Lula no Chevrolet Hall
O ex-presidente Lula esteve ontem em Belo Horizonte em um encontro da CUT (Central Única dos Trabalhadores) no Chevrolet Hall.
Dirigiu-se a uma plateia que seria possível descrever como a nova aristocracia do petismo: assessores de tudo que é secretaria do governo petista do estado, os militantes lotados em autarquias, os estudantes com possibilidades de ascensão em instituições dominadas pelo petismo, e talvez um ou outro favelado “oficial”, com filho na UFMG graças às cotas, militando em tempo integral na internet, nas caixas de comentários. E os sindicalistas, claro.
Onde a massa em cidade onde Lula já foi ícone? Onde os antigos favelados que já nasciam petistas? Onde os estudantes que engrossavam as manifestações?
Na porta, manifestantes protestavam contra o líder petista enquanto seus correligionários reagiam com a habitual tolerância nestas situações. Pois mesmo estes manifestantes a favor, uniformizados de vermelho, não conseguiram amedrontar os “coxinhas”, que pelo que vemos pelas fotos, nem estavam em maioria humilhante. A Polícia Militar viu-se obrigada a separar bandos de manifestantes dispostos à luta corporal. O que leva a acreditar que as milícias prometidas pela CUT estão ainda esperando ocasião mais oportuna para exibir suas cores e sua fúria na defesa do “Governo Mais Popular da História”.
Lula atacou os “filhinhos de papai”que protestaram, enquanto censurava a falta de decoro de manifestantes que dirigem insultos pesados às autoridades, inconsciente da própria falta de compostura ao catalogar com linguagem pejorativa setores da sociedade que ele, como Presidente, teve a ocasião de governar. Um estadista não se refere com estas palavras aos opositores.
Ele deveria se perguntar: “Onde os nossos? Onde a massa que não enfrenta estes ‘coxinhas’ ”?
Como não parece capaz de compreender o desgaste que sofre (sobretudo em cidade onde tem atuação desde os anos ’70), resta insultar, gritar, encenar seu número de “líder injustiçado dos excluídos” para plateia domesticada por privilégios. Responsabilizar hipotética revolta de uma classe média contra também hipotética “inclusão”.
Não acredito que tenha empolgado mesmo estes ouvintes interessados na perpetuação do petismo, esta retórica subideológica; insistindo em leitura tacanha da luta de classes nega o orador brilhante, carismático e inventivo que Lula um dia foi. Lula deixou-se contaminar por companhias latino-americanas pobres de imaginação, que dirigem regimes burocráticos e ineficazes, e que portanto, apelam para lutas internas para disfarçar a ausência até mesmo de um populismo que tem sua razão de ser em países por se desenvolver.
Este foi o destino do petismo: converter-se em uma imitação piorada, do “chavismo” e do “Kirchnerismo”, no Brasil o esquerdismo oficial elege como inimiga não a classe dominante – aliada e beneficiária – mas a classe média insatisfeita e mesmo as massas “ingratas”. Fim de linha.
E Lula o sabe, como o mais inteligente dos petistas, antevê a derrocada e prepara o “Pós-PT”, mas sabe que tem que encenar estrebuchos diante de uma militância nada estimulada, que apenas se agarra ao governismo, pois sabe que, sem ele, voltará a ser menos que nada. Este o quadro que qualquer observador constata ao conversar com petistas; quando se declaram como tal, quando não tentam camuflar esta condição com desconversas: “Nunca fui petista, mas este governo realmente olhou os pobres”, “Não sou PT, mas não tolero tucanos”. Este o gado de Lula.
Ele mencionou possível retorno em 2018 como quem ameaça, mas só um tolo incurável aposta que ele colocará em jogo tudo que possui de nome e que permite palestras milionárias pelo mundo por uma aventura na qual ele poderá sair derrotado. Esquece alguém que ele quase não saiu candidato em 2002, só aceitando concorrer quando as pesquisas mostraram-no franco favorito? Ele também sabe que este é mais um número para entreter os convivas do Chevrolet Hall, nada mais.
Lembro Pelé se oferecendo a jogar em um jogo de uma Copa do Mundo, 1986 ou 1990 – todos acharam um absurdo, uma falta de senso. A pré-candidatura Lula é parente próxima do oferecimento de Pelé, pois. De fato, o PT não tem outro nome, mas a ausência de populares para saudá-lo deveria ser aviso claro a líder experimentado de que ele não significa, do ponto de vista eleitoral, mais nada. Nem ele nem sua agremiação.
Torno a repetir: isto em BH, outrora, um chão assumido, e fanático, como petista.
O que me levou de volta ao segundo turno das eleições presidenciais: um jornalista de São Paulo, meu conhecido, me liga perguntando como estava o ânimo aqui. Relatei-lhe: a zona em que voto, com indiscutível predominância da classe C, estava munida de bandeiras e adesivos do Aécio Neves. Eleitores com plásticos da Dilma Rousseff olhados com desprezo que dispensa legendas. O resultado confirmou minha descrição: em BH, o PSDB ganhou.
Hoje o PT tem eleitorado residual, o descrito no segundo parágrafo deste texto, e nada mais. Simpatizantes das classes mais baixas estão menos ostensivos que em outros tempos, e isto talvez explique a ausência desta fatia do leitorado ontem. Este seria em dias de Lula realista, um lembrete do quanto precisavam trabalhar, hoje nem isto.
A escolha do local do evento da CUT me diz muito. Aos leitores que desconhecem BH: Chevrolet Hall fica na Savassi, ponto nobre da cidade. Outrora, a CUT se reunia no Centro, em logradouros menos prestigiados e nada turísticos.
Lembro de uma visita de Leonel Brizola a BH (escrevi sobre esta visita aqui no blog) onde se reuniu em almoço com seus simpatizantes no “Minas Tênis”. Comecei a perder o encanto pelo líder do PDT ali; um líder popular se reunir com os seus num clube de elite? Rotulem-me de “romântico”, mas acredito em símbolos. E penso que muitos militantes e/ou simpatizantes pobres do PT não se sentiriam à vontade no local escolhido pela CUT.
Dirão: o PSDB se reúne onde, querido? No “Mercado Central”? Na Quadra da Vilarinho?
Não, se reúne em locais como a CUT recepcionou o ex-Presidente. Mas pelo menos não afeta ser porta-voz das classes trabalhadoras. É claramente partido de gente abastada, de classe média bem situada; o que os idiotas rotulam “coxinhas”.
Em dias mais inspirados, Lula se recusaria a ser recebido em local como este, evidenciando, na escolha do território, as diferenças com o partido antagonista.
Hoje se contenta em culpar a classe média e a oferecer à sua claque o que ela, mergulhada na miséria mental, espera e aplaude antes dele abrir a boca.
Há maneiras menos melancólicas de fechamento de ciclo.