Sobre lições de jornalismo por Elio Gaspari

Este não é um blog sobre novidades; pode conter reflexões sobre algumas, mas é onde minhas notas nos cadernos mais aproveitáveis são publicadas. Qualidade segundo meu padrão, este o critério. Logo notas sobre palestra de Elio Gaspari (mediada por André Petry) aos estudantes de Jornalismo (“Jornada Galápagos”) em outubro (ou publicada no YouTube em outubro) não serão extravagâncias.

Como observou Petry aos estudantes, aquela seria ”oportunidade de ouro” pelo fato de Gaspari não dar entrevistas, palestras, etc…mas Gaspari tem uma entrevista-palestra (disponível no YouTube) no Décimo Congresso da ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e uma minipalestra de cerca de vinte minutos no Nono Congresso da mesma associação (também disponível no YouTube), logo…

Mas…vamos considerar algo não rotineiro. Servir raridades ou semirraridades a quem não sabe estar diante de uma não adianta muito, sim? Pois tanto nas palestras da ABRAJI como neste encontro (“Galápagos”), os ouvintes riram de tiradas já conhecidas de quem quer que tenha lido os perfis de Gaspari publicados na revista “Imprensa” (dois textos de autoria de Zuenir Ventura) e histórias já contadas no “Notícias do Planalto” de Mario Sergio Conti. Ou mesmo passagens e ditos engraçados constantes das duas outras palestras de Gaspari. As perguntas e questionamentos são denunciadores do pouco conhecimento sobre a “raridade” que os estudantes tinham diante de si.

Elio Gaspari é um jornalista da maior importância e um dos últimos gigantes ainda vivos e em atividade, isso não se pode discutir. E estudantes perguntarem apenas sobre questões da política atual, não manifestando curiosidade sobre sua passagem pela “Veja” e pelo “Jornal do Brasil”, mostra que a noção de relevância vem se perdendo; as perguntas que fizeram ao jornalista lendário poderiam ter sido feitas a qualquer um outro jornalista.

Elio sabe entreter plateias jovens e nada exigentes (quem pode exigir algo do que se conhece pouco ou nada?), com suas observações sobre a Lava Jato e sobre Sérgio Moro. Uma geração formada para ser “agente de transformação social através dos meios de comunicação”quer ouvir críticas ao que acreditam ser ”Direita” e tudo que tiver o selo de “Aprovado” pela casta acadêmica, e Elio soube servir o cardápio.

Nada de profundo, nada de questionar dogmas. A quebradeira das empreiteiras como sendo consequência da Lava Jato e não da economia que vitimou não apenas as empreiteiras, um exemplo. A lembrança, em tom desolado, sobre as críticas que as cotas raciais receberam (como se questionar cotas fosse atestado inquestionável de racismo e insensibilidade, quem sabe um crime, decerto uma aberração) de grande parte da Imprensa, outro.

Mas um homem experiente sabe com quem fala; houve estudante (de Belo Horizonte, se não estou enganado) na plateia que questionou se todas as notícias devem ser dadas, se noticiar tudo não serve a interesses …sem qualquer observação por parte de Gaspari ou de Petry de que o estudante estava defendendo, em outras palavras, censura.

E Gaspari tentou ensinar o que não se ensina: como lidar com pessoas que, no caso, são fontes. Ora, isto ou o sujeito sabe, ou não sabe – e aprende, como ele aprendeu, como no episódio com Francisco Campos – ou não aprende e morrerá sem saber. Não tratar a fonte como inimigo a quem se interpela em tom de comissário político ou como a um tolo que se pode tapear sem susto (e não permitir ser tapeado pela fonte, como Gaspari também observou. Saber cortar contatos ou estabelecer limites).

Isto é sabedoria, e sabedoria não se ensina. Como um militante que se tem na conta de “agente de mudanças” poderá tratar a fonte com respeito? Como um jornalistazinho que julga poder decidir o que deve ou não deve ser notícia segundo critérios pseudopolíticos saberá extrair de sua fonte tudo o que ela pode, ainda que como hipótese, oferecer?

(Gaspari fosse na sua juventude como um destes Comissários do Povo de café literário teria feito a entrevista envolvida em texto extenso e muito bem escrito, com Filinto Müller na “Veja” – matéria de capa, início dos anos 70 – na qual procurava analisar o personagem sem moralismos e contextualizando sua atuação no Estado Novo?)

Gaspari citou (como citara na ABRAJI) os exemplos históricos da cobertura do assassinato de John Kennedy e do jornalista que “furou”a imprensa mundial em 1945 noticiando o fim da Segunda Guerra Mundial como paradigmas do jornalismo. Bom…podem até ser, mas penso que jornalistas brasileiros devem colher da História do Brasil e da Imprensa brasileira seus parâmetros no ofício. Ou aqueles jovens escreverão para público norte-americano sobre política norte-americana? Ora…eles, os norte-americanos, têm os seus …

As coberturas dos momentos da História do Brasil têm seus épicos, não? Não temos as campanhas do Passado que chegaram até os dias atuais pelos livros, por coletâneas de artigos? Mesmo as compilações de discursos parlamentares dos grandes nomes da História brasileira servem, como artigos do próprio Elio brindando lançamentos editoriais sobre História do Brasil (lembro quando Elio escreveu artigo sobre o lançamento de cds com discursos parlamentares) o confirmam.

Em outro ponto Elio confessa ler livros apenas na versão eletrônica, ele que teve biblioteca de livros impressos que ocupavam um apartamento (a “Malan”). Elio pode se dar a esta escolha (que considero péssima, apaixonado que sou por livros e frequentador assíduo de sebos), mas ele deveria ver que ali em sua frente estava porção de jovens necessitados de leituras e releituras e de adquirir o hábito de frequentar sebos. Isto, mestre Elio, só pode ser feito com impressos; não acredito que eletrônicos tenham todos os títulos já publicados e ofereçam releitura como o material físico. Sebos… de eletrônicos… Não é possível que ele não tenha notado em muitos ali vocabulário restrito que denuncia leitura apenas acadêmica e ocasional. Eu em seu lugar teria dito: eu me dou este tipo de leitura apenas, mas a contrarrecomendo aos que precisam estudar, e estudar muito.

Ele não era o professor daqueles jovens mas eles foram ali em busca de algum conhecimento adicional, ainda que sem a noção do que de fato precisam aprender e precisam perguntar. Lembro de palestra que fui do Zuenir Ventura (na Universidade Federal de Viçosa) onde ele corrigiu uma estudante, observando que sua pergunta era impertinente e imprecisa. É o preço de sentar numa cadeira e ser ouvido com reverência, não?

Pois suas histórias sobre reportagens e conselhos sobre evitar obviedades e não deixar de alimentar a curiosidade são agradáveis de ouvir, mas inúteis aos que procurarão fatos para reportar sem prévio conhecimento de seus temas ou cultura geral mínima.

O conselho deveria ser: “leiam, releiam, nunca fiquem no conhecimento superficial de um assunto. A curiosidade se alimenta de dados do Mundo; Mundo que não foi inventado com o nascimento de vocês. Vocês fazem parte de um elo histórico; compenetrem-se deste papel de continuadores de uma tradição de grandes jornalistas.”

“Mas ele recomendou livros!”

Verdade. Recomendou e o canal que publicou a palestra (“Galápagos Newsmaking”) fez mesmo um vídeo só deste pedaço, no qual ele recomenda livros. Segundo Gaspari, “vocês tem que ler em inglês, é essencial ler em inglês”. Bom, muito material importante e muita novidade de fato só se lê em inglês, mas penso que o conselho deveria ter sido: “leiam os clássicos do idioma português, pois é nele que vocês deverão se expressar e expressar de maneira a fazer o leitor querer aprender mais sobre o que você escreveu. Ler clássicos do pensamento político ainda não traduzido do inglês para o português é importante, mas se vocês não dominarem o idioma, mesmo este conhecimento servirá de pouca coisa.”

Livros? Esperava ouvir:

“Leiam, sem hesitar, tudo que caírem em mãos de compilação de escritos dos grandes do Jornalismo, leiam muito as crônicas do Nelson Rodrigues, se puderem leiam todo o ciclo de crônicas do Carlos Castello Branco agrupados nos volumes (da Ed.Nova Fronteira) ‘Os Militares no Poder’. ‘Depoimento‘ do Carlos Lacerda, sem sombra de dúvida. Assim como recomendo que vocês procurem sem descanso a série de entrevistas realizadas pelo ‘O Estado de S.Paulo’, ’A História Vivida’. Crônicas do Carlos Heitor Cony, sobretudo as reunidas em ‘O Ato e o Fato’. O que encontrarem do Paulo Francis levem para casa e devorem sem medo de repetir o prato, assim como devem adotar sem medo a dieta Rubem Braga, qualquer das suas compilações de crônicas vale cada centavo. David Nasser, digam o que quiserem (mesmo que com razão) seus críticos, também é autor a se conhecer, a mergulhar. Ah…tantos…Joel Silveira, sobretudo a compilação ‘Tempo de Contar’, de preferência a terceira edição, revista e ampliada (José Olympio Editora). Mas há dois livros que considero mesmo fundamentais aos que estão estudando o ofício e precisam de um guia sobre redações e macetes sobre fugir dos erros mais primários: ‘A Língua Envergonhada’ do Lago Burnett, de preferência se vocês encontrarem a edição ‘revista e aumentada’ da Ed.Nova Fronteira. Este livro tem observações sobre as redações, modismos estúpidos e até mesmo uma espécie de manual de redação. O sujeito foi um dos grandes nomes na fase de ouro do ‘Jornal do Brasil’. Outro que considero inevitável e incontornável é ‘A Regra do Jogo’ do Cláudio Abramo (da Cia das Letras), jornalista importante n ‘O Estado de S.Paulo’ e na ‘Folha de S.Paulo ’; assino embaixo de muito do que ele diz sobre a necessidade do jornalista ter cultura geral (para não se acreditar crítico quando se é apenas um repetidor de clichês subideológicos) e conhecimento dos clássicos da Literatura, sobretudo os do idioma em que se escreve.”

Mas quais livros Gaspari aconselhou (dos disponíveis em Português)?

A tradução de “O Reino e o Poder” do Gay Talese, sobre o “New York Times” e… “Notícias do Planalto” do Mario Sergio Conti sobre a imprensa brasileira (e como ela agiu durante a eleição de 1989 e o consequente Governo Fernando Collor). Ambos livros importantes, sem dúvida….mas que um jornalista que ignora a história de seu país e sua Imprensa poderá colher em um livro sobre jornal de país de realidade em tudo diferente da brasileira? E não seria digno de críticas um jornalista recomendar livro onde em cada página em que seu nome é citado, este o é de maneira elogiosa? Seria mais compreensível e defensável que Gaspari recomendasse, sem modéstias estúpidas e hipócritas, seus livros sobre o Ciclo Militar. Pois são também livros que considero (que quase todos, ou todos, consideram) obrigatórios em bibliotecas de jornalistas.

Ali, recebendo estes conselhos, estavam futuros fazedores de jornais e revistas.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.