Sobre um ano de máscaras

Máscaras; máscaras que se colocam sobre as faces, máscaras que revelam as faces verdadeiras que se escondiam nos dias pré-máscaras. Máscaras até nos sonhos, assim foi 2020 e acredito assim será lembrado no Futuro.

Máscaras que revelam a volúpia no exercício do Poder em bocados miúdos: seguranças de supermercado falando alto e grosso por ajustes de milímetros das máscaras, organizando filas para entradas em estabelecimentos comerciais aos berros. Seguranças de bancos respondendo às perguntas mais triviais com o ar da autoridade que concede ao homem da rua indefeso alguma satisfação por caridade apenas.

Máscaras que revelam os tiranos nos quadros técnicos estabelecendo rotinas segundo critérios ditos científicos que mudam segundo conveniências e caprichos. Decretou-se abertura de comércio pouco antes das eleições e seu fechamento quase imediato assim que as mesmas eleições passaram. Qual o critério sanitário seguiu-se aí? Qual queda expressiva de casos da covid houve antes do comparecimento compulsório às urnas?

Questiona-se (quando se questiona) estas decisões com todo cuidado possível; quem deseja ser “cancelado” e, dependendo do humor das autoridades, processado?

As máscaras de governantes locais no gozo do Poder superior ao do Presidente da República, por óbvio com muito mais votos que qualquer prefeito ou governador. Estes governantes locais aplaudidos e reeleitos por cidadãos exibem a máscara do Poder que toma qualquer dúvida como abuso e questionamento por insulto.

Eleitores destas autoridades utilizam a máscara do detentor do conhecimento científico que faz, aos seus olhos, questionadores de medidas afigurarem-se como caipiras desinformados. Quanto fiscal de ajuste de máscaras e de comércios abertos esta pandemia revelou…quanto denunciador se escondia antes de 2020….não acredito que a máscara da vizinhança amena volte a se ajustar sobre as faces com facilidade.

A máscara da hipocrisia nos shoppings que removem bancos gratuitos pretextando protocolo de segurança ao mesmo tempo que vendem, via acesso às praças de alimentação, o direito à remoção das máscaras aos que lancham e esperam por seus lanches. Aos clientes das lanchonetes e cafés o vírus não assombra, mesmo que as bocas não estejam ocupadas em comer e beber. Nunca vi, nestas situações, qualquer guardinha de shopping admoestar pessoas sem máscaras.

Gente do meio artístico também vestiu suas máscaras e mostrou o quanto há, de fato, de respeito entre colegas; insultos, desqualificações, acusações de homicídios por conta de festas por gente que não raro também promove suas festinhas.

“Mas Fulano promoveu aglomeração considerável”, como se o vírus dependesse de superlotação para realizar seu trabalho de destruição.

Artistas não temendo insultar colegas, e mesmo parcelas de seu público; qual sacrifício é demasiado em nome da benção da Imprensa regida pela casta acadêmica?

O Poder, o Poder decidido e sem desejo de dissimulação, a máscara escolhida por tantos, por quase todos que prezam a manutenção do prestígio e a garantia da sobrevivência sem sobressaltos. Há um lado a se obedecer, e este exige o tratamento de “Doutor”.

Colunistas também decidiram remover a máscara de imparcialidade e ostentar suas preferências sem qualquer preocupação com sutilezas ou respeito à inteligência de leitores; jornalistas que, nos tempos do PT, suportavam insultos dos MAVs petistas com resignação de santos, agora, sob Jair Bolsonaro, em tempos de pandemia, anunciam julgamentos da História não apenas para o Presidente e seus apoiadores políticos como para seus eleitores e simpatizantes, ou mesmo aos que, não gostando de Bolsonaro, não declaram saudades do PSDB e do PT. A Máscara do Pós-PT em tamanho GG, cobrindo rosto e pescoço, no feitio de capuz. Impressionam, ninguém supunha tanta coragem em gente antes ou tímida ou que se declarava desinteressada de política.

Não apenas no Brasil máscaras de valentia foram adquiridas; Donald Trump e seus apoiadores perderam o Poder por atraso nas compras destes artefatos; insultados dia depois de dia recuaram às cordas até o nocaute previsível. Os militantes negros e latinos do Trumpismo não cometeram estes erros e foram responsáveis pelos números expressivos de Trump entre suas fileiras. Mais gente houvesse como Candace Owens e talvez o desfecho tivesse sido outro; gente como ela (e Larry Elder) faz toda a diferença na guerra política. A máscara da disposição para briga parece fixada nos seus rostos como a face verdadeira adquirida por esforço e merecimento. E também a máscara da coragem para admitir erros da candidatura que apoiaram no lugar de recorrer às teorias de fraudes (teorias até válidas, mas de eficácia discutível) e demais explicações conspiracionistas.

No Brasil, adversários da casta acadêmica e do Poder do Pós-PT confirmaram em 2020 sua preferência pela máscara da leviandade, da ligeireza, da preguiça para estudos teóricos, da afoiteza e da improvisação. Parece também máscara já ajustada ao rosto como pele adicional; obtida pelo hábito, pela inércia.

Difícil o otimismo neste desfile de máscaras que promete ser duradouro além do suportável. O Poder soube se manter e se fortificar, esta a verdade desalentadora.

XXX

2020 conseguiu desmoralizar as previsões mais sombrias para anos vindouros, e mesmo a esperança de 2021 menos massacrante vem sendo negada nestes últimos dias de 2020.

O que se pode dizer é que não seremos colhidos de surpresa em pleno sonho de Ano Novo mágico; 2021 nos encontrará já um tanto sovados e desiludidos.

Quanto a mim, desejo 2021 feliz e produtivo aos amigos e leitores do blog.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.