“Uma Tarde na Venezuela”

O título desta nota poderia ser título de um filme, gênero comédia, mais precisamente do filão das comédias de republiquetas latinas.

Um grupo de senadores de oposição do maior país da porção sul do continente americano, o único de língua portuguesa resolve auxiliar opositores presos de um país caribenho.

Na chegada, são recepcionados por militantes governistas que recebem os estrangeiros como espécie de invasores, cercando a comitiva e forçando a retirada. Fim.

No decorrer da fita, embaraços diplomáticos, acusações de cumplicidade do governo do país de origem dos visitantes, entrevistas aos blogueiros da maior revista do país dos senadores em missão, fúria nas redes sociais.

Não consigo escrever nada de sério sobre este episódio dos “nossos senadores“ sendo enxotados da Venezuela. O episódio é bizarro e mostra, uma vez mais, em que tipo de liderança as massas insatisfeitas do Brasil depositam confiança, a quem se delega o destino de um país. Uns trapalhões com extrema autoconfiança.

Se no próprio país estes senhores estão tendo nenhum sucesso em extirpar câncer da mesma família do câncer que devora o corpo venezuelano, não será em país alheio, que obterão maior sucesso. Por que a Venezuela importaria fracassos?

Quando a eleição no Brasil parecia já decidida pela reeleição (muito graças aos reflexos tardios do PSDB) tucanos ainda continuavam sonhando a posse. Mesmo com o TSE não tomando conhecimento das pressões dos governistas sobre beneficiários dos programas assistenciais, a hipótese da renúncia da candidatura, com cobertura da imprensa internacional, não era admitida (se ocorresse a estes senhores, claro).

Um gesto dramático no Brasil talvez tivesse repercussão em toda América Latina, quem o sabe?

Hoje, sonham com desdobramentos dos escândalos, com hipotética prisão de Lula (de que adiantaria?) com impeachment de Dilma Rousseff; com a volta do Brasil anterior a 2002, em suma. Não percebem que mesmo as massas furiosas (as quais desmentem, por massa, serem “coxinhas”) com o PT não sonham com o retorno do PSDB.

Sinais de apreço ao ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso ou algum sucesso eleitoral isolado não significam adesão popular à mítica (qual mítica? qual símbolo oferecem às massas?) tucana, apenas desgaste com os demagogos que prometeram cachoeira de leite achocolatado e entregaram lama, apenas isto.

E do alto deste vazio de lideranças, deste quadro de insatisfação popular sem líderes, estes Srs. da oposição lançam-se em missão política em país muito mais polarizado que o deles?

Há na Venezuela, para começar, uma divisão muito mais sedimentada e antiga que a brasileira. O que sites governistas tentam implantar no Brasil – a luta de classes com viés racialista – tem na Venezuela sua matriz, por razões históricas. Ainda que haja desgaste do Governo entre a população, bolsas de governismo apaixonado e febril subsistem.

Não se combaterá nada, nenhum traço deste esquema de Poder ramificado ao Foro de São Paulo com ações do tipo. Há que se ir aos países que de fato podem pressionar estes governos. Europa e Estados Unidos deveriam ser o destino desta comitiva de oposicionistas, não cutucar com lápis a ratazana no seu bueiro.

Este raciocínio deveria ter sido apresentado a estes políticos por formadores de opinião competentes, mas quando se encontra um, como Olavo de Carvalho, ouve-se apenas o que é agradável aos sentidos. Daí resultam trapalhadas como a de quinta-feira.

Toda a pressão deve vir do chamado Primeiro Mundo, os países sob o atual esquema de Poder são armadilhas aos oposicionistas, e isto eles aprenderiam com leituras de obras escritas por ex-exilados que tomaram o Poder em seus países após longo intervalo no exterior.

Olavo de Carvalho sempre cita a máxima de Lênin: “As revoluções são feitas do Estrangeiro” e esta citação, se conhecida por oposicionistas brasileiros, não encontra recepção. Decerto interpretam-na como conselho de renúncia, quando deveriam tomá-la como recomendação de agir com vista aos grandes centros de pressão política e econômica.

Como se prontificaram a libertar a Venezuela se aqui mesmo sites do governismo aplaudiram (tanto em manchetes como nos textos dos colaboradores usuais) a agressão que sofreram (e não vale dizer que não poderiam adivinhar o que seria publicado nos sites amigos do Governo) e pedaços inteiros da mídia conectados com a casta acadêmica sempre se declaram favoráveis ao sistema de poder do Foro de São Paulo?

Admitir que aqui é um país já preparado pela ideologia a aderir ao sistema venezuelano é muito duro para estes oposicionistas. Preferem acreditar que a queda próxima do PT representa a desmoralização de uma ideologia quando observadores atentos já percebem a troca de pele da cobra; cai daqui a pouco o PT e PSOL e “movimentos sociais” assumem o lugar. A casta acadêmica sequer foi incomodada, ainda que mentora de todo este pesadelo.

Articulistas de “Veja” cobram resposta enérgica aos agressores da Venezuela, esquecidos que a mesma resposta enérgica deveria ter sido apresentada na forma de renúncia da candidatura; a recusa de denunciar a eleição como aberrante (a começar pelo anúncio, uma semana antes do pleito, de que a apuração seria fechada) significou a legitimação de um pleito marcado por ataques pessoais e intimidação de parte do eleitorado.

Logo… não será agora que libertarão com discursos o Brasil e, sobretudo, um outro país.

Tratem primeiro de denunciar aos países que podem efetivamente pressionar o sistema resultante do Foro de São Paulo o aparelhamento das instituições e os gastos com subjornalismo que aplaude agressão a parlamentares e às forças ainda não-cooptadas do País com frequentes comissões de visita aos jornais norte-americanos e europeus e demais organismos governamentais e não governamentais.

Parem de brincar de Oposição em uma democracia!

Depois, se obtiverem êxito no desmantelamento entre nós deste sistema, tratem de exportar a fórmula. Antes, não.

Uma tarde na Venezuela que pode servir de lição, embora no momento divirta o inimigo.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.