“Quase dois anos depois…”
Este é o post número 321, e se reli uns vinte posts foi muito. Quando por algum motivo esbarro com algum em alguma busca interna no blog, apenas faço alguma revisão ortográfica e de espaçamento. Releituras são desgastantes, pois sempre noto alguma falha e tenho que me lembrar que foi o melhor que consegui fazer no momento da escrita do texto. Por um motivo menor, resolvi reler um texto escrito há quase dois anos, e além das pequenas correções, tive o desprazer de admitir falha na minha bola de cristal; as coisas saíram piores que imaginei.
O post do dia 26/03/2015 contém previsões sobre o futuro que me parecia provável ao PMDB: o partido assumiria o comando do País com Dilma Rousseff como Chefe de Estado apenas, com Eduardo Cunha como Primeiro-Ministro do presidencialismo brasileiro.
O texto alude à crise que levou ao impeachment de Fernando Collor, em 1992. Naqueles dias, as negociações de cúpula, sobretudo do PMDB, se encaminhavam para manter o Presidente no cargo, com a devida tutela dos líderes partidários. Antônio Carlos Magalhães sempre se referiu à frase (que atribuía ao Ulysses Guimarães): “Ele vão ter que mostrar o boletim para nós.” Orestes Quércia considerava, segundo relatos, a manobra temerária, e encaminhou o PMDB para o impeachment de Collor.
Eu considerei em 2015 que aquela era a vez do PMDB se tornar o Professor tutelando o aluno relapso e cheguei mesmo a imaginar:
“ ‘Não, aluna Dilma, esta escolha para o ministério foi infeliz.’ ‘Aluna Dilma, mais um projeto tentando diminuir o Congresso e votaremos seu impeachment, viu? Vai lá no quadro e repita cem vezes…’ “
O que imaginei neste trecho do post do dia 26/03/2015 me parecia perfeito, pois estancaria a crise e evitaria que o PT arrebentasse o País em caráter definitivo. O Brasil teria a continuidade do que interessava continuar (ou que fosse traumático interromper de maneira brusca) no mesmo tempo em que tiraria as marretas das mãos do PT.
Não foi o que aconteceu, lamento.
A Imprensa vendeu à classe política que qualquer solução, qualquer passo para que houvesse uma saída do labirinto, deveria ser fruto direto da cassação do mandato presidencial.
E como a classe política brasileira é composta de gente que toma os conselhos da classe jornalística (quando Brasília não conta mais com um Carlos Castello Branco, o Castelinho, e animadores de torcida substituíram analistas) como mandamentos sussurrados por uma comitiva de anjos mensageiros, o impeachment da Presidente foi votado – e o PMDB colocado na mira de fogo como nunca estivera.
Estes desastres de laboratório de aprendizes de feiticeiro costumam cobrar caro a imprevidência; o PMDB enfraquecido deixará mais fácil e rápido o retorno do PT, desta vez como o senhor único das massas.
Esta possibilidade o texto do 26/03/2015 considerou válida: “os afoitos que desejam saída imediata do PT (que não entendem que a saída imediata pode também trazer a volta imediata)…” A pesquisa de quarta-feira confirmou este temor, não?
Meu texto também aludia ao poder de Eduardo Cunha, considerando que ele faria melhor se cozinhasse o PT até 2018.
Quase dois anos depois e Eduardo Cunha está preso, tentando a liberdade, alegando sofrer de um aneurisma. O PMDB tem seus principais nomes citados nas delações da Lava-Jato e o governo de Michel Temer ainda não disse por que veio; sua posição nas pesquisas é deprimente.
Saiu mais caro que o previsto a aposta de todas as fichas no Impeachment.
Quase dois anos é espaço de tempo que desmoraliza qualquer aspirante a Profeta, os fatos vão esmagando pretensões de adiantar o enredo da vida.
Quando Mario Sergio Conti previu em uma capa da “Veja” (citada no tal texto do 26/03/2015) que Collor continuaria na Presidência, porém enfraquecido, a sua análise era baseada nas conversas que mantinha com fontes e no que parecia o mais razoável a qualquer observador. Daí sua aposta, criticada (Conti mesmo o conta no seu “Notícias do Planalto”) pelo seu redator-chefe, Paulo Moreira Leite. Eu não tive conselheiros para me advertir, apenas o exemplo do grande jornalista.
Confiei no meu Poder de análise e no senso de sobrevivência do PMDB. Errei, pois subestimei a vaidade de alguns e a pressa de muitos no instante mesmo em que me superestimei como decifrador das cartas do baralho.
“Como eram falsas as bolas de cristal”, ensinava Cartola.
Eu aprendi; quantos aprenderam?