Respondendo a um aspirante a blogueiro

Encontro na Pça. Sete, após meses, ex-colega de faculdade que se apresenta como meu leitor:

“Pawwlow”, o blog continua, você é animado.”

“Não, Fulano, não é ânimo, é preguiça de procurar outro meio de expressão, afinal o blog vem desde 2008, e se não me tem rendido centavo, também não me tem custado centavo.”

“Pawwlow, penso em fazer um para mim. Hoje em dia todos estão na internet e é bobagem não participar deste movimento. Você como um blogueiro que pode-se considerar veterano, teria conselhos a dar?”

“Conselhos fossem de valia seriam vendidos, diz o ditado. Eu só aconselharia você a não perder tempo com blog. Inicia-se, e não se tem coragem para admitir o fracasso. Como tantos, arranjarás desculpas, enquanto sonha-se com a fama via internet.”

“Você diz isto, mas tem seu sucessinho.”

“Não, continuo tão anônimo como em 2008, quando iniciei o blog por incentivo de gente que alega falta de tempo para acompanhá-lo. O fato é que mesmo amigos que dizem gostar preferem dispensar atenção aos nomes já consagrados na imprensa, e se leem, percebe-se que a leitura foi ligeira, um favor prestado apenas. Meu nome jogado no Google é um eco de poucas referências. Bobagem, portanto, escrever sonhando com algo sequer parecido com fama.”

“Mas há os que comentam, não? Nem estes divulgam teu blog?”

“Aí é que está. Dos meus comentaristas, poucos divulgam o blog, e fornecem link: Paulo Mayr, jornalista veterano, que mantém o ‘Trombone do Mayr’ comentou algumas vezes e algumas vezes elogiou e deu link do blog; o cineasta Afrânio Vital, mesmo jamais tendo comentado no blog, deu o link na sua página do Facebook; Ricardo Setti, o grande jornalista, comentou (e declarou ter comentado em resposta a comentário meu no blog que mantinha no site de “Veja”) e deu o link algumas vezes. Lembro do Francisco Garisto ter divulgado texto meu em seu twitter. Os demais, fazem a gentileza de comentar, mas não dão um pio sobre meu blog em suas manifestações. Assim, o blog continua um segredo de poucos.”

“Você guarda mágoa dos que guardam o blog para si apenas?”

“Não, como um conhecido me disse certa vez, ‘as pessoas não têm obrigação de ler teu blog’, e é assim que penso. Eu na condição de desconhecido, fazem até caridade visitando, esperar que divulgassem… Mas nem por isto deixo de tomar nota, o contrário seria injusto para quem divulga, concorda?”

“Fora este silêncio, o que mais desestimula?”

“Este silêncio já não inibe a vontade o bastante? Bom, também desestimula verificar que mesmo quando compramos brigas por fulano e sicrano, e damos a fulano e sicrano ciência de nossa tomada de posição, nem assim mostram algum reconhecimento – apenas se isto servir de alguma maneira. Acaba-se com inimizades herdadas de graça, e nenhum agradecimento, nem em forma de menção sumária.”

“Isto já te aconteceu?”

“O arquivo do blog está à disposição de quem quiser acompanhar certas pauladas que dei em defesa de pessoas que, tendo séquitos, não tiveram, ainda assim, defesa enérgica de seus nomes quando atacadas de forma covarde. Claro que fosse eu um nome prestigiado, os textos teriam sido divulgados e reproduzidos; ao invés disto, os textos, por minha condição de blogueiro quase clandestino, caíram no esquecimento veloz.”

“Você já foi plagiado?”

“Plágio na internet… como não sou divulgado, fica difícil até mesmo ser alvo de sugadores de ideias. O que há, acredito, é coincidência de pontos de vista, e alguma sintonia mental. Já escrevi a respeito, fornecendo ao leitor estes flagrantes e sublinhando as datas de minhas publicações, pois se não tivesse tomado este cuidado, eu teria sido acusado de plágio. Houve quem lesse estes textos – lembrete e achado excessivo, mas quem achou excessivo também nunca ergueu uma lasca de unha para me divulgar; eu que sei de mim – dos cuidados que tenho para não ser acusado de plagiário tendo escrito certas coisas com antecedência.”

“Mas isto, este não-reconhecimento, esta má vontade, vem da parte de gente medíocre, mergulhada em recalques?”

“Uma coisa nada tem com outra: o sujeito pode ser culto e talentoso, e ainda assim ser prisioneiro de temores sociais: ‘Eu, promover Pawwlow, e herdar as inimizades e querelas dele? Que dirá de mim A ou B se o citar?’ Já recebi esta explicação, e me surpreendi muito pouco. A maioria é corajosa somente quando escreve, o ator sob o personagem de blogueiro destemido é quase sempre o oposto exato disto.”

“Mesmo famosos agem assim?”

“Você esquece que todos têm a quem servir, de maneira ou d’outra. Engole-se sapos nas altas esferas, sapos gordos que são vomitados em quem estiver imediatamente abaixo, isto é, o autor buscando apoio destes engolidores de desaforos nas altas esferas. Não apenas atores descarregam frustrações e contrariedades em fãs que pedem para tirar fotos, autores têm sua vez de alívio nos candidatos a celebridade nas letras.”

“Com você aconteceu muito isto?”

“Aprendi muito aos poucos a não contar com ninguém, mas ainda assim rápido o bastante para colecionar poucas humilhações. Conheço gente que poderia escrever obra em vários volumes narrando desencontros com famosos. Há uma história ocorrida com um amigo que faço questão de te fornecer, pois penso que é útil a quem pensa em procurar figuras notórias.”

“Conta logo, quem sabe esta história me sirva como sinal…”

“Um autor, conhecido no Brasil e em certos círculos no exterior, figura que por certas atitudes recebe há décadas o rótulo de ‘Polêmica’, sempre despertou a atenção deste meu amigo, que acompanha através dos anos sua carreira, e lê seu blog há algum tempo. Um dia, toma coragem, e escreve à sua admiração – que responde, pedindo para publicar o email deste admirador, em seu blog. Uma vez publicado o email admirativo, o escritor se aborreceu com o entusiasmo na correspondência, começou a ser ríspido nos emails e além de retirar de seu blog o texto que ele próprio havia pedido para publicar, cobrou em um email o ‘espaço’ que dera. O amigo que me contou está até agora sem reação, pois procurara o autor apenas para mostrar seus escritos, sem outra pretensão que a de ser notado, duvidando mesmo que seria lido, que dizer respondido. Como você pode ver, mesmo gente culta e talentosa exibe sintomas graves de carência e desequilíbrio.”

“Cara, parece um conto de terror psicológico, mas acredito. Você acaba de me convencer a não fundar blog.”

E meu colega e leitor despediu-se, vencido por minhas experiências, e das que colhi.

Não foi este meu desejo; quis apenas mostrar a este aspirante a blogueiro que o caminho só vale a pena ser enfrentado se descuidamos de expectativas, sem mirar companheiros de caminhada. Caminha-se só, mesmo quem é transportado em liteira.

Há um trabalho a ser feito, e cada um deve conhecer sua capacidade de suportar; a vida não é mesmo isto?

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.