“Não economizando ajuda ao inimigo”
A percepção popular do conceito de “Democracia” assegura que toda opinião, mesmo a formulada sem estudos mínimos sobre o tema da opinião, deve ser respeitada como algo sagrado. Mesmo as tolices mais evidentes devem passar sem reparo, e quem observa que a opinião sobre opinião também deveria ser sagrada recebe o qualificativo de “arrogante”. Ou “autoritário”. Ou “prepotente”.
Claro que a maioria destes adjetivadores não sabe explicar, não digo o significado exato destes termos, mas o critério pelo qual os escolhem. E assim temos que tomar como válidos numa discussão política, memes de internet. Há quem se considere mesmo habilitado a colocar reparos em cientistas políticos após debates ligeiros com iguais numa caixa de comentários: “Eu penso assim, posso?” Pode, o feixe de capim é por conta da casa, democracia é via de mão dupla.
E assim leio todos os dias piadas ou tentativas de fazer graça, com a figura e governo de Michel Temer. Sua figura se presta às sátiras, como tantas outras figuras públicas, e de seu governo… é ridículo esperar algo mais que um governo de transição pode dar. Governo de transição que corre ameaça de extinção caso o TSE resolva condenar a chapa Dilma-Temer.
Mas como advertir que malhar Temer sem apresentar propostas ou críticas fundamentadas é trabalhar para o inimigo de anos de muitos dos que hoje o satirizam? Como não lembrar aos que se julgam na obrigação de ridicularizá-lo que este não é o inimigo a combater, não neste momento? Como convencer pessoas talentosas a não servir de rebanho?
Pois é o sentimento de rebanho o que motiva muitos destes humoristas de internet: sentem que, ou ajudam a destruir este governo de transição, ou assinam o atestado de “coxinhas”. E tome piadas sobre a primeira-dama (cometeu o crime de ser bela) e sobre a alegada semelhança de Temer com Drácula de filmes (Antônio Carlos Magalhães preferia compará-lo a “mordomo de filme de terror”), piadas que não são engraçadas nem inspiram reflexões.
Como escrevi na abertura deste parágrafo, muitos dos que praticam este suposto humor fazem-no por obediência à ordem do dia: derrubar Temer por este suceder Dilma Rousseff e não por defenderem outra linha política encarnada em alguma opção.
Ora, atacar (e humor sistemático contra um político e sua família é ataque, é campanha) Michel Temer, sem propor sua renúncia e eleições, é o mesmo que lutar pela devolução do Poder ao PT, ainda que muitos não suspeitem que o façam. Que tenham a coragem de agir como Helio Fernandes que desde o começo da crise defendeu o afastamento de ambos – Presidente e Vice – e convocação de eleições imediatas.
“Humor é coisa séria”, quem o disse? Millôr Fernandes? O humor não se presta somente a fazer o tempo passar com algum alívio, pelo mecanismo do riso, mas a combater e denunciar o ridículo de ações, padrões mentais, sistemas políticos e econômicos – fazer pensar, enfim. Devolver ao homem a reflexão que a mecanização da vida e o trabalho duro tomam: a capacidade de medir em si e nos homens em torno os ingredientes da vida – O trabalho é excessivo? A preocupação com a etiqueta social me toma mais do que dá? A Política me tem servido de alguma forma, ou me escravizado ainda mais? As relações humanas têm se conduzido por padrões honestos?
Tudo isto o humor ajuda a responder, pois coloca estas questões em perspectiva que excita a inteligência. É, portanto, instrumento precioso, não se deve desperdiçar este talento em fiapos de observações inúteis, ou úteis apenas aos que não perdem oportunidades de retomar espaços.
Um intelectual comprometido com o PT ou com o “Pós-PT” pode, e deve, combater este governo (e a figura de seu ocupante nominal), pois sabe o que faz; a democracia permite que se utilize a capacidade intelectual de acordo com o que se acredita, mas humoristas que se declaram indiferentes e afetam desprezo por política deveriam se abster de combate no qual tomam parte sem o merecer. Sem saber por qual causa se combate, o soldado é nada mais que títere, e um intelectual ou quem tem as pretensões de ser um, não se pode reduzir a títere de estrategistas políticos. Não gosta de política? Pois que escolha outro tema; há tantos.
“Você não está agindo como censor? O sujeito pode escrever sobre o que bem entender, fazer graça, ou vá lá, tentar fazer graça, com o que achar aproveitável.” Não, não sou censor, apenas exercito minha liberdade de opinar sobre a liberdade de opinião de meus colegas de internet, ou esta liberdade, a de avaliar o uso da liberdade de expressão, é discutível?
A figura do “inocente útil” é mais nociva que a figura do estrategista sombrio, pois este ao menos estuda, e algo de aproveitável sempre sobra do estudo; já o inocente que não se dimensiona como marionete causa apenas confusão e trabalha para forças que ignora o que sejam. E é o que fazem os que combatem este governo – de fato; fraco, sem senso de dramaticidade – apenas para fazer figura de superioridade, sem propor algo que exiba oposição radical ao governo anterior. Sem bater o dobro no PT do que batem neste governo de transição, agem apenas como cabos eleitorais de 2018, cabos eleitorais sem remuneração, o que é mais triste.
Não estou mencionando nomes, não preciso – Twitters variados e perfis de Facebook diversos fazem este trabalho de otário, gente que sempre criticou o PT agindo como se o pesadelo tivesse terminado e não economizando ajuda ao inimigo.
Confirmando enfim a babaquice como o dom mais bem distribuído entre os intelectuais.
O “Pós-PT” agradece a ajuda, sorrindo.
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Um flagrante
Escrevi no blog sobre os carros estacionados nas calçadas aqui perto de onde moro, mencionei o “Calçada Livre Já” da combatente Lara Velho, sim?
Como as autoridades não fazem a festa com multas é algo que morrerei sem entender, todo dia aqui é dia de colheita garantida.
Hoje um carro dá ré partindo da calçada sobre a qual estava estacionado e quase me atropela; o motorista se desculpa: “Não te vi”.
Claro que não me viu, nem poderia; o vidro traseiro do carro tomado por anúncio de candidatura a vereador esconde o pedestre.
Não me admiraria se informado que o candidato a vereador fosse o gentil motorista do carro estacionado sobre uma calçada.