Serra e O Medo de Bater
17 milhões de votos, ou duas cidades e meia de São Paulo a convencer e a campanha de Serra exibe atriz sugerindo uma dona de casa com consciência política associando Erenice Guerra e Zé Dirceu à candidatura oficial: “Essa Casa Civil é um caso sério”. A seguir, a propaganda do PT exibe o Universitário Conselheiro Político (o que aparecia no Primeiro Turno deplorando “as baixarias, o desespero” da dita Oposição) de barbinha e feitio de Agente Educacional exibindo duas prateleiras onde em uma depositava as agruras do brasileiro pré – Lula -“Coisa de pobre” – e em outra confortos da “Elite que não admite avanços” : “Coisa de rico”. Primário, simplista, mas EFICAZ, direto no imaginário dos eleitores e isto, somente isto, é medida de valor em dias de Segundo Turno. Dona de casa comentando escândalos da Casa Civil, ai ai.
Que o Serra apenas chegou ao Segundo Turno por conta de Marina do PV é fato, como também é fato que esta será derrota só comparável à segunda derrota do Brigadeiro Eduardo Gomes em 1950. Ali também era crônica da sova anunciada; todos, de Carlos Lacerda a Arthur Bernardes, viam no Brigadeiro virtude em excesso e fúria de menos contra o Getúlio Vargas já emoldurado pela mitologia de Pai dos Pobres. Nada animava o lendário herói dos 18 do Forte a atacar sem eufemismos e linguagem de escoteiro a máquina ditatorial montada em sindicatos pelegos e assistencialismo que embora contendo mais propaganda que substância, estigmatizava os críticos como “reacionários”, “carcomidos”. Como ele, Serra é patologicamente desprovido de ânimo e ninguém mudará o voto sem ter sua emotividade provocada e Serra, e seus marqueteiros não falam absolutamente ao coração do brasileiro comum, trabalhado pelos “educadores” e “agentes sociais”.
Mesmo os jornalistas favoráveis à candidatura do PSDB parecem desconhecer o campo de batalha nas mentes deseducadas para a política como algo além e acima das contendas meramente eleitorais. Reinaldo Azevedo escreve basicamente e assumidamente (e não digo que isto não seja legítimo e digno) para quem já concorda com ele sobre “Respeito às Leis”, ” civilização versus barbárie” em país onde a grande maioria acha tais escrúpulos tão urgentes como regras de etiqueta em encontros de enófilos. Augusto Nunes em textos sempre bem escritos e sarcásticos demonstra a subnutrição intelectual da candidata oficial em país onde quem lê é frequentemente tido por esquisito, nerd, babaca, elitista e portanto, imerecedor de atenção, que dirá de crédito em conversas sobre decisões eleitorais.
Ele também escreve para quem já concorda com ele e não encontro nenhum entre os partidários da candidatura tucana que pareça escrever para além do círculo de simpatizantes. O melhor de todos, pois não tucano, apenas um eleitor de Serra por contingência e portanto lúcido e preciso é, como sempre, Olavo de Carvalho. Mas até ele aposta que se a massa de eleitores tivesse sido advertida do Foro de São Paulo, Lula jamais teria sido eleito e isto não se escreve ou se diz ainda que sozinho, nem por brincadeira. Acreditar que seres reduzidos por falta de alimento intelectual mais básico à animalidade, embrutecidos por décadas de descaso oficial, se comovessem com avisos acerca de totalitarismos é ilusão que não deveria ocupar mente tão poderosa e cultivada. Experimente falar do Foro de São Paulo ao homem das ruas e verifique o quanto esgota discutir com quem julga preocupações com Liberdade frescuragens burguesas.
Venha a BH, o chão da fé petista.
O que Serra deveria fazer é demitir marqueteiros, e extrair de suas memórias de adolescente feirante a lógica e a linguagem das ruas e demonstrar o que tem de postiço nas “politicas populares” do PT e as brigas brabas que topou como Ministro da Saúde, mas sabemos todos que isto não irá ocorrer, marqueteiros escreverão reflexões da dona de casa sobre Erenice, Dirceu e grande elenco.