Sobre as eleições de 2014 e “Observatório da Imprensa” com Helio Fernandes

O doutorado em ganhar eleições do PT no Primeiro Turno ostentado por Aécio Neves está sendo revisto em sua casa, onde seu candidato perde para o candidato do PT no Primeiro Turno – o que lembra botafoguenses pós-Garrincha zombando de flamenguistas com os números do seu time de outrora. Em política, resultados da véspera negam-se. Otimistas acreditam que programas de TV anularão a distância entre a presidente candidata à reeleição e as demais candidaturas, pois indecisos terão a oportunidade de conhecer o ideário dito oposicionista e os que sofrem doutrinação anti-PSDB nos últimos doze anos poderão ser convencidos de algo, ainda que este algo tenha esperado quatro anos para ser revelado, pois onde os tucanos enquanto governistas criam sites e blogs e comentam em todos os existentes, na guerra pelas mentes deste momento?

José Serra quando entrevistado no “Roda Viva”observou que, embora o modelo petista de estímulo ao consumo com base no endividamento esteja se esgotando, nada garante que este esgotamento traduza-se em resultados eleitorais a curto prazo. Mas os que apostam em golfadas de indignação e no possível caos durante a Copa do Mundo esquecem-se que nada garante aos oposicionistas a colheita desta amargura, ainda hipotética. O trabalho desenvolvido há anos no ânimo das massas por agentes bem treinados na militância, é subestimado neste cálculo por parte considerável da imprensa simpatizante da candidatura Aécio. A pregação constante e paciente sobre os supostos males da administração do PSDB e o que o PT alegadamente fez para solucioná-los é, aos que desejam acreditar em uma volta ao Brasil anterior a 2002, pormenor risível. Há quem considere desperdício criminoso de tempo ler o que escrevem os blogueiros que advertem eleitores sobre o que poderão perder caso o PT seja derrotado. ”Não atentem aos ratos que infestam o paiol e eles desaparecerão”, parecem pensar muitos dos críticos da situação.

A insatisfação quanto aos serviços, cozinhada por greves e protestos de junho, pensam os analistas da situação, fará por si o trabalho que militantes petistas fazem há anos em redes sociais e caixas de comentários, ou em blogs fundados para replicar textos de blogs governistas. Nem todos mediante pagamento, como imaginam os simplistas que julgam tudo questão de dinheiro distribuído a todos os simpatizantes do petismo; ainda que haja blogs contemplados com anúncios de estatais, os blogs que os replicam não são todos beneficiados com anúncios de bancos e órgãos do governo. Há quem de fato acredite no que se publica nesta mídia que fornece o governismo para consumo de milhões que se acreditam vitoriosos por viver no Brasil deste momento. São competentes, ainda que seja nauseante admitir.

Como explicar as derrotas do PSDB em sítios tradicionalmente tucanos? Como um político como José Serra não consegue se eleger prefeito de cidade que o elegeu sucessivamente Prefeito, Governador e na qual teve votos para Presidência duas vezes? Na sua decantada falta de jeito, ainda que atribuir a este motivo seja insulto ao discernimento de eleitores quanto aos programas de governo apresentados? Ou é o trabalho de destruição deste político dando frutos, demonstrando a competência de seus algozes e o preço da opção de não tomar o caminho do ativismo judicial contra os ataques à reputação? Não percebem que não apenas Serra foi destruído junto aos eleitores influenciáveis, mas o partido ao qual faz parte.

Não se busca responder com seriedade a estas questões, e sim, investir em um “nome novo”, nome já alvo de ataques e destruição de imagem. Este nome novo, Aécio, ao menos reage com maior energia, e com cobertura maior da imprensa que Serra. Mas Serra não teve defensores enérgicos por parte da imprensa que denuncia, tardiamente, as redes de difamação que agem contra Aécio. Ao contrário, o anedotário sobre seu humor e horários foi a resposta, dada por simpatizantes do seu partido, aos ataques que sofria pelos adversários.

Não parece evidente a muitos o que significará a vitória do PT no Primeiro Turno. Significará o fortalecimento definitivo (o que se entende por definitivo em política, claro) de um partido que nunca venceu este tabu. E a prostração fatal do PSDB e de todo o restante do que atende por Oposição, que parece pouco inclinada ao exercício da autocrítica, tradicionalmente caro aos militantes de Esquerda. Talvez seja um fortificante eficaz, por amargo.

XXX

O programa especial do “Observatório da Imprensa” (na verdade, compacto de 52 minutos de horas de entrevista gravadas) sobre Helio Fernandes foi momento precioso do telejornalismo. Alberto Dines e Helio Fernandes deixaram de lado suas diferenças para uma conversa sobre décadas de história de política e jornalismo. Ancelmo Gois foi um companheiro entusiasmado da conversa (visivelmente emocionado por estar na sala que foi palco das primeiras reuniões da Frente Ampla, quando este evento foi mencionado por Helio Fernandes) entre os dois veteranos, duas instituições do jornalismo brasileiro, aparentemente distraído da própria importância e de sua posição entre os grandes de sua geração.

Que esta homenagem tenha sido prestada por Dines, que trocou, por diversas vezes, acusações e ofensas com Helio Fernandes, demonstra o quanto o respeito do Editor do “Observatório da Imprensa” ao Jornalismo – e à História- é genuíno, pois acima de questões pessoais. Muitos que nunca tiveram sequer uma discussão com Helio Fernandes ignoram o absurdo que configura o certamente jornalista mais antigo em atividade no mundo não ser alvo de documentário sem livro-depoimento. Assim é o Brasil.

Um encontro para, oh clichê, figurar na história das grandes reportagens. Um momento de grandeza que exemplifica o melhor que os brasileiros podem atingir. Que seja seguido pelo obrigatório livro de entrevistas, ao feitio do “Depoimento” de Carlos Lacerda.

Por que não realizado pelos dois entrevistadores? Afinal, além do conhecimento e competência, eles o merecem.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.