O choro pelo adiamento da usurpação do direito de escolher do eleitor, vulgo Ficha limpa
Com a exceção de Reinaldo Azevedo (ou algum outro que ainda não tenha lido) todos os comentaristas que li lamentaram que a Emenda Ficha Limpa só entre em vigor a partir de 2012. Expressões como “vergonhoso “, “O Brasil não tem jeito “, “é assim, fazer o quê?”demonstram que mesmo supostos “formadores de opinião”escrevem passionalmente sobre assunto mais complexo que vícios de arbitragem de futebol. Mesmo Reinaldo Azevedo me parece equivocado ao combater a Emenda pelo que esta tem de inconstitucional, como se nossa Constituição já não tivesse sofrido cirurgias reparadoras diversas (claro que não é este o único argumento de Azevedo, os demais são bem acertados, bem medidos, como a urgência de adotarmos o voto distrital).
O Projeto Ficha Limpa é apenas o primeiro passo para eliminar de vez o poder de escolha do eleitor, transferindo-o para o Judiciário e grupos de pressão (a Igreja, repleta de padres semiletrados e pouco preparados para qualquer discussão, de qualquer natureza, significativamente é um dos referidos grupos a promover esta usurpação). A luta pelo voto distrital não é interessante para estes grupos, nem o voto facultativo, pois são ambas bandeiras de emancipação política da população que vota coagida em políticos que desconhece.
Ou o debate que é evitado por todos, mas um dia terá que ser enfrentado – o voto por delegados de partidos ou de organizações políticas e sociais e não mais por indiferentes e ignorantes que reagem com asco (“política é um saaaaaco”) a qualquer iniciativa que se tome de entabular conversações sobre o assunto – política – sobre o qual eles terão, no momento do voto, maior autoridade (pois são maioria) que os interessados, que leem, analisam candidatos, alianças, financiadores, biografia pessoal e partidária dos postulantes ao voto. Isto (decisão responsável) é democracia, o que conhecemos aqui é o poder dos que possuem as chaves dos cofres públicos e privados. Ficha Limpa num país de desinteressados é desconversa.
A Emenda é da mesma família do voto em lista (onde os caciques partidários é que teriam vez), da obrigatoriedade do voto e de quaisquer outras modalidades de democracia tutelada. Que combatentes como Lobão e Helio Fernandes lamentem sua não aplicação imediata é apenas um sinal do poder das mentiras bem emolduradas.