Sobre desabafos nos rompimentos de amizade

Quem não conheceu amigo (a) apenas quando a amizade chegou ao fim?

“Mas Fulano (a) pensava isto de mim? Quem diria…”

O amigo da véspera revela-se inimigo disposto a decapitar e expor a cabeça na feira. Conheci muitos dos antigos “amigos” desta maneira: apelidos; sonhos e desabafos que o bom senso recomendaria não dizer ao reflexo no espelho convertidos em tópicos de anedotas; recomendações a terceiros sobre evitar amizades comigo, etc.

Quem não passou por isto? Repito. Eu já. Não apenas uma vez.

Mas a experiência vai tornando o homem guardião mais severo dos seus segredos e mais cauteloso antes de abraçar uma suposta amizade. Procura-se ser paciente com as demonstrações que o candidato a amigo oferecerá, não importa o tempo, do que pretende de fato. E aprende-se também a não negar para si o que se percebe, o que o candidato a amigo exterioriza seguro de que não está sendo notado.

“Fulano (a) parece carreirista demais, não? Ah…não… também não é assim…perfeito só Deus”.

“Meio falso (a) ele(a), não? O que disse de Beltrano a quem deve tanto (ou o que calou quando este Beltrano a quem tanto deve foi atacado em sua presença) …”

Feitas as contas verifiquei que fui enganado porque quis. Muitos dos traços de caráter que me assustaram quando do rompimento já estavam sendo exibidos sem maquiagem. Sempre foram. E quando a maquiagem cobria o rosto, tudo era visível para os que buscaram me advertir.

Estas recordações me ocorrem quando observo estes rompimentos de antigos admiradores e amigos de Jair Bolsonaro e Olavo de Carvalho; os sujeitos não se declaram apenas insatisfeitos, ou descontentes, ou desiludidos, ou desejosos de afastamento a bem da própria amizade (como fez Frei Betto quando saiu do Governo Lula). Não. Os termos que utilizam mostram que as mágoas foram cozinhadas muito além do ponto.

“Farsa perigosa”, Lobão sobre Olavo de Carvalho, a quem dias antes enviara e-mail de amizade de fato comovedora. Sim, “o meu amigo Olaaaaavo”, o “Olavaaasso”.

Mas quando Lobão defendeu Olavo quando seus circundantes o chamavam de “charlatão” e “astrólogo”? Não me lembro de defesa veemente do “querido amigo”. Isto não seria sinal? Isto não foi menosprezado? E lembro do que Jean-Paul Sartre escreveu sobre má-fé, apontando-a nestes “Não estou vendo nem ouvindo o que estou vendo e ouvindo”.

Alexandre Frota talvez tenha sido mais competente e cuidadoso: defendia Bolsonaro sem economia de suas fúrias, e foi rompendo aos poucos, apresentando pretextos plausíveis e convincentes – o que deveria calar a boca de quem supõe Frota um estúpido, um primário.

Ainda assim, suas demonstrações mais recentes de oposição ao amigo da véspera assustam. Confesso que me surpreendi; algo deveria estar incomodando o deputado há muito, muito tempo. Ele parece estar vomitando frutos de uma digestão muito lenta.

E Joice Hasselmann…bom…Joice Hasselmann não teria sido amizade aceita depressa demais, não se teria esquecido depressa demais as declarações sobre Bolsonaro em outros tempos? Não se deveria ter exigido mais quando da sua conversão?

Porque a Esquerda exige. E está, para não variar coisa alguma, certa.

Como se pretende partir para uma guerra política sem a certeza de que se marcha junto a camaradas e não com aventureiros prontos a trair à oferta de vantagens e aos argumentos da memória que dizem: “Você não estaria se arriscando demais? Você tem muito a perder.”

Esquerdistas sabem que muito está em jogo, e este muito não perdoará deslizes e armadilhas da vaidade. O sujeito que se oferece como camarada não está prestando qualquer favor. Ele que terá que provar, a cada instante, ser digno do destino ao qual se entregou. Seus afagos desacompanhados de ações valem menos que nada.

Na Direita, o abraço substitui o oferecimento do braço a mais em uma briga, o elogio substitui a defesa veemente. E às primeiras dificuldades…

O ex-líder do Governo na Câmara dos Deputados, Delegado Waldir (PSL-GO), anuncia que irá “implodir”o Governo do qual era líder e chama Bolsonaro de “vagabundo”.

Isto, este pequeno exemplo, em menos de ano de Governo. Dez meses para ser mais preciso.

Amizades hoje em dia terminam rápido. E terminam com vômitos de recalques e mágoas em público. Não se dispensa a dramaticidade no rompimento. Pois ela, a dramaticidade no rompimento, é capital político.

A Direita ou apenas os adversários do esquema de Poder do PT e associados precisarão aprender a fazer amizades verdadeiras. O “Pós-PT” já sabe, e rejeita quem tenta abraçá-lo sem a adesão total e absoluta.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.