Entre o “Antes“ e o “Depois”
Muitos se divertem -ou se espantam- com o meme “Antes da Federal/Depois da Federal”; jovens de aparência “normal” se convertem em “aberrações” após algum tempo de absorção pelo campus. O meme é popular, pois acredito que muitos convivem com “transformados”, às vezes na família. Mesmo que os “mutantes” não tenham sido vítimas de instituições federais, e sim estaduais, fundações, privadas, etc
Vi na Universidade Federal de Minas Gerais casos como os retratados no meme; homossexuais em coisa de um ou dois anos se convertendo em figuras de comédia: saiotes, maquiagem, gestos e tomando parte em “manifestações” de suposta afirmação. Não, não eram “enrustidos” quando da matrícula, apenas não “integrados” aos “coletivos”. O mesmo vi com mulheres homossexuais, o padrão de transformação segundo as particularidades de cada sexo.
Há exigência tática da Esquerda aos recém-chegados para que estes se moldem aos personagens pré-estabelecidos? Não acredito muito nisto não. Afinal, muitos que militavam na política estudantil mantinham suas identidades. Nem presenciei exclusões se darem por isto. O processo é um pouco diferente:
Na aula inaugural, reuniram-se algumas turmas no Auditório Central da Faculdade de Letras (meu curso) e após os avisos de praxe, um “coletivo” foi convidado a encenar suas boas vindas, protagonizado por um jovem de barba e saiote de bailarina. Estes veteranos incentivavam os calouros a participar de grupos de discussão de sexualidade; a liberdade de opinião estaria garantida. Pedi a palavra e louvei o respeito ao contraditório; que bom que não haveria a “patrulha do politicamente correto em nosso convívio.”
O tal coletivo não disse palavra e o líder de saiote e maquiagem abaixou a cabeça. Pressenti que cometera uma gafe. Foi quando um ocupante da mesa, próximo à Chefe do Colegiado do Curso, repetiu a minha observação (transcrita entre aspas), e murmurou: “Pegou pesado”.
Meu destino ali estaria selado, pois.
Por parte dos colegas, nem tanto, mas por parte dos professores que não queriam ligação ostensiva com o “reacionário”, sim. O exemplo da covardia, como os demais exemplos, vem de cima. O Poder joga o jogo do Poder.
Muitos pais ficam orgulhosos dos filhos atingirem o nível superior e, portanto, são pouco ou nada críticos às novidades no comportamento do filho aceito por um mundo que se acredita -ao menos na opinião geral – superior aos “ignorantes que não têm curso superior “. E tratam de se repreender quando ensaiam qualquer pensamento de censura, ou simples questionamento, aos modos dos filhos.
O meio universitário é absorvente; besteira discutir isso. Em cidades como São Paulo e Belo Horizonte (onde as opções de lazer são para quem tem dinheiro), são oásis no deserto da depressão coletiva. E o jovem recém-chegado a este meio sente-se obrigado a abraçar com fanatismo ideologias e padrões de comportamento dominantes ali.
Qual opção os meios conservadores oferecem ao jovem no campus? Qual iniciativa de socialização prospera em um meio que confunde direito à existência individual com o individualismo mais mesquinho? Uma cervejada e/ou um bate-papo após a aula são categorizados, nos meios da direita acadêmica, como “vagabundagem”, “perda de tempo”.
Do lado Esquerdo do rio, há camaradagem, aceitação e formação de amizades que não raro sobrevivem à formatura. O lado Direito cultiva a maledicência e o isolamento uns dos outros. Após a formatura, a distância se confirma.
E esta diferença de ambiente, tão nítida, costuma ser decisiva nas escolhas de rumos por parte de quem é ainda uma pessoa se construindo.
O meme “Antes da Federal/Depois da Federal” me trouxe estas recordações e confirma o que escrevi no blog sobre a culpa da Direita no domínio dos espaços pela Esquerda. Não me faz rir, conheci de perto estas transformações que servem de piada a uma Direita que não apresenta a si própria a conta por esta deformação nos jovens.
Memes tendem a substituir argumentos expressos em frases e textos, no mundo da internet. Sobretudo pela internet de Direita, ansiosa pela volta de um Mundo que imagina ter existido.
Professores universitários abençoam estas monstruosidades que confirmam o Poder que gozam. Confirmam e garantem que o Poder continuará nas mãos certas por muito tempo. A casta acadêmica parece tranquila se observa bem os inimigos que possui – gente apressada e histérica. E muito, muito desunida.
Entre o “Antes” e o “Depois” há silêncio e isolamento. E também a ignorância que auxilia os “senhores do campus” em sua obra de destruição.
O mais é consequência direta, apenas.