“Escrever bem? Ah…precisa?”
Relendo “O Óbvio Ululante – Primeiras Confissões”, do Nelson Rodrigues, me maltrato- como o sujeito escrevia! Todo artista vive desta ilusão: fazer parecer fácil o que é fruto de anos de esforço. O fruto de anos de leitura e prática (Nelson começou garoto) ganha a feição de um mero prazer exercido dia depois de dia ao leitor que imagina (se não apresentado às dificuldades do ofício) estar diante de um vadio que ganha a vida batendo papo em palavra impressa. David Nasser provoca o mesmo efeito, e Paulo Francis, e outros mestres.
Escrever em português com esta maestria era também fruto de uma formação escolar que o Brasil não oferece mais nem mesmo nos colégios de elite, e as faculdades de Jornalismo não conseguem (mesmo se o quisessem, o que não me parece ser o caso) corrigir anos de falta de leitura e exercícios de redação. Vejo, nos portais de notícias da internet, erros evidentes de concordância, mesmo em manchetes. E ninguém perde o emprego por isto.
Jornalistas e aspirantes a escritores dos dias de Nelson Rodrigues liam Eça de Queirós (no livro que releio, há a imagem, reiterada em textos, do “pão com alguma manteiga a barrar por cima”, citação de Eça) como obrigação básica do aprendizado do ofício, e pelo que noto, nada mais fora de moda que ler (e reler) Eça. Lembro na faculdade das aulas de Literatura Portuguesa onde o Eça oferecido aos alunos era o da sua fase inicial que, embora não sendo má, não se pode comparar às obras de sua maturidade. Mas como não relativizar o peso de Machado de Assis com o estudo de “Os Maias”, compreendem? E assim os brasileiros vão, se não se especializam academicamente no Eça, sendo privados do mestre absoluto do idioma. E a escrita saturada de clichês é mera consequência.
David Nasser, respondendo a um ataque de um oficial da Marinha (por conta de seus escritos contra a aquisição de um porta-aviões), recomendava: ”Leia os clássicos, adquira estilo.” Este conselho poderia ser oferecido a quase todos os articulistas em atividade no Brasil. Os artigos, mesmo os escritos com algum cuidado com o idioma, parecem concorrer em uma gincana de clichês: “Voz rouca das ruas”, “o peso da crise”, “os brasileiros de bem”, ”silêncio ensurdecedor”, entre outras figuras que, colhidas de escritos marcantes em sua origem, diluíram-se e são recurso certo de redatores preguiçosos, ingredientes de textos instantâneos como o café instantâneo; prático e desagradável de consumir. Como textos que cantam vitória das oposições com o desgaste (que pode ou não ser definitivo) do PT, são previsíveis e de pouco poder de permanência; as simplificações contidas nos textos ganham apresentação estética correspondente, em suma.
E como não espanta, há os opinadores de internet que se animam a assinar artigos, incentivados pelo exemplo, e aí é que o estilo é arremessado ao lixo, sem cerimônia. ”Mais” significando “Mas”, “A” no lugar de “Há” são encontradiços, mesmo em lamentadores habituais do “analfabetismo” de Lula e Dilma Rousseff.
Vejam blogs e sites ditos conservadores. Leio alguns e penso em aconselhar a compra de uma gramática, ou mesmo revisão de textos, mas me calo. Erros também cometo (mas na releitura corrijo-os) e não sou consultor de aspirantes a estrelas da internet. Caso sugerisse a algum destes blogueiros e à sua respectiva corte de comentaristas (cada blogueiro destes cria sua patota de coadjuvantes) rever os textos, ou mesmo comprar uma gramática, decerto teria como resposta algo como: “Estou aqui combatendo estes bandidos e você vem com mimimi”-“mimimi” é o equivalente, no meio direitista brasileiro, ao termo “coxinha” da margem esquerda; o dado conclusivo de que o autor é um limitado incurável, um tolo, um sujeito que merece apenas desprezo. Se algum interlocutor emite “coxinha”, ou “mimimi”, me desculpo e sigo caminho.
Os governistas parecem ter maior cuidado, suas falhas repousam antes no oficialismo, na falsificação e nos apelos sentimentaloides e piegas aos piores sentimentos da população. Na estética, variam da escola “Parágrafo de uma frase” à cafonice de textos grandiloquentes, ao estilo de Mino Carta, evocando lutas de classe para semianalfabetos. Mas noto menos derrapadas gramaticais que em seus antagonistas conservadores, sobretudo jovens blogueiros de Direita, sobretudo autoproclamados “Guerreiros “ disto ou daquilo.
Tudo isto decorre da recusa de se admitir necessitado de ler, ou reler os clássicos: Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, David Nasser, Franklin de Oliveira, Carlos Castello Branco, Millôr Fernandes e mais alguns outros hábeis no idioma.
Ora, precisa? Nossa boa vontade, nossa autoridade moral não basta?
Estes simplistas parecem ignorar que a construção da hegemonia da Esquerda contou com os recursos de gente de talento (hoje este capital cultural escorre em decadência) e que tudo começa com a conquista do imaginário das massas. Textos desleixados, contentes com suas boas intenções, fazem sorrir e suspirar de alívio os beneficiários do atual sistema de Poder, sobretudo a casta acadêmica. O esforço parece ser demasiado aos “combatentes”.
Leio Nelson Rodrigues vergado pelo complexo de inferioridade- todo elogio ao seu talento é pouco, e não raro, redutor. Elogia-se Nelson com palavras que o negam, muitas vezes. Há que se reler Nelson (tanto a obra teatral como a não-teatral) dia depois de dia. Qualquer aspirante a polemista deveria cumprir esta obrigação antes do exercício diário da escrita.
Lembro do Keith Richards elogiando determinado artista, dizendo ser ele o modelo no qual muitos se medem – e acabam desistindo, indo procurar emprego em qualquer outra atividade. Certos autores me são este modelo humilhante, ou inspirador. Ou me prostram, ou me fazem tomar a caneta com energia que me parece inesgotável. Os que citei neste texto, os que citei em outros textos, procurem, os interessados, no blog.
Foram e são minha escola; escola que noto não ter sido a de muitos que ganham dinheiro e prestígio na imprensa e na internet. Julgam não precisar, decerto. E também decerto não precisam mesmo. O nivelamento por baixo é nossa constante, e ninguém perde, no Brasil, prestígio, caso elogiado, ou mesmo lançado, por medalhões. Um elogio de um grande homem é licença para se livrar de senso crítico, de exame severo de desempenho.
Duro constatar a minha obscuridade com tanto medíocre ocupando palcos, estabelecendo valores, ditando termos de conduta, com a autoridade advinda totalmente da audácia, da ausência de senso do grotesco. Articulistas indignos do momento que retratam, com responsabilidades superiores à capacidade.
Nada posso contra isto, e criticar estas nulidades soa como exercício de inveja.
Reler Nelson Rodrigues e me exercitar são a única resposta.