The Smiths ou o golpe no coração
Recordo dias de adolescência, The Smiths sendo para mim o que os Beatles foram para minha mãe. Minha identificação com o vocalista / letrista / messias dos desesperados, Morrissey era (ainda é) quase total e posso dizer que “Half a Person” poderia muito bem ter sido escrita por mim e como tal canção me parece autobiográfica, acredito que Morrissey passou pelos mesmos bocados que eu. “Girl Afraid” é canção que me assalta obsessivamente seja pela introdução de Johnny Marr, seja pela letra que versa sobre os desencontros que a timidez provoca sadicamente.
O trabalho solo de Morrissey conheço pouquíssimo (gosto imensamente deste pouco) e os Smiths pertencem mesmo ao vale da memória, mas a mínima lembrança deles ou a audição da coletânea “Louder Than Bombs” me sabem como golpe certeiro no coração, uma jornada proustiana aos ensaios de conhecimento do mundo na adolescência. Não hesito em declarar que “Please Please Please Let Me Get What I Want” é a mais pungente canção já escrita por Morrissey / Marr e meu hino para todo o sempre. Me parecia aos quinze anos que o apelo de Morrissey em “I Know It ‘s Over”: “Oh mother, i can feel the soil falling over my head” fora transmitido por mim ao Morrissey por uma espécie particular de telepatia.
Na adolescência, as fixações românticas parecem ter força capaz de transfigurar o cosmos a partir do quarto carregado de sombras e expectativas.
Morrissey compôs obra já clássica abrindo o seu quarto, e parece ter sido mesmo um dos últimos artistas.