“Sobre Ozzy”
Poucos dias depois de ter sido reverenciado em um show onde apresentou-se ao lado de seus colegas do Black Sabbath e de outros astros, sentado em um trono, como o merecia, Ozzy Osbourne partiu para outros circuitos. O que vi do concerto-tributo impressiona: sabia-se de sua saúde comprometida (afinal, o show era sua despedida dos palcos) e no entanto, era a figura carismática e forte de sempre. E sua morte, ainda assim, surpreendeu.
Não o acompanhava como nos dias da década de ‘80, quando ouvi e reouvi os dois primeiros discos de sua carreira-solo e os álbuns com o Black Sabbath. Como estes discos me acostumaram mal, evitei me decepcionar com os álbuns seguintes, sem o guitarrista Randy Rhoads. Tampouco vi qualquer coisa de reality show que o tivesse como astro. Preferi cristalizá-lo no que dele me servi nos dias de minha adolescência, do começo da adolescência, para ser mais preciso.
Fui apresentado ao Black Sabbath por uma revista pôster publicada pela Ed. Três, que publicava materiais do tipo, que tiveram no início dos 1980 público ávido e, no meu círculo imediato de garotos debutantes na vida e no rock, corriam por empréstimos. O Plutarco de boa parte dessas publicações era o Paulo Ricardo Medeiros (o qual seria depois item de biografias, como artista). Minha memória sendo amiga, a do Black Sabbath também o tinha como autor. Perdi a conta de quantas vezes a reli, fascinado com os personagens e com a descrição de discos cujas capas, publicadas em cores, já me ganharam a imaginação. Em casa de um conhecido já entrado na casa dos vinte anos, dono de discoteca apreciável, conhecemos, os garotos de um conjunto habitacional de Uberaba, os discos do Black Sabbath e os dois primeiros solo de Ozzy, enfim. E, confirmando o clichê, foi aí o começo de uma grande aventura. Por ironia, os primeiros Black Sabbath que recordo ter ouvido na casa do tal jovem (Por onde andará, décadas depois? Terá mantido o gosto musical e a discoteca daqueles dias de 1984?) não tinham Ozzy como vocalista, e sim Ronnie James Dio no ao vivo “Live Evil”, e Ian Gillan no “Born Again”. Depois, conheci a fase do Sabbath com ele, e tantos outros nomes que tiveram no vocalista e sua antiga banda, os guias deste universo cultural. O Heavy Metal foi, naquele início de adolescência, minha trilha sonora, e a de tantos meus contemporâneos. O Rock in Rio, poucos meses depois, confirmou este domínio no nosso gosto (já em Belo Horizonte, o círculo de garotos era outro, mas com o mesmo apreço por revistas e trocas de informações).
Gosto que em mim recebeu outros elementos, mas que não negou o garoto que aprendeu, nos dias de adolescente, a acompanhar discografias com atenção. Atenção que empregaria depois em filmografias e bibliografias; listas de cineastas e escritores (ficção e não ficção) formavam-se na minha mente com suas fases e itens a descobrir, a nunca deixar pela metade, a nunca me considerar conhecedor sem conhecer parte considerável da obra. Portanto, este universo de bandas e discos de heavy metal me formou também como pessoa, e Ozzy foi a estrela maior neste cosmos. Repito: dele conheço apenas os discos com o Sabbath e os dois primeiros solos (e o ao vivo com Randy Rhoads, “Tribute”, lançado já na segunda metade da década de ‘80, com material de seu arquivo), mas ouvi-os muito, transferindo-os para o arquivo da memória. Desta admiração vieram outras, afiliadas à original (os diversos segmentos dentro do segmento), com o espírito que expliquei acima: se não conhecesse todos os discos, ao menos os mais relevantes, e de forma reiterada… Assim, forma-se um sistema de preferências e a noção de ramos afins, aparentados. Na música brasileira, no jazz, etc, e, também repetindo, nas minhas fixações em Literatura (ficção e não ficção) e Cinema.
Logo, foi mais que um cantor de timbre inconfundível e de carisma inquestionável – não enfraquecido nem mesmo quando a pessoa que o possuía era vencida pela doença, pela prostração – que partiu. Foi, para muitos como eu, um elemento de minha construção.
Pelo que li em diversas homenagens de perfis (artistas não apenas de Heavy Metal) de Instagram, muitos tiveram com sua figura e sua obra relação análoga à que tenho: os discos de Ozzy eram integrantes ativos de suas trajetórias como pessoas e criadores; apresentados por parentes ou amigos mais velhos, alguns. Outros, contemporâneos que confessaram gratidão pelo que tiveram em prazer e diversão. Repito: nem todos metaleiros.
Ozzy Osbourne não falava apenas ao Metal, mas a todos que percebiam nele coerência e personalidade genuína, não posada ou temerosa de reprovações baseadas em esnobismo (e, por que não dizer? em classismo: quantos não consideram heavy metal gênero menor, para consumo de adolescentes sem acesso à alta cultura?). Os grandes, os que de fato têm importância no reino da Cultura não possuem estes sentimentos de casta acadêmica, e demonstraram pesar e respeito pelo artista. Gente como Patti Smith, por exemplo. E mesmo não músicos, artigos em publicações como New Yorker dedicaram-lhe apreciações justas.
Pois não se tem Ozzys Osbournes dando sopa, eis a Verdade. Difícil não ser um saudosista ou pessimista quando se observa a safra atual de aspirantes a itens culturais. Discos que não consigo imaginar atravessando épocas, timbres quase uniformes, canções que não têm poder de fixação. Tudo, ou muito do que consegue triunfar, confirmando o juízo segundo o qual o Mundo é o reino dos medíocres, dos que sabem lucrar com a ausência de características marcantes. E tal assusta, pois estes gigantes (como Ozzy) não terão substitutos. E a geração que adolesceu nos 1980 assistirá no médio prazo à partida do que resta. Como escrevi aqui no 12/01/2022:
Quem acompanha desde adolescente e jovem dos anos 70 até aqui estas figuras ilustres, acostumou-se à velhice de muitos, fomos (falo de minha geração, a pouco anterior à minha também e a de agora) um tanto mal acostumados. Nossa visão de plateia foi muito privilegiada, contemporâneos de gente que não me parece de fácil substituição (…)
É duro pensar que tenhamos de ir compondo o obituário de muitos que, não nos enganemos, não demorarão a enriquecer o elenco celeste. Ouvi-los, vê-los, lê-los o mais que pudermos, pois.
O show de despedida de Ozzy Osbourne e sua morte me foram lembretes ásperos de que o preço de nosso privilégio geracional é assistir à partida destes grandes.