Épico sem cantores à altura e Como entrevistar sem ferir a correção política – Um Guia
As multidões sugerindo estuários humanos bradando contra governo que torra dinheiro com inutilidades, que não cumpre promessas enquanto demandas se acumulam é, não importa a eficácia e a manipulação evidente de setores, algo já histórico. O Brasil poderá mesmo piorar, mas permanecer ou retroceder à “placidez lacustre da mediocridade” (Carlos Lacerda) é improvável, pois a inércia política foi interrompida.
Mas não percebo nos cronistas das manifestações inventividade verbal, mesmo em grandes jornalistas, os quais apenas em fragmentos irradiam o calor apreendido do momento que lhes foi dado registrar. Não se procura no movimento do qual manifestações se abastecem- o fastio do petismo e seu governo de promessas – as chaves de leitura das explosões e assim os textos não se afastam do raso da ideia de combustões instantâneas contra “corrupção” e “impostos altos”, afastando para algum momento oportuno o exame sobre rejeições ao modelo que se impõe promovendo consumo à base de bolsas e inclusão por meio de cotas.
Não se estranha que mesmo jornalistas capazes se expressem com notável economia simbólica: “Voz rouca das ruas”, “O Brasil decente que sai às ruas”, “Petistas vaiados por brasileiros conscientes”, etc.
Quando se evita cavar corajosamente os tabus da Social Democracia à brasileira, inaugurada pelo PSDB, resta o foco retórico em episódios de corrupção que comovem somente a classe média indignada com o destino das contribuições compulsórias.
Imagino Nelson Rodrigues registrando nas “Confissões” sua maravilha e horror com manifestações carnavalescas com tintas violentas do Rio de Janeiro, o antigo Centro, sobretudo o Mangue, convertido em Bastilha.
Ou Franklin de Oliveira se cumprimentando pelas profecias anunciadas no Governo Sarney sobre a “Ira dos Mansos”, enquanto manifestantes avançam entre os Ministérios em Brasília.
Paulo Francis lamentando que o Congresso estivesse vazio quando a multidão disposta ao confronto avançou sobre a cobertura e admoestando colegas jornalistas que se referissem à tomada de edifícios públicos como ”Invasão”.
David Nasser e seus parágrafos caudalosos sobre o monstro da insatisfação, surdo às contemporizações oficiais, escritos num sopro de fúria.
Enfim, cantores dignos do épico que injustiça cósmica privou-lhes de assistir e imortalizar e a nós apreciadores, ler e guardar como itens de biblioteca.
Homeros adiantados ou épico atrasado?
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Outros tempos exigem outros paradigmas de entrevistas e muitos ainda desconhecem quais seriam as novas regras de conversação entre jornalistas e figuras notórias. Baseado no que tenho visto, contribuo aqui com algumas sugestões sumárias sobre cuidados a se observar:
Não indagar a militantes de “movimentos sociais” o que leem ou o que pensam, caso eles não estejam em assembleia ou emersos no “coletivo”.
Estas perguntas soam como insinuações sobre a “legitimidade” do alvo da pergunta, enquanto membros de “algo maior”, alusão insidiosa ao possível individualismo do alvo da pergunta.
Mesmo indagar o nome é desnecessário e insultuoso, pois não custa lembrar que Fulano fala em nome do “Coletivo”, insistências na pergunta denotam desrespeito, menosprezo.
Entrevistar jovens emepebistas é também exigente. Perguntas sobre turnês devem ser evitadas, pois o termo “turnê” não é adequado aos entrevistados, pois “passa a ideia de algo engessado”, muito menos sobre expectativas de sucesso, pois se apresentam para público que “busca fugir desta massificação”.
Se cantora, que se evite mencionar a beleza, pois esta é, sem qualquer dúvida, observação “sexista”, que ”desmerece a luta que todas nós, mulheres, enfrentamos para sermos respeitadas intelectualmente”.
Lançamentos de peças de teatro são ocasiões nas quais repórteres inexperientes também derrapam, pois insistem em perguntar sobre público, quando o “objetivo é informar”, ainda que os atores sejam contratados da Globo.
Muitas, enfim, e não exemplificarei todas, pois similares, as ocasiões onde a correção política é afrontada por inexperientes que acreditam ainda que basta perguntar o que imaginam seja do interesse dos leitores ao invés de ”estabelecer um diálogo consciente”.
Proponho o caminho mais rápido e eficaz para eliminar “equívocos”: substituição dos repórteres ultrapassados por “agentes sociais com sensibilidade para a questão das minorias e posicionamento político claro”. Ah, isto já existe: estudantes de comunicação.