Com a palavra, quem sabe do que fala: Francisco Garisto

Em texto anterior, escrevi sobre “Doutores em causas da violência” que determinam, com a autoridade de quem conhece fatos da criminalidade consultando arquivos da polícia, políticas a serem adotadas pelo Governo e acatadas pela sociedade, ainda que jamais tenham avistado, nem mesmo durante um assalto, um bandido armado frente a frente. Com autoridade conferida por colegas no compadrismo universitário, julgam desnecessário ouvir repórteres policiais, funcionários de necrotérios, policiais, familiares de vítimas e vítimas .

Mas há quem se pronuncie sobre crime e maneiras de combatê-lo com propriedade, sabendo do que fala : Delegado Francisco Garisto, da Polícia Federal, sindicalista da sua classe e articulista em jornais e revistas, onde expõe com clareza e sem meias palavras seus conhecimentos adquiridos em décadas de polícia. Garisto prescinde de apresentações ou biografia ligeira .

A quem se apega ao fetiche jurídico numérico (inimputabilidade do menor) Garisto lembra (ou informa aos divorciados da realidade) que um “menor” dos dias atuais sabe perfeitamente o alcance de seus atos, não havendo mais lugar para fantasias sobre “crianças“no crime, o mundo hoje se transformando em Universidade do crime onde as aulas são abertas a todos, principalmente a jovens que são expostos, desde muito novos, ao ambiente mental de associação entre criminalidade e “macheza”. Legisladores deveriam assistir às aulas de Garisto disponíveis em vídeos no You Tube e em seus artigos.

Quanto às drogas, o policial- professor demonstra que estas são sem qualquer dúvida, combustível da criminalidade, crimes não ligados direta ou indiretamente a elas, exceções cada dia mais raras. Em um de seus vídeos, recomenda a internação de dependentes químicos por seus pais longe de seus estados, indiferentes a protestos de “quem não tem mais vontade própria”. Imagino com quais tentativas de argumento algum universitário contestará esta opinião, em ambiente propício, se me entendem.

Garisto também desmitifica a Polícia Federal como FBI tropical, expondo as deficiências de organização pouco amparada com recursos e muito cobrada por quem compra a fantasia do FBI brasileiro, defendendo agentes que dão o sangue em condições profissionais não hollywoodianas em luta contra inimigo que se robustece a cada segundo. Qual “PhD em violência” se debruça sobre este aspecto do pesadelo antes de pontificar nas poltronas estofadas dos estúdios de TV?

Acadêmico que vejo citar Garisto com admiração e estabelecendo parceria (das mais produtivas, por sinal) é Claudio Tognolli, em tudo uma exceção. O fato de Tognolli não se contentar em conhecer superficialmente sobre o que escreve certamente o aproximou do policial lendário e de suas histórias resultando em livro referencial sobre redes criminosas. Mais acadêmicos assim e seríamos Primeiro Mundo, falando nisso.

Filme sobre o tráfico de entorpecentes dirigido por Mauro Lima e produção de Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”) contando com a consultoria de Garisto (personagem do filme, pois agente infiltrado no cartel de Medelín, de Pablo Escobar) está a caminho e tem todos os elementos para ser filme de grande público, principalmente o fato de ser história real.

Em qual país do mundo tal personagem já não teria inspirado filmes há muito tempo e não seria convidado sempre que o assunto “criminalidade“fosse enfocado? Acredito que só no Brasil, onde antropólogos e sociólogos são sempre convidados para balbuciar obviedades.

Um único reparo a fazer ao Garisto: escreve poucos textos, seus leitores no 247 (eu incluído) exigem mais, muito mais.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.