Sobre eleições – notas soltas

Eu deveria ter ficado feliz com as eleições, meu blog confirmado nas suas análises e ensaios de previsão política: o Pós PT estabelecido como realidade política e o PT como um sobrevivente coadjuvante, resignado a torcedor pelas Esquerdas. Que interessados procurem no arquivo do blog meus textos sobre o Pós PT e a tolice de quem ainda combatia o reflexo óptico de um astro já desaparecido (como força preponderante e decisiva, bem entendido). As capitais mais populosas do Brasil negando cronistas políticos presos a hipóteses já desgastadas. Haverá quem colha as lições? Há quem considere que há lições a se colher das urnas ainda quentes?

“Guilherme Boulos não ganhou em São Paulo, idem Manuela d’Ávila em Porto Alegre”.

Mas chegaram ao Segundo Turno ultrapassando com folga candidatos do PT. E perderam fortes, mais que habilitados para eleições futuras. Mesmo João Campos do PSB na sua vitória sobre Marília Arraes do PT manteve a vitória no Pós PT, na Esquerda.

Considerando o PSDB na sua nova face também um dos braços do Pós PT, a vitória de Covas confirma a tese que venho defendendo.

Não, não me sinto feliz tendo acertado. Preferia, muito, ter errado. Quem achou difícil impor perdas ao PT achará quase impossível, ou mesmo impossível, causar arranhões mínimos no Pós-PT. Mesmo por não pensar a sério no assunto. Eles, os representantes e beneficiários deste novo quadro político, vieram para ficar por tempo próximo ao que se entende por “sempre”.

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E a vitória do Alexandre Kalil no Primeiro Turno em Belo Horizonte?

Bom, quem se surpreendeu? O candidato no Poder tendo contra si diversos candidatos, tanto à Esquerda quanto à Direita. E com a imprensa local cantando seus cuidados contra a pandemia….os eleitores da Direita ou apenas anti-Esquerda (não, as duas condições não são sinônimas) não fizeram o cálculo do mal mais palatável como fizeram os eleitores da Esquerda ou anti-Jair Bolsonaro do Rio de Janeiro. Renunciar à candidatura de preferência, adotar outra que aparente ter chance, e com o malogro desta… até que por fim tenha que se votar na que se considere a menos péssima.

Este ânimo político é adquirido.

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Jair Bolsonaro sofreu reveses que não precisava, superiores ao seu desgaste real, o apontado por pesquisas. Teria mesmo escolhido os candidatos mais sintonizados com o discurso que o elegeu Presidente? Não me parece que houve critério. Caso não houvesse candidaturas ideais, que se abstivesse de apoio, ainda que apenas nominal. As preocupações do cargo são, e sempre serão, excelente desculpa para abstenção quando não se tem representantes populares nos estados. Quem convencerá as massas de que o Presidente ocupado no Governo tem obrigação de apontar nomes locais?

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Que há quem se pergunte se valeu a pena o voto em Bolsonaro, isto não se duvida. Mas ainda ele conta com os que não desejam votar em candidatos de filiação muito óbvia à Esquerda. Mas o Pós PT em versão mais rósea tem avançado. Os articulistas de internet, os vlogueiros do bolsonarismo, não parecem ocupados de nada que não seja o pacote “China-urnas eletrônicas fraudadas (ou possíveis de fraudar) – vacinas que matam – Foro de São Paulo”. Estes militantes podem ser eficazes (por enquanto) na luta contra PT, PSOL, PC do B e satélites, mas inócuos contra partidos de Centro Esquerda e Centro Direita que compõem o Pós PT. E deste composto “palatável”, “científico” (Bruno Covas debitou sua vitória aos que “acreditam na Ciência e no Equilíbrio”, assim que houve anúncio de sua reeleição) virá o esforço concentrado que poderá conter o bolsonarismo. O que se vê no Twitter é, sobretudo, o trabalho desta militância que se apresenta como “hipster”, antenada, não medieval. Dão expediente nas redes sem descanso, e esta eleição mostrou que o resultado vem, portanto…

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“E o Donald Trump?”

Militantes da Direita bolsonarista ecoavam a Direita trumpista: “ele dará a volta por cima”; “Claro que houve fraude, vou te mandar o vídeo do pacote de cédulas no lixo”; “na Suprema Corte ele virará o jogo”; “há provas, até demais, da roubalheira”, e tantas outras mensagens do tipo. Algumas engraçadas, outras tocantes pela ingenuidade.

Bom, se houve mesmo fraude nesta escala, acreditam mesmo que haverá meios de a conter com denúncias que poderão ser desqualificadas como “não técnicas”? Há formadores de opinião confiáveis e respeitáveis nesta luta que exige muito mais de convencimento das massas que combates jurídicos? Ou profetas da Terra Plana e defensores da teoria segundo a qual Michelle Obama é, na verdade, um homem, serão os adversários da casta acadêmica nesta guerra pelas mentes?

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Tenho para mim que a não decretação de medidas de emergência (que não sei se chegariam à Lei Marcial) logo após os “protestos” (na verdade, crimes; depredações, incêndios, agressões a eleitores de Trump) quando de sua posse desenhou seu destino. Tudo que veio depois consequência apenas. O discurso de ódio como jamais se viu contra um Presidente; a desqualificação sem descanso de sua figura e de apoiadores; as violências do “Black Lives Matter” subjugando cidades inteiras; a censura de redes privadas de comunicação de massa aos seus pronunciamentos pré-eleições de 2020. Tudo teve início nesta atitude de “já ganhamos; uma hora eles nos aceitarão, terão que lidar com a realidade”. Inexperiência ou soberba própria de sua natureza, não importa; a conta chega à mesa do mesmo jeito.

Bolsonaro parece ter atitude idêntica frente aos que o desqualificam, e aos seus apoiadores, ainda que apoiadores de ocasião. Não parece consciente de que decretaram guerra a ele. Entorpecido por conselheiros de preparo discutível, conta ainda com a (referida acima) recusa das massas aos seus opositores mais ruidosos, e parece, pois, despreocupado.

Muito malogro advém de não preocupações, a História é gorda de exemplos. Lerão História, e Filosofia da História, seus conselheiros, seus imediatos intelectuais?

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O que fica, no balanço final deste ano eleitoral em ano de prisão domiciliar para muitos, é que a casta acadêmica firmou seu triunfo na arena institucional. As urnas a legitimaram na Política mais visível, a que aparece aos olhos das multidões à frente dos bastidores de departamentos acadêmicos e redações de jornais e revistas, seu chão de domínio há décadas. Repito: Covas agradeceu “aos que acreditam na Ciência”.

Este será doravante o agradecimento de muitos, mundo afora. Duvidam?

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.