Sobre “O Rato Fiuza” de Carlos Lacerda
“O Rato Fiuza” de Carlos Lacerda é obra-prima de panfletarismo; embrião e menino do Carlos Lacerda das décadas seguintes, mereceu capítulo na biografia de Lacerda escrita por John W. Foster Dulles. Escrito de transição entre o Carlos Lacerda próximo do Partido Comunista e o tribuno direitista. A verve que desestabilizou os governos de Getúlio Vargas, Jânio Quadros e João Goulart (Juscelino Kubitschek salvou-se negando-lhe acesso à televisão) está lá, compactada e ainda mais inflamável. O livro (Primeira Edição, 1946) é o apanhado das crônicas que Carlos Lacerda publicou no “Diário Carioca” entre novembro e dezembro de 1945 sobre Yeddo Fiuza, o candidato não comunista lançado por Luís Carlos Prestes para disputar a Presidência da República nas eleições pós-Estado Novo, contra Eurico Gaspar Dutra (candidato do governo deposto) e Eduardo Gomes, pela UDN.
Carlos Lacerda privava ainda (como explica no Prefácio) do convívio com esquerdistas cultos, que gravitavam em torno do jornal “O Estado de S.Paulo”, da família Mesquita, e estes informaram-lhe da candidatura própria do PCB, mas ainda sem saber ao certo qual seria o nome. E pouco depois, Prestes anunciaria o nome do ex-Diretor-Geral do Departamento Nacional de Estradas e Rodagens (DNER) e ex-prefeito de Petrópolis. Era a ordem de “Prestes, o guia genial, inspetor de quarteirão e padroeiro do Partido Comunista”; a candidatura de um não comunista, “um civil, um engenheiro” era o que se devia oferecer pelos comunistas naquele momento. As Esquerdas aceitaram a diretiva do “czar indiscutível de seu Partido”, e trataram de berrar o nome de Fiuza nos muros e panfletos.
Carlos Lacerda, como apontam os exemplos entre aspas do parágrafo acima, sabia como adjetivar personagens e o livro é pródigo em frases perfurantes, mas Lacerda não se fiou apenas neste talento de polemista; investigou escrituras de imóveis, conversou com engenheiros do DNER, tratou com pessoas bem informadas do município onde seu alvo fora prefeito e, sobretudo, soube estabelecer ligações entre personagens satélites e o astro sobre o qual denunciava dia depois de dia. Era, aos leitores, quase impossível (ou impossível mesmo) não concluir que Prestes estava embarcando em uma aventura da qual sairia desmoralizado (embora Lacerda, no seu “Depoimento”, assegurasse – e falava mesmo de Fiuza – que “no Brasil ninguém se desmoraliza”). Combatesse hoje contra os poderosos de hoje, não se fiaria na eficácia (preciso escrever que discutível?) de memes e vídeos de reacts como os ditos inimigos do sistema dominante o fazem. Carlos Lacerda era homem que acreditava em campanhas persistentes, em esforços do dia depois do dia.
O que não envelheceu no episódio (e nos artigos que compõem o livro) é o espetáculo das difamações como resposta preferencial às denúncias; não podendo apontar as denúncias (sobretudo escrituras de apartamentos e vínculos entre fornecedores de material para o DNER e o seu então Diretor Geral) como infundadas, buscava-se demonstrar o autor como “agente de interesses ocultos”. O rótulo de “reacionário” ainda não tendo sido fixado às costas de Lacerda, acusavam-no então de carreirista, como político individualista, desgarrado das Esquerdas por interesses pessoais. Nunca se denuncia alguém vendido pelas Esquerdas como solução mágica por interesse coletivo; o linchamento dos dissidentes teve, neste episódio imortalizado pelo livro (que deveria ser reeditado), talvez sua estreia em território nacional (como não o ler e não lembrar, no ato, de “Os Processos de Moscou” do Leon Trotsky?). O que Lacerda diz sobre os críticos do culto à personalidade de líderes totalitários (no caso, comunistas brasileiros tratando dos cultuadores de Adolf Hitler) praticando…culto à personalidade (no caso imediato, de Prestes; em plano maior, de Josef Stálin) não envelheceu um segundo. Hordas sempre agiram, agem e agirão como hordas, e cabe ao intelectual verdadeiro apontá-las como o que são.
Prestes e seus líderes soviéticos pareciam conhecer o caráter brasileiro, a tendência nacional à adesão ao que pareça forte, indestrutível no prazo de uma vida e agiram com resolução que (ao que parece, mais do que suas investigações sobre o personagem lhe trariam) impressionou Lacerda: sem investigar o perfil profissional e político do candidato, e mesmo sem consultas às bases, tratou-se de vender a candidatura “como quem lança um inseticida”, agindo com estardalhaço, atacando quem ousasse reagir (como ele próprio, Lacerda) e obtendo terceiro lugar com centenas de milhares de votos. Pois recuar seria passar atestado de derrota e confissão de incompetência e gestão temerária do capital político (Prestes admitiria que não tinha como provar que os ataques de Lacerda não tinham fundamento).
Outro ponto que me tocou foi o senso estético, literário e de jornalismo de alto nível de Lacerda. Encaixou, já na introdução, o parágrafo seguinte entre sua conversa em São Paulo com os intelectuais esquerdistas d’ “O Estadão” na qual fora informado da candidatura própria do PCB (que não era, ainda, a de Fiuza, pelo que eles sabiam) e o clima que encontraria no Rio de Janeiro com as candidaturas Fiuza, Dutra e Eduardo Gomes já lançadas e os ânimos das facções respectivas inflamando as ruas:
“Eu voltava de uma fazenda onde os meninos costumavam, à noite, caçar na velha tulha de café abandonada os ratos escuros, enormes (…) o rato é um animal tão temível, pela repugnância que inspira, quanto o jaguar, nos relatos clássicos dos grandes caçadores, pelo temor que infunde. A visão dos ratos a correrem pelas grandes traves e, sobretudo, na última noite em que visitávamos a tulha, aquele ratão covarde e gordo, escondido sob a galinha que dignamente chocava os seus ovos pela noite afora, estava ainda recente.”
A fazenda era dos Mesquita, família proprietária d’O Estado de S.Paulo” e grande amiga de Lacerda. Foster Dulles, o biógrafo, diz que o livro trata da fazenda dos Mesquita, o que o livro não diz. Talvez tenha chegado a esta conclusão pelo prefácio do “Depoimento”, escrito por Ruy Mesquita, um dos meninos caçadores de ratos, que menciona estas jornadas de caça noturna aos ratos na fazenda. Ou do próprio biografado, que o escolhera para a missão de contar sua vida (Lacerda o elogia no “Depoimento”, sobretudo seu livro sobre comunistas no Brasil, lançado pela sua editora a Nova Fronteira).
Quantos hoje encaixariam um parágrafo, tão sintético e tão simbólico, numa introdução a um livro contra o sistema dominante, ou mesmo num artigo?
As campanhas contra inimigos poderosos precisam ser também poderosas, não?
“O Rato Fiuza” é curso avançado para aspirantes a contendores. Se merecermos este tipo de guerra, se não formos mesmo destinados à rendição.