Encontro com colega de ex-petismo

Andando pela região dos hospitais, em Belo Horizonte, encontro conhecido de anos. Abraços e troca de informações, ele me pergunta:

“E este governo, hein?”

Conheço-o do início dos anos ’90, éramos eleitores do PT à época.

“De doer no fundo da alma. Que dure até o final.”

Não parecia, este meu conhecido, temeroso de reconhecer que havia embalado, assim como eu, o pesadelo de agora. Quantas conversas do tipo nestes encontros de rua…

“Ah, o povo também não aprende. Votar no PT que é bom…”

“Parece que agora o povo não os segue mais. Depois do corte que estão anunciando, outras massas terão que nascer para estes caras terem novamente alguma vez. Nós votávamos neles, e acordamos. Não será quem acreditou tanto, como agora, que continuará engrossando este eleitorado – que lhes caiu no colo.”

O conhecido me lembrou: “Mas não tem para onde correr, quando penso que a alternativa é o PSDB…”

“Sim, o triste é ter esta alternativa, mais que ter este Governo. Não se carece procurar amigos com inimigo assim, o PT não poderia ter maior aliado.”

“Fernando, eu confesso que votei no Aécio Neves somente por falta de opção – e no Segundo Turno”.

“E quem não, entre as pessoas do nosso tempo? Quem esperava algo dos tucanos, é por desconhecimento sobre a origem do partido, auxiliam o PT desde sempre; o PMDB enfraquecido com o racha da legenda em ’88, propiciou a arrancada do PT. Desde o início, o PSDB sonhou a social-democracia à moda europeia, e olha onde estamos”.

“E estes movimentos surgidos na internet? O líder do “Vem Pra Rua”, Rogério Chequer, parece pessoa equilibrada, sabe que exigir impeachment agora não servirá à Oposição, mas ao Governo, que sairá mais forte com a provável desmoralização que a recusa do impeachment trará”.

“E estes dementes chamam o sujeito de ‘frouxo’, fornecendo ao governismo munição para piadas, e elementos gráficos para o estereótipo do oposicionista como histérico de classe média leitor de ‘Veja’”.

“Fernando, e este pessoal que quase agrediu o Guga Noblat na Av. Paulista?”

“É desta gente que falo. Ainda acusam, nas redes sociais, o Guga de ter utilizado o bebê como escudo. São estúpidos, e esquecidos do escudo que um grupo significa a um casal e um bebê. Veja o sujeito chamando Guga de ‘arrombado’. Aquilo é o grosso da Oposição no Brasil, o MAV de Direita que consegue provocar risos quando se mete a polemizar com os MAVs do petismo na internet. A única peça retórica do repertório é ‘Vai pra Cuba’. Os petistas morrem de medo… de morrer de falta de ar num acesso de gargalhadas.”

“Dizem que ele provocou…”

“E respondo: onde a coragem para abordar grupos de petistas ou sindicalistas? Por que não vão bater panelas em encontros do PT, ou nas portas de diretórios acadêmicos?”

“Eles parecem que estão com pressa. Não sabem que terão que esperar…”

“Olha, lembra quando votávamos no PT? Saíamos de casa sabendo que perderíamos e não nos abalávamos por isto;’Se o País demora a despertar, pensávamos, problema só dele’. Os petistas de hoje não têm o mesmo espírito de serenidade histórica. O problema é que os oposicionistas também não.”

“Eu saía tranquilo de casa para votar… sabia que a hora do PT chegaria…Me desencantei logo no início do Governo Lula quando ele, Lula, quis passar a contribuição dos inativos; justificou-se com a explicação de que, como Governo, sua percepção era outra. Acabou meu encanto ali.”

“Chegou, enfim.”

“Quando eu votava, desejei o fim de uma democracia que me parecia fajuta. Acreditava que uma época de verdades duras precisava chegar para o Brasil ser algo. A verdade dura é que esta gente sonhava o Poder, e mais nada”.

Enquanto eu lamentava a realização de desejo de juventude, investigava a feição dos populares no ponto de ônibus na frente da Faculdade de Medicina. Em outros tempos, temeria as expressões repreensivas. Hoje noto cansaço e desencanto nos antigos convertidos.

“Por que esperam o impeachment para a semana que vem? De onde tiram esta fantasia?”

“Leituras de ‘Veja’ os convenceram de que mais um escândalo… e o Governo cai. Mesmo os talentosos ali, como Ricardo Setti e Augusto Nunes, nomes do maior respeito, colocavam reloginhos marcando o tempo que faltava para o fim destes dias de PT. A mente destes leitores não parece compatível com exames realistas da situação.”

“Eu sei que, se o Governo cai hoje, esta gente volta remoçada em 2018.”

“Eu desejo um mandato que se prolongue até o último segundo, nada menos.”

E nós dois, colegas do sonho que se mostrou pesadelo, nos despedimos, certos de que o despertar demorará.

Olavo de Carvalho em “TVeja”

A entrevista do Olavo de Carvalho à Joice Hasselmann frustrou quem esperava uma resposta frontal aos ataques não nominais do Marco Antonio Villa. Olavo escolheu dar uma aula sobre o Comunismo, decerto considerando ser este o método eficaz de delimitação de territórios. Nada de responder aos qualificativos “embusteiro” e “astrólogo”, muito menos citar nominalmente o oponente da Academia.

“Mostro que sei do que falo, que o Villa é um palpiteiro repetidor de clichês, e assim mostro quem é o ‘embusteiro’.”

Quem não consegue ouvir Olavo pensando isto?

Lembro que Olavo escreveu no Facebook que havia exigido direito de resposta equivalente à duração da entrevista na qual Villa o atacava não nominalmente. Portanto, muitos esperavam uma resposta firme quando chegasse a vez de sua entrevista.

Terá Olavo escolhido não dividir o campo oposicionista, a exemplo da “união das Esquerdas”? Pensará que manter não se sabe qual união entre os insatisfeitos é preferível a um confronto mais que justificado – e necessário, pois há tis a serem colocados em uma questão que ainda tem seus inocentes?

Esta escolha, a da aula (desnecessária a quem pode ler muito do que Olavo escreveu e disse nos vídeos), frustrou seus admiradores, e é quase um convite a futuras agressões por parte de seus antagonistas. Quem, sejamos francos, não se anima?

Um direito de resposta desperdiçado.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.