“O Povo da Internet”
Em um episódio da série “Monk”, o personagem Monk (Tony Shalhoub) responde à sua assistente sobre uma pequena multidão que chega a um hotel procurando alienígenas:
“ É o ‘Povo da Internet’ ”.
O “Povo da Internet” gosta de soluções instantâneas e de se acreditar especialistas em assuntos complexos depois de leituras ligeiras de tópicos de internet. E cita autores de forma truncada, e julga ter encontrado atalhos para elucidação de enigmas históricos. As nuances e pormenores o entediam, lembrar que fenômenos podem ter várias causas é ofensa íntima.
Este “Povo da Internet” é encontradiço nas discussões que vão de qualidade de pó de café a minisséries, passando por filosofia e alta política. Diverte quem sabe se divertir com a ignorância com topete e chapéu.
Lembrei disto ao assistir aos manifestantes no Congresso Nacional, o “Povo da Internet” encenando o que imagina ser participação política, berrando palavras de ordem e subindo em mesas: “Viva Sérgio Moro, exigimos General!”
“Mas a Esquerda não fez isso semana passada na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro?”
Sim, mas a Esquerda cuida de criar militância em diversas frentes; uma invadindo e depredando, outra já está a postos para recriminar a outra metade e recomeçar. Sem falar dos núcleos de ação, grupos de estudo, etc. E assim preparados promovem suas “dramatizações” e “narrativas”. Há, em resumo, trabalho de bastidores, não se improvisa coisa alguma.
Já estes ativistas improvisados não perdem tempo com leituras e grupos de estudo: “PRECISAMOS FAZER ALGUMA COISA!!!!”
Reinaldo Azevedo atribui este ânimo aos “gurus da internet”: haveria autores que, nivelando por baixo as discussões políticas, incendiariam recalques de gente ignorante.
Não digo que Reinaldo esteja errado de todo, pois de fato a efervescência opinativa na internet é administrada por poucos que leem para os muitos que repetem resumos, mas o que Reinaldo parece ignorar é que o “Povo da Internet” tem mais gurus que discípulos; o desejo de notoriedade provocando supersafra de opinadores.
Quantos “YouTubers” são seguidos, e tendo suas opiniões tomadas como merecedoras de atenção e análise?
Isto faz com que muitos também se candidatem ao estrelato de internet: “Se Fulano, que repete clichês, ou opiniões de seu Mestre com todas as palavras deste, já é um nome, por que não eu?”
E é só ligar a câmera, ativar redes sociais e a coisa se espalha; a todo dia surgem “politicólogos” de “YouTube”, alguns Raymond Aron da vizinhança.
E é deste material que surgem ideias como “marchar sobre o Congresso”, exigindo”generais” e saudando aos berros um juiz no cumprimento de seu dever.
Penso: “Estes caras saberiam a diferença entre generais como os que fizeram ’64 e os de hoje? Saberiam descrever a trajetória dos generais daqueles dias desde o ‘Tenentismo’ até as movimentações dos anos ’50 e ’60?”
“Ah! Não precisamos saber disso! Basta a indignação com ‘tudo que está acontecendo’ “.
O “Povo da Internet” escreve cartas para coluna de Augusto Nunes protestando contra o que considera gentileza excessiva com o Presidente da República, queria um “Roda Viva” com Michel Temer sendo colocado contra a parede.
Bem, Augusto Nunes e Eliane Cantanhêde usaram da firmeza que se permite usar em uma entrevista com o Presidente da República, não omitiram dúvidas quanto à natureza das composições deste Governo, e Augusto Nunes chegou mesmo a perguntar por que a prisão de Lula não seria aconselhável. Mais que isto só se adotassem um tom de confronto e provocação que resultaria, além de agressivo, inútil, pois Temer é macio e escorregadio.
Norman Mailer escreveu sobre a dificuldade de se encurralar um político experiente em uma entrevista; seria, segundo Mailer, como vencer um pugilista profissional em briga de bar. Um político, segundo o grande escritor, ao se candidatar a Presidente já concedeu muitas entrevistas, conhece muitos macetes e só mesmo uma pergunta honesta poderia surtir algum efeito, podendo desconcertar uma alma treinada.
Expliquem isto ao “Povo da Internet”. Esta entrevista causou uma fúria desmedida em muitos telespectadores, e por pura ignorância das noções elementares de jornalismo e política.
Estes manifestantes estão, e com todos os motivos, desesperados e sem qualquer confiança na classe política, mas deveriam canalizar esta energia para formar grupos de trabalho e conseguir mudanças na Lei Eleitoral (tentando conseguir verdadeira representatividade popular em um Congresso formado pela atual Lei, por critérios matemáticos incompreensíveis) e após isto formar ligas eleitorais.
Sem isto, é desperdício de tempo e energia espetáculos como o desta “visita” ao Congresso.
O “Povo da Internet” tem que aprender a lidar com a espera e com a obstinação.
Sem estas virtudes, servirá apenas como auxiliar involuntário da casta acadêmica.