Sobre o fim de um ano que não passou rápido

Chega o momento de registrar minhas notas de encerramento de ano, costume que venho observando no blog desde 2010.

Não posso escrever que nem vi 2019 correr porque o senti, no plano íntimo e como observador do enredo político, como poucas vezes senti os 365 dias antes de cada tomada de nota retrospectiva. Pelo que converso com as pessoas nas ruas, muitos sentiram 2019 mais denso que anos anteriores.

Ano inaugural de um governo eleito com total campanha contrária da imprensa mainstream e de blogueiros e tuiteiros aliados da casta acadêmica. O inimigo da casta acadêmica eleito pela massa vítima dos seus desmandos e por intelectuais e artistas que ousaram questionar a autoridade, conscientes do preço que pagariam.

Ano assim não costuma pegar despercebidos os seus passageiros quando termina.

Muitos se perguntam se valeu mesmo a pena o rompimento de amizades e as fissuras familiares por motivos de política eleitoral. Quando lembram que não foi eleição qualquer e sim plebiscito sobre rendição total à casta acadêmica, concluem que sim, que repetiriam o voto (alguns mesmo anunciam o voto para possível reeleição), ainda que com todas as reservas e oscilações de entusiasmo. E não deixam de lembrar que as amizades perdidas não foram perda que os fizesse arrependidos, muito menos as ligações familiares rompidas, pois a eleição apenas acelerara o processo.

Foi ano de guerra de reconquista, por parte da casta acadêmica e seus amigos nos meios de comunicação de massa e no mundo dos espetáculos. Não descansaram desde a contagem dos votos, mesmo porque anunciaram “resistência” ainda durante a campanha. Nem a facada mereceu trégua, ao contrário do que asseguram os que declararam na ocasião repúdio ao atentado sem repreender os que se referiam ao candidato como “saco de bosta”, lamentando a sobrevivência da vítima. Os que se calaram diante de seguidores que colocaram em questão a veracidade do atentado (o ex-presidente Lula foi um dos que questionaram) não o fizeram para aceitar o resultado.

Do lado do Governo, a declaração de guerra dos derrotados foi aceita com pouco mais que sorrisos de superioridade – “Ganhamos, não? Choro e ranger de dentes liberados aí, talquei?” – e nenhuma vontade perceptível de guerrear na Justiça e nas TVs abertas.

E logo o preço por este armistício foi apresentado: acusações de todo tipo, desrespeitos ao Presidente da República sem paralelos na História do Brasil (não tenham o mau gosto de comparar o tratamento que Jair Bolsonaro recebe de formadores de opinião com o coro de torcedores entoando recomendações obscenas à então presidente Dilma Rousseff, sim?).

Acusações que o Governo tratou da forma pior: esgueirando-se até as cordas, o que na percepção da massa significa confissão de culpa. Claro que o Governo foi surpreendido com deserções vergonhosas, com estocadas desferidas por quem não se esperava, mas… isso é do jogo, e o material humano que escolheu ou aceitou (ou aceitou por falta de escolha, o que indica que a candidatura teve mesmo todas as características da improvisação no sentido negativo da palavra) como companheiro não era o mais desejável, o que mais aconselhasse confiança. E isto também não é desculpa, pois o jogo político prevê possibilidades como esta, e ao jogador experimentado cabe superar quando as possibilidades piores se realizam.

Escolhas ruins (ou que eu não faria) e escolhas boas (ainda que apresentadas como nomeações grotescas pelos meios de comunicação de massa e formadores políticos) sofreram os ataques previsíveis pela Oposição – o papel da Oposição não é este, afinal de contas?) sem respostas mais enérgicas que lives, postagens em redes sociais e talvez alguns processos de divulgação reduzida (e, por esta razão, ineficaz).

O Governo agiu como que se vendo obrigado a prestar contas apenas aos que o elegeram, descuidado dos indecisos (que já na eleição foram o risco), da massa que acessa internet apenas para ver amenidades e que utiliza ainda a TV aberta como meio principal de informação. Ainda assim, apesar de toda a carga inimiga, o Governo ainda conta com números favoráveis. Mesmo quando novas baterias de denúncias contra Flávio Bolsonaro são saudadas com fogos de artifício nos bairros nobres, os números das pesquisas não confirmam os desejos de gente do meio artístico dócil à casta acadêmica; a massa ainda acredita que mesmo com defeitos (ou mesmo irregularidades) fez a escolha acertada.

E pergunto: agora entendem por que, mesmo após as denúncias de Roberto Jefferson sobre o “Mensalão”, Lula se reelegeu? Quando há satisfação com o Governo, denúncias de corrupção podem muito pouco. A Esquerda não parece surpresa, e a Direita parece não entender ainda, como não entendeu na ocasião. E não entenderá, pelo visto, a queda da popularidade que poderá vir caso o Governo continue semiadormecido diante de ataques. Estas ondas de ânimo não são constantes, não se deve confiar nelas por tempo indeterminado. Como disse Antônio Carlos Magalhães : “um Governo precisa parecer bom, ser bom não basta.” Não basta ao Governo realizar obras de infraestrutura e concretizar avanços (como garantir direito de posse a quilombolas) e negar na prática do dia depois de dia as previsões amedrontadoras que seus inimigos proferiram e proferem ainda, se a divulgação destes méritos continuar ineficaz, sem atingir as mentes da massa.

Não menciono as guerras entre apoiadores e ex-apoiadores do Governo, muitos vindos do culto ao Olavo de Carvalho. Que se divirtam, que se sangrem na disputa das migalhas. Não tiveram a importância que supõem ter tido na eleição de Jair Bolsonaro. A massa, os milhões que acordam com o céu ainda com tons escuros de azul, ignora-os. Não os menciono pelo nome mais do que já mencionei alguns em textos anteriores. Não merecem, e também não faço parte deste elenco. Não fiz carreira no olavismo e não farei, portanto, carreira no antiolavismo. Que estes colaboradores do “Pós-PT” continuem na disputa pelo dinheiro. Ou pelo Poder, gema ainda mais tentadora.

O ano vindouro será exigente e é bom que o seja.

Deixo aos leitores a reflexão de Mariel Reis neste 31 de dezembro no seu twitter (o qual recomendei no texto dedicado ao escritor – “Postagens que são também exercício diário de literatura”- sempre com reflexões e notas muito bem redigidas, Mariel parece não ver por que escrever descuidado do esmero em um meio como twitter, afinal nada proíbe utilizar a limousine, quando se tem uma, para ir à padaria da esquina) :

“As pessoas estão na praia diante do oceano, expectantes acerca de uma novidade saída do mar, cujo ápice para acordá-la (e iluminá-la) são os fogos de artifício. Assim, surgiria um monstro marinho mítico e com sua gigantesca respiração ressuscitaria a todos definitivamente.”

Que sejamos, pois, dignos deste monstro, deste sopro oceânico de Deus e saibamos evitar a mediocridade e a covardia.

Aos leitores e amigos do “FERNANDO PAWWLOW- CADERNOS”, um abraço apertado e votos de 2020 produtivo!

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.