governo, por mais operoso e diligente que este possa ser. Veja meus textos de pouco antes da eleição e pouco depois da posse. Como eu gostaria, amigo, de ter falhado uma a uma das previsões. Muito do que ameaça o Governo e seus apoiadores (ainda que de ocasião, ainda que quase compulsórios) vem do que apontei nos textos que você e outros leitores com os quais converso apontaram como ‘pessimistas’ e ‘negativos’. ‘Você quer ficar em cima do muro com pose’ ”

“Você ali, e te avisei como amigo, Pawwlow, parecia se colocar na poltrona mais confortável. Desse certo o Governo Bolsonaro, você se revelaria algo surpreendido. Desse errado, postaria os links dos textos no blog…assim fica fácil analisar Política…”

“Não se trata de bancar adivinho da aldeia, eu fui honesto com leitores e amigos: a edificação carecia de base confiável e poderia ser derrubada por campanha decidida de setores organizados e experimentados na luta política. O imponderável surgiu com a covid e Bolsonaro teve seu Governo quase que confiscado pelo STF; eu teria renunciado e voltado anos depois fortalecido pelo choque e pelo exemplo de desprendimento. Mas não o fez, e sobrou-lhe o prazo de dois anos para tentar reerguer o País e reconquistar a simpatia das massas, desviada pelos que tiveram o talento de atribuir ao Bolsonaro todas as perdas de vida e de economia. Como se confiou na sabedoria popular mais que um combatente político recomendaria, Bolsonaro de fato corre risco de assistir a seus pesadelos se apresentarem sólidos e com nitidez de fotógrafo cinematográfico; derrota no Primeiro Turno seria fatal para sua biografia, e desmoralizaria, de maneira quase definitiva, qualquer oposição ao sistema político do PT e associados, e ao Pós-PT.”

“Lembro de você insistir neste Pós-PT, o tal sucessor do PT..”

“Não será sucessor do PT como se PT fosse ser extinto ou ‘descontinuado’. Trata-se de convivência entre PT, PSDB, PSOL e PC do B como uma frente única, ou abrangente a ponto de fazer oposição a ela parecer extremismo de nostálgicos. E não está aí? Não se apresenta como quase inevitável a chapa PT-PSDB para ‘salvar o Brasil deste desgoverno genocida’? Colunistas e seus patrões e casta acadêmica enfim experimentando a paixão correspondida. Nunca vi tanto esquerdista berrando declarações de amor à Globo e aos generais que ‘sabem dizer não a Bolsonaro’. Aposentou-se uso de máscaras de isenção e equilíbrio mesmo nos colunistas que foram sempre tomados como modelares por mais que se discordasse deles. Por sinal muito rigor na preparação de texto tem o mesmo destino: pijama. Como alguns vêm escrevendo como redatores de fanzine ginasial…não, não darei nomes. Para quem é segredo a decadência de antigos mestres? ‘Bolsonaro entrega genocídio e discurso de ódio’, ‘Bolsonaro ainda responderá por tantas mortes e tanta divulgação de ódio à ciência’…ah …você conhece o repertório…”

“Por que, tendo inimigos tão ridículos e incompetentes, Bolsonaro vem sendo visto pelas massas como monstro a ser afastado por combinações políticas inesperadas? Não era para ele triunfar sobre escribas que parecem acreditar que escrevem para tolos?”

“Amigo e leitor, você parece não ter examinado o conjunto de blogueiros e simpatizantes autores de perfis de redes sociais de apoio a Bolsonaro…escrevem ainda pior que seus opositores. Muito esquerdista marca presença nos comentários para se divertir com amostras de analfabetismo e primarismo. Os mais eruditos citam (de modo que deixa claro que nunca leram) ‘marxismo cultural’, ‘Escola de Frankfurt’, ‘estratégia das tesouras’, ‘Antonio Gramsci’ e, claro, o ‘Decálogo de Lênin’; ‘acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é’ o refrão mais encontradiço. Fórmula infalível, penso que você concordará, para o fracasso e o ridículo. Que esperar, se formos justos, de quem não o desaconselhou com energia a aventura presidencial, quem não o tocou para a corrida parlamentar nacional, esta que poderia ser ameaça ao que se dizia digno de combate? O resto é consequência natural, apenas.”

“Então..”

“Então nada..não sou profeta, e não quero ser. Não quero mais acertar qualquer palpite. Vaidades desta natureza não me (nos) salvarão se o pior se realizar. Os palhaços não se darão conta da mudança brusca de temperatura e nem mesmo sob tempestade se compenetrarão do que se perdeu e se perderá ainda. O desperdício em História é cobrado de modo severo demais. E nem penso na eleição meses à frente, olha ao redor, estas carrancas correndo das nuvens pretas cadentes não serão suscetíveis ao esforço (preciso dizer que muito, muito tardio?) de apresentar culpas e méritos de forma mais elementar possível. Os ânimos estão trabalhados e prontos para o avanço contra quem ‘negou a ciência e apoiou o genocida’, conforme lhes ensinam. Quero errar, não quero adivinhar futuro não. Que o Deus que invocaram no exercício da presunção e do amadorismo resolva negar os observadores que pressentem o fracasso certo”.

E me percebi falando sozinho, meu interlocutor correndo atrás de seu ônibus na Praça Sete de fim de tarde de mormaço e pressa de dezembro que se retira furioso.

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Que leitores e amigos do blog tenham 2022 produtivo. Abraço do Pawwlow!

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.