Sobre Mariel Reis
Às vezes tem-se esta sorte: descobrir um autor. Lembro, por exemplo, do dia que abri o fascículo de “Literatura Comentada” (coleção da ed. Abril) dedicado ao Dalton Trevisan. Li, reli; obsessão com o mestre do conto começou ali, e lembro da tarde chuvosa da minha adolescência. Sabe quando se lembra da primeira vez que se ouviu determinada música; onde se estava, com quem e sobre o que se conversava?
Dia destes, coisa de menos de mês, soube do Mariel Reis. Palavra que nunca tinha lido uma linha a respeito nem ouvido falar. E o homem é veterano, com livros publicados e inúmeros textos espalhados pela internet, em sites e revistas eletrônicas.
Contos, poemas, letras de música, ensaios. A busca por seu nome na internet presenteia o interessado com este menu, variado e generoso. Pois é autor produtivo. Mais procuro, mais encontro. E mais interessado fico, e mais procuro, mais encontro…
Três de seus contos me tocaram ao ponto da releitura frequente; são, ao menos na produção encontradiça na internet (não, ainda não li seus livros, difíceis de encontrar em sebos; bom sinal, quem tem não se desfaz) suas obras maiores.
São os contos “Boa noite, Burroughs”, “Revolução” e “Culpa”.
“Boa noite, Burroughs” é um exercício de imaginação e homenagem literária. Posso ser pedante e escrever ”exercício de estilo”. O narrador que parece ser uma citação do autor homenageado no título, perambula pela noite de uma metrópole, às voltas com suas adicções e prazeres. Nada adjetiva, apenas descreve com o que permanece de lucidez apesar de todas as drogas, de todas as aceitações sem reservas do que sua carne exige.
“A noite vertiginosa sobre os prédios. A demência das ruas e os homens, estragados por ela, vendiam todo tipo de coisas. Os letreiros luminosos das casas noturnas, as vedetes, as prostitutas, os michês e os drogados, à meia-luz, negociavam expedientes conhecidos. A polícia revistava os negros. Pago a corrida. Salto do carro.” (…) “Meu braço doía. Retirei o estojo da calça, abri-o sobre a penteadeira. Dobrei as mangas do sobretudo, preparei o pico e amarrei o garrote. Servi-me como a um rei.”
(…) O motorista quer ver a cor do dinheiro, sem ele nada feito. O que um senhor de idade faz em um lugar desses? Não interessa, rapaz. Toca o carro.”
Narrativa de fôlego; citações cifradas de alguém que conhece e aprecia o universo beat, expresso em livros e filmes, sem permanecer na superfície, recusando as facilidades que muitos utilizam para “dialogar” com esta linhagem.
“Revolução” aplica os estudos de Mariel sobre Revolução Russa ao universo suburbano de apetites sexuais cozinhados sob o sol e o tédio; a solidão e as reminiscências marcando, para cada um, a guerra íntima consigo e com o meio pegajoso e convidativo à decadência.
A guerra do personagem narrador encontra um estrategista na figura de um militante comunista experimentado; as lições da tomada (e manutenção) do Poder não diferem da tomada do território de um bairro, de uma mulher desejada (afinal, não só o herói deseja a deusa do sexo). O microcosmo confirmando o macrocosmo. Ou o macrocosmo confirmando o momento no qual o microcosmo pareceu intolerável ao futuro revolucionário célebre. A rebelião contra a autoridade paterna não foi o ensaio de tanto revolucionário?
“Os mártires de qualquer espécie são sempre uma forma de aviso. Se um homem precisar morrer para que outro se salve, não vejo nisso qualquer contradição. Cresci ouvindo isso. Ele era filiado ao partido.(…) Tudo aquilo entrava na minha cabeça. O Estado precisa da mentira, ela é útil a determinados manejos. Ele não pode permanecer com a mentira. É legítimo utilizá-la, mas é preciso torná-la real para quando for verificada. A mentira é uma projeção do que será a verdade. Não poupe esforço para alcançá-la.”
A mãe conservadora do narrador também presente neste teatro de operações:
“Minha mãe não poupava críticas a mulher da casa da frente. Chamava-a de uns nomes de reputação duvidosa. Ensinava que era errado o que ela fazia. E tudo aquilo entrava em minha cabeça.”
Entre as advertências da mãe sobre a promiscuidade e a periculosidade da vizinha (a Imoralidade dela o levaria, pelas estradas do desejo sexual, ao Inferno) e os conselhos do comunista veterano, o herói percebia as contradições do seu momento histórico:
“Eu não gostava da mulher da casa da frente. É mentira. Sonhava com a mulher da casa da frente. Ela com a bermudinha curta, mostrando a polpa da bunda. Ela lavando roupa sem sutiã. Ela limpando o peixe com decote que deixava ver os seios. Sonhava em meter um filho na mulher da casa da frente. Ela me olhava. Minha mãe me recriminava quando me pegava olhando longamente para ela. Está olhando o quê? Aquela piranha?”
O tutor, por sua vez, não lhe dava descanso, cuidadoso do ofício de formar militantes:
“Expropriação não é roubo, é empréstimo. Quando a revolução triunfar todos serão ressarcidos. E quando se toma de um tirano repatria-se para o povo. Não há deslize ético nisso. Não se pode fazer um omelete sem quebrar os ovos, não é? Quem é a menina por quem você está apaixonado? A melhor camaradagem é entre homens. A mulher é para trazer filhos para a revolução. É a parte mais fraca de uma nação, não sabe? Por que você perde tempo com as mulheres? Dei-lhe os livros, você leu? É improvável. Por que não resolve logo isto? A mulher mora em frente à sua casa, não? Muitos pretendentes. E você a quer só para si mesmo? Tire-a deles, rapaz. Você é mais forte. Obstáculos? Remova-os. Lembra-se do que disse sobre a revolução? Não há nada de errado nisso. É preciso cautela. Além de cautela, planejamento. Se a mulher é tão importante para você, ela é sua revolução. Procure construí-la, rapaz. Às ferramentas, juventude!”
Lógica difícil de derrotar, não? Não há como se obter o que é desejado por muitos sem estar disposto à violência, ao enfrentamento. Todos contra todos na luta pelo corpo de uma mulher, de um cargo, de uma posição social. A fama e o prestígio exigem lutadores. O Poder exige sem perguntar o que se pensa das suas exigências. Por isto é o Poder.
“Ele me entregou um estojo. Não se faz uma revolução sem armas. Abri o estojo. Está municiada. (…) Acha que eles a entregarão facilmente? (…)”
“Culpa” poderia ser expandido para uma novela ou romance. Ou adaptado pra roteiro de filme ou caso especial de TV. Cada frase sugere as biografias omitidas, o grau de tensão entre homem e mulher vitimados pela junção dos seus escombros. Como tantos casais, como tanta gente. Pessoas encontram-se com seus livros de vida já escritos para mais da metade, e no entanto a ilusão de início de novo livro…não é assim?
“Por que ela não fugiu? O que ela queria? Eu nunca tive juízo nunca Ela sabia muito bem que casou com um homem sem miolo nenhum (…)Ela se disse magnetizada hipnotizada imantada à cena grudada ao que via ouvia. Nojo, revolta, desprezo, amor, ela não sabia o que sentia”
O narrador diz de si, como justificando seus atos:
“Filhos? Eu não queria filhos. Atrapalham. Ela não me ouviu Sou um sujeito sem paciência sem muito jeito Sozinho e silencioso (…)Eu argumentei que a vida ficaria mais difícil Ela disse não se pode contrariar as leis de Deus Perguntei se Deus pagava as contas da casa? Se Ele colocava comida à mesa? Ela pare de blasfemar, homem Não me contive e dei nela com a correia da calça para ela aprender que Deus não tinha nada com a minha vida.”
Não haveria dinheiro, e esta conta o narrador não via respondida pelo Deus invocado pela mulher; o mesmo Deus parecia ao narrador incapaz de dividir o tempo e o corpo da mulher com os filhos e isto parecia ao homem mastigado pela Paixão mais intolerável que a provável falta futura de dinheiro:
“Ela perguntou o que deu em mim Vontade de ficar sozinho com você. Sozinho com você e com o mundo. Por que não me pediu isso antes? Você ocupada com os filhos: eles em primeiro lugar.”
A solução, por terrível, é, ao narrador, a solução possível. Obstáculos não são para serem removidos? O que as crianças poderiam lhe ativar de ternura e mesmo a semelhança do filho mais velho (“ele parecia mesmo comigo”) não o demoveriam: a mulher só para si, como no começo. Como se encontraram. Na estrada, no ponto de caminhoneiros, onde o Rio de Janeiro nega o turismo e as fantasias.
E na descrição deste pedaço não celebrado da metrópole, o paralelo entre personagens não celebrados pela narrativa carioca para deleite de classe média ávida por faroestes de favelas, ou pseudosociologia, ou psicologia social embalada pra consumo de aspirantes à casta acadêmica. Os seres vivem comprometidos com suas mazelas e ideologia alguma aliviará esta informação luminosa: estamos sós e responderemos sós.
“Passei do clube dançante pedalei para longe das poucas luzes do lugar A estrada se tornou difícil (…)Era uma estrada secundária passavam poucos veículos. Os motoristas não estranhavam em nos ver caminhando pelo acostamento Havia uma ou outra casa por perto Os faróis a assustavam. A noite, não. (…)Caminhamos por mais uns cem metros, apareciam pontos de prostituição. Várias mulheres na beira da estrada, iluminadas pelos faróis dos poucos veículos. Sem eles, sombras recortadas contra o fundo da noite, sem identidade.”
O mesmo cenário como fecho do conto, e síntese das biografias dos personagens e do enredo:
“Ela voltou ao passado. Passa sempre aqui? Gosta de crianças? Não, não gosto. Coincidência, eu também não (…) A lua emprestava o romantismo possível (…) Sabe, comecei, já fui casado, tive quatro filhos O que aconteceu? Morreram em um acidente Quer ouvir minha história?”
Estes três contos me deram muita vontade de ler seus livros; ”Vida Cachorra”, “John Fante Trabalha No Esquimó”, “Linha de Recuo E Outras Estórias”, e a busca nos sebos mal começou. Enquanto procuro, sirvo-me com o que encontro na internet. Merecem leituras e releituras, e não recomendaria ao amigo leitor não estivesse certo de que é autor que não se deve continuar desconhecendo. E não escreveria este texto não tivesse intenção de escrever mais a respeito.
Bom…querem mais Mariel Reis? Seu twitter traz suas apreciações (quase diárias) sobre literatura, teledramaturgia, cinema, teatro, música (letrista que é), poesia. Mais inquietações filosóficas e metafísicas. E seus registros de indignação quanto ao pouco ou nenhum crédito dado aos intelectuais independentes, como ele, de ideias “reaproveitadas” pela casta acadêmica. Postagens que são também exercício diário de literatura.
Foi um presente a descoberta (tardia) deste autor. E isto merece mais textos, e eles virão.