Sobre Crimes e “Criminosos Gays”

“Entramos no Uber e o motorista já nos olhou desconfiado. Não quis conversa e mostrou-se surdo às observações sobre o trajeto desejado por nós.”

Não há conversa com casal gay que não tenha uma historinha desta no meio. Estes são até os com menos azar: há os que percebem o sorrisinho debochado, piadas e o “convite para abandonar o veículo”.

“Fui no bar e vimos casais abraçados, se beijando. Que Bom! Pois beijei meu (minha) namorado(a) e pessoas das mesas vizinhas fizeram cara feia, e o garçom (ou mesmo o gerente) veio pedir que nos comportássemos. Estávamos incomodando.(…) Ih, lembra do dia em que pais pediram aos filhos para não se aproximar da nossa mesa?” Há os que foram mesmo convidados a deixar o barzinho (claro que após o pagamento da conta, com o devido acréscimo ao garçom que não raro não procurou disfarçar a má vontade).

Não, não se trata de “Mimimi” (termo idiota), de vitimismo. Duro ser tratado assim. Quando um dos nossos (parentes ou amigos, não importa; gente de nossa estima) recebe este tratamento, percebemos o quanto é. Críticas e poréns aos movimentos gays (ou suas divisões mais visíveis e ruidosas) não se anulam, e não devem se anular, mas a negativa da necessidade e legitimidade destas frentes de defesa não resiste ao exame destas violências diárias, roedoras.

Talvez algumas queixas dos gays pareçam chorosas e autopiedosas, como a da identificação “casal de gays” ou ”casal de lésbicas” quando algum crime é cometido por homossexuais que vivem juntos. Os homossexuais notam que quando crimes semelhantes são cometidos por casal de heterossexuais, não vem o adesivo “CASAL HETERO MATA CRIANÇA” na manchete. Há, sim, crimes cometidos por motivação homossexual (como lésbicas que matam o filho de uma das parceiras) ou família de uma das parceiras que não aceitava o relacionamento, e penso que esta motivação não deve ser omitida no corpo da matéria, mas a apresentação tende a estigmatizar (em sociedade que observa suas prevenções contra homossexuais com dedicação) homossexuais em sua quase totalidade.

Crianças arremessadas pela janela por pais ou vítimas de tarados hetero não costumam contar com a apresentação da sexualidade dos autores dos crimes berrada nas manchetes. Casos onde crianças são vítimas de violência sexual por parte de um dos parceiros heterossexuais (não poucas vezes com omissão ou colaboração do outro parceiro, em geral a mãe) não constituem fenômeno dos mais raros e no entanto a apresentação destes crimes é bem menos espalhafatosa e estigmatizante.

Como proceder? Não sei, que respondam os ocupantes das cadeiras da casta acadêmica que tanto amor juram aos gays (e que se especializam em acusar críticos de excessos dos movimentos gays como “homofóbicos”, “fascistas”). Não há nos cursos de comunicação social pesquisadores que possam elaborar maneiras de apresentar notícias que não coloquem (ainda mais ) a sociedade contra gays? Não se percebe neste meio que a maioria que nunca cometeu crimes sai às ruas entregue à população impressionada por matérias redigidas sem maiores cuidados?

“Mas quem já é homofóbico…” Continuará sendo, mas com o combustível cedido pelos tabloides …

Vejo o caso do travesti abraçado pelo Drauzio Varella; o que deveria ter sido enfatizado nos críticos do abraço do médico no presidiário era o crime deste (violência sexual seguida de morte de uma criança), sua condição de travesti sendo, na minha opinião, secundária.

Mesmo porque Drauzio Varella deveria ter sido cobrado, em muitas outras ocasiões, sobre atenção às vítimas de crimes, ocasiões em que não houve qualquer cobrança dos que hoje gritam e mostram-se surpresos (apenas agora) do médico destinar seu afeto e atenção aos presos, pouco – ou nunca- às vítimas (os defensores do médico poderiam exibir cuidados deste às vítimas ou familiares de vítimas caso quisessem mesmo defender o amigo e não apenas fazer proselitismo da piedade e grandeza moral da casta acadêmica, não? Por que não o fazem? Por não terem notícia deste carinho? Eu pouco sei dele para assegurar que ele nunca se preocupou com vítimas e/ou familiares, sim?).

Ah… mesmo defensores dos gays ou autointitulados defensores dos gays pouco vejo ocupando seus espaços para defender os que não são estrelas de noticiário policial, contudo. Sabe o gay que não chega a ser agredido (e morto) por ter conseguido escapar?

Certa vez escrevi no blog sobre amiga que teve que correr com a namorada de um sujeito armado de faca que anunciou que as mataria na Pça da Liberdade, numa tarde. Não receberam qualquer ajuda, nenhum policial deteve o maluco (maluco mesmo? ou um criminoso que escolheu bem as vítimas?). E não estavam, a minha amiga e a namorada, protagonizando qualquer atentado ao pudor. Conversavam de mãos dadas, contemplando a praça, falando de seus planos para o futuro imediato.

Eu quando morava no Barreiro de Baixo (1990) tinha como companheiro de banco de ônibus muitas vezes um colega de trabalho do meu pai, homossexual. As viagens (quarenta minutos do Centro, com trânsito desimpedido; hora e pouco, com trânsito congestionado) me foram muitas vezes aulas sobre Antonio Gramsci e Norberto Bobbio; quem primeiro me falou (e recomendou com energia que o lesse) sobre Alexis de Tocqueville foi o tal colega de viagens de ônibus. Um homem culto, sim? Um dos petistas cultos que conheci (lembro dele comentar comigo, entusiasmado, sobre palestra sobre estilo helenístico).

Pois este estudioso, este homem raro, foi perseguido certa vez por um grupo de torcedores de futebol que resolveu descer do ônibus apenas para “dar porrada no viado”. Correram atrás dele por alguns quarteirões e assim o colega de viagens de ônibus leitor de Simone de Beauvoir teve que se esconder como um rato de um bando que, fosse reunido num só indivíduo, não apresentaria milésimo de sua cultura. Conseguiu assim escapar da surra (talvez da Morte). E o trauma? Deste não conseguiu escapar: odeia futebol e tudo que lembre futebol. Quem não odiaria?

Bom…algum policial à vista? Seu nome nas estatísticas? Ah…

Há homossexuais que atentam, com seus exemplos infames, contra a reputação de todos, e estes devem ser apontados pelos homossexuais como exceções, como criminosos ou abusadores. Há que pensar neles com severidade a cada vez que se sintam como alvos após a divulgação de seus (dos criminosos) feitos. O corporativismo, neste caso, é o inimigo da maioria que vive ocupada em sobreviver e em tentar obter alguma felicidade. É luta que cabe aos homossexuais enfrentar.

Há os que esperam com avidez por crimes cometidos por homossexuais para o descarrego de seus ódios (ainda que, em alguns casos, ódios justificados) e aos observadores “neutros”, a luta é escrever acima (ou ao largo) de simpatias ou antipatias.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.