Sobre susto nas colheitas

Onde a sabedoria popular que recomenda esperar colher apenas o que se plantou? Era frequente, nos dias de infância (quando o indivíduo se forma) ouvir: “Plantou limão, quer colher morangos? Estudou para a prova? Não? então o que você esperava? Fez o dever de casa? É…” Crescia-se sabendo que atos geram consequências e escolhas geram…

Escolheu-se qual comportamento no Brasil dos últimos anos? Análise criteriosa e impiedosa dos fatos políticos? A entrega ao trabalho de formação de quadros e institutos de estudos políticos em partidos e em quaisquer associações de interessados em Política? Reuniões frequentes entre iguais ou semelhantes na luta política?

Não!

A crença em saídas judiciais (sempre incertas e de alcance limitado) parece ter substituído a trabalheira enumerada no parágrafo acima. Afinal, tão mais fácil, não? Reúnem-se provas (ou indícios) e…pronto!!! “A capa da ‘Veja’ de sábado cumprirá sua missão de perturbar o sono dos canalhas.” (não era este o bordão de Augusto Nunes?)

Bom… prendeu-se Lula. E… como a lei previa, a soltura era questão de tempo ( os prazos estabelecidos, com seus respectivos abatimentos), e foi. Logo… Por que o susto? Acreditaram que ele ficaria preso para todo o sempre? Apostaram todas as fichas nesta prisão, sabendo-a sujeita à Lei em vigor (que determina soltura decorrida alguma fração da pena) e agora choram e rangem os dentes?

Mesmo o discurso onde insultou seu juiz e agora Ministro Sérgio Moro e o Presidente Bolsonaro (entre outros alvos) só assustou, ou surpreendeu, a quem não lembra dos depoimentos ao Juiz quando ainda preso. Nunca nenhuma interpelação mais severa (“não discutiremos com um presidiário”), nem mesmo quando insinuou que a Polícia Federal plantara provas contra ele. Por que então se declarar surpreso com o discurso de Lula aos seus no imediato pós-soltura? (Jair Bolsonaro e Sérgio Moro insistindo na linha de conduta “Não responderemos ao que vem de baixo”. Depois não se queixem, sim?)

As coisas seguem sua lógica, e não se deve (ao menos segundo opinião dos tratadistas mais consagrados da Ciência Política) contar com exceções à lógica das coisas (dos fenômenos, causas e consequências) na luta política. O que pode resultar em erro quase sempre resultará em erro. E esta sabedoria elementar vem sendo ignorada pelos atores da Política; dos formadores de opinião aos militantes em política partidária, todos ou quase todos, parecem acreditar que bons sentimentos e boas intenções prescindem de preparo e ânimo de luta.

“O Povo! e Deus, sobretudo Ele, estão do nosso lado”.

Bom, quem votou em Bolsonaro pelas privatizações? Quem votou em Bolsonaro, e declarou voto, e perdeu amigos, e foi hostilizado e estigmatizado, pela agenda macroeconômica? Acho que ninguém, ou quase ninguém. Ao menos por onde este blogueiro anda, a motivação foi outra. Conto aos senhores:

O homem da rua, que enfrenta filas de ônibus e os ditos ônibus, e filas para o trem e os ditos trens, ambos sempre lotados, saltando da cama com os tons de azul no céu ainda indefinidos, tem como preocupação maior a segurança própria e dos seus. Trata-se de gente cansada de ser assaltada ao chegar do trabalho depois de um dia impiedoso. Gente com feridas que não cicatrizam; filho morto pelo par de tênis, filha estuprada voltando ou do baile ou da igreja, pai idoso surrado em fila de posto de saúde (ou morto por não lembrar da senha do cartão do banco sob pressão dos assaltantes). O homem da rua votou em Bolsonaro por isto. Por mais nada que isto. Não foi pelo “kit-gay”ou por temor de grandes organizações criminosas e/ou quadrilhas de traficantes (como parece acreditar Moro e sua equipe, ao considerar o tal “Pacote Anticrime”).

Latrocidas, estupradores e sequestradores tiraram e continuam tirando o sono do homem comum (sequestradores não escolhem apenas milionários -ainda que isto não seja atenuante – ao contrário do que imaginam imbecis nutridos pela dieta da casta acadêmica), não o possível déficit da Previdência ou suposta urgência nas privatizações.

Burocratas e tecnocratas parecem incapazes de conectar-se à dor dos que tiveram gente querida roubada do convívio por quem, empunhando arma, debocha anunciando retorno às ruas em breve (“Daqui a pouco tô na rua, tia”). Eleitores acreditaram que Bolsonaro não padecesse da mesma patologia; caso decepcionados, votarão nele em 2022?

Um ano quase e qual tabu estabelecido pela casta acadêmica sobre criminalidade foi confrontado pelo Governo? Qual esforço para remover o critério etário para latrocidas e estupradores, por exemplo? Onde o Governo se movimentou para encaminhar mudanças no Código Penal e suas aplicações no cumprimento de penas (a progressão de pena para crimes graves sendo minimizada, senão suprimida)? Olha, caso esteja sendo feito esforço neste sentido, este está sendo mal divulgado, o que resulta, do ponto de vista político, como se não houvesse esforço algum. E daí os indecisos tornam-se a principal reserva de votos para 2022.

O eleitor de Bolsonaro (mesmo o eleitor compulsório, o que votaria em qualquer um contra o PT) não está se sentindo pago com a escolha, esta é a verdade. Daí as declarações de arrependimento. Daí as declarações de indecisão eleitoral. Daí o silêncio do homem comum nas redes sociais e caixas de comentários. São as impressões perceptíveis ao observador político neste novembro. E destas impressões, Lula e seus apoiadores, ou sócios no jogo político, extraem o ânimo para remover máscaras e declarar guerra contra o que lhes pareça obstáculo. Não veem por que constranger-se ao teatro da conciliação.

Falar em teatro das boas maneiras, e o Augusto Nunes, hein? O que recebi de WhatsApp com o tal vídeo dele retribuindo a agressão verbal do Glenn Greenwald com agressão física. Parece que ele não teve muito senso de humor com a acusação de covardia por parte do ativista americano, e deixou certas regras pequeno-burguesas de polidez de lado. Se querem saber minha opinião, o Brasil e o Mundo precisam de mais gente disposta a sair no braço. Mas que me surpreendi com o Augusto Nunes, me surpreendi. Não que ele fosse plácido, o que sua carreira de tribuno o nega. AN sempre foi um combatente em textos. Tanto que sempre me referi a ele como “Bravo Augusto” (muito em homenagem aos conflitos que enfrentou, com rara vontade entre brasileiros, com a máquina jornalística sindical do PT, tanto como diretor de “O Estado de S.Paulo” quanto em sua fase gaúcha, no “Zero Hora”).

Augusto Nunes sempre foi mistura interessante de tribuno de ideário pessedista com retórica udenista. Mas encarnando em “Veja” o militante do PSDB encarnou também o Sr. “Não Briguemos Com Gentalha”. Nada de responder ataques de blogs (ainda) pequenos.

“Somos vidraça, natural que nos joguem pedras”, parecia ser um seu lema.

Não foi ele quem, repetidas vezes, respondeu com enfado indisfarçado às minhas também repetidas reclamações quanto ao silêncio da sua coluna em “Veja” sobre blogs e sites ligados ao sistema de Poder do PT e associados, com seus ataques e perseguições aos seus colegas jornalistas e ameaças sem disfarces ao que parecesse obstáculo ao sonho de domínio total deste sistema de Poder?

“Não vou perder tempo com isto…perca o seu, se quiser.”

Eu era ali o chato, o leitor que não se mancava. Claro que desisti de insistir e desertei da caixa de comentários daquele espaço. Mais tarde, AN, ainda em “Veja” clamou por CPI da Imprensa do PT, mas já era, como de costume, tarde, tarde demais…

Gente como Greenwald, e seu site, e sites e blogs que o apoiam, cresceram desta omissão cometida por gente que não tinha o direito de se omitir. Augusto Nunes colheu a acusação gritada de covardia da plantação de alguns anos. Por que o susto? Por que a fúria? Acaso acredita que um tabefe e um cruzado apagarão sua participação nesta tragicomédia?

A Direita de internet, incapaz de interpretar História, e portanto, incapaz de elaborar raciocínios políticos, aplaudiu estes tapa e soco como uma vitória, um feito político memorável. Desta comemoração do nada decerto haverá alguma colheita.

O injusto nesta colheita de imprevidências é que eu e o resto colheremos, todos juntos, o que não plantamos.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.