Sobre Eduardo Almeida Reis, Urbano e Rural

No texto que escrevi sobre o livro “Seis Alqueires E Uma Vaca” de Eduardo Almeida Reis https://fernandopawwlow.wordpress.com/2018/08/19/notas-19-08-2018/ observei que ele funcionava como espécie de making of dos livros que escreveu sobre temas rurais (“A Arte de Amolar o Boi” e outros das décadas de 1970 e 1980); sabia-se por ele como era o cotidiano do autor de textos instrutivos (para aspirantes a fazendeiros) e divertidos. No mesmo texto sonhei com algum ciclo memorialístico no qual o volume em questão faria parte: o Eduardo Almeida Reis da juventude morando no Rio de Janeiro e o da maturidade, morador de Belo Horizonte, teriam seus punhados de histórias sobre os textos de uma fase e outra. Notava que eu o conhecera nas crônicas urbanas.

Há diferença substancial entre seus escritos da fase serrana do Rio de Janeiro e os de Belo Horizonte? Dois volumes recém-relidos me inspiraram algumas anotações que, se não me deram resposta definitiva a esta questão, me fizeram pensar neste autor, neste personagem: “O Aprendiz de Fazendeiro” (Francisco Alves, Segunda Edição de 1984), crônicas sobre temas rurais, como o título permite supor, e “Amor Sincero Custa Caro” (Ed. Garamond, 2002), suas crônicas urbanas.

(No texto de 2018 menciono o volume de crônicas urbanas, “Burrice Emocional”, também merecedor de leituras e anotações)

Em comum a ambos a erudição apresentada com sarcasmo, a indignação com pedantes incapazes de compreender o óbvio e transmitir conhecimentos, a fúria contra autoridades ditas competentes e certa exasperação quanto às barreiras de comunicação, sobretudo entre as classes sociais. Há que dizer tudo diversas vezes, de formas diversas, até que o interlocutor entenda, talvez compreenda e com muita sorte estabeleça diálogo produtivo.

Quando a dificuldade em se fazer entender se dá com pessoas de classe social inferior na escala brasileira, Almeida Reis parece resignado, bem-humorado até. Compreende o atraso que as referidas autoridades ditas competentes fornecem às massas, sobretudo rurais, e faz ele, em diversas passagens de alguma graça, o esforço de comunicação. O que parece enfurecê-lo em alguns momentos e desanimar de soluções para problemas graves que envolvem assuntos vitais em outros tantos é quando esta dificuldade em se fazer entender, compreender e desenvolver diálogo produtivo dá-se com gente que veste terno e gravata e não raro responde pelo título de “Doutor”. Este último é o Almeida Reis urbano, embora o rural também se queixe de medidas governamentais ininteligíveis e manuais técnicos idem.

Os dissabores de uma vaca e suas complicações de parto ou algum gado com problemas de defecação parecem mais suportáveis que a estupidez dos frequentadores de shoppings e vizinhos ruidosos. Uma vaca atolada no brejo ou algum utensílio defeituoso na fazenda pesam menos que o convívio com a gente rude, imediatista, ignorante e presunçosa que superlota as concentrações urbanas (Belo Horizonte, no caso).   Os problemas com gado, com o trato com funcionários, são contornáveis, solucionam-se com trabalho e persistência, e ao final de cada dia no trabalho rural, parecia cansado e feliz com a escolha pelo campo. Já as pragas urbanas…como o escritor conseguiu a proeza da adaptação me escapa, e me inquieta a cada releitura das suas obras urbanas e rurais.

Um túnel do tempo caótico, exaustivo; a tecnologia não removeu o atraso nas relações humanas e o desleixo com o espaço comum. A “estrada infame” e as dificuldades de interação entre patrão e funcionários não pareciam deixá-lo desanimado, enquanto o pesadelo das cidades superlotadas, sim. A política inspira, na fase urbana, o juízo reiterado: “As moscas mudaram. Para pior”. “Este país grande e bobo”, um de seus refrãos, amava copiar soluções que, sem processo lógico de adaptação, tornavam-se problemas, alguns ainda insolúveis. Relendo, confirmo-o como escritor corajoso, combativo.

Uma passagem sobre políticos (categoria e/ou estamento de sua preferência para ataques), por exemplo: “Sempre desconfiei dos sujeitos que fazem o marketing da honestidade. Se o político não pensa que ser honesto é obrigação(…) é candidato perigosíssimo”. Que diria do que a categoria apresenta em 2025 como hipóteses de prazo eleitoral imediato?

O Brasil de 2025 talvez não o aceitasse, seria vítima de “cancelamentos” e pressões (não que não fosse tão criticado quanto louvado em vida, mas hoje ofendidos podem mais que nos dias já distantes do começo do século XXI) que talvez o fizessem desistir de suas campanhas de esclarecimento; esclarecimento bem-humorado, ainda que com ranzinzice cômica, com o corte de leitor de Eça de Queirós e Abgar Renault (duas citações frequentes, reiteradas, nos seus escritos) e a ênfase na etimologia, ênfase exagerada quando examinada na superfície e necessária quando se enfrenta distorções de raciocínio principiadas na distorção linguística exercitada por criadores de “discursos” e “narrativas”.

(A cidade parece ter aumentado sua fixação no noticiário científico e o recurso aos manuais técnicos. O campo parecia fornecer-lhe parábolas e analogias suficientes, pois a realidade do trabalho duro dissuade discussões artificiais, com argumentos de plástico)

Em certa altura das crônicas divide com os leitores suas leituras de Eduardo Frieiro, sobretudo “O Diabo Na Livraria do Cônego”. Sinto falta de seus juízos sobre este autor, que me parece tão próximo dele na procura do conhecimento e no gosto de partilhá-lo.

Eduardo Frieiro merece ser sempre lido e relido. Como Eduardo Almeida Reis. Escrever sobre os dois, um dos meus alívios. Escrever notas sem pretensões de teses, desconfiado de teses que nada provam e confiando em textos e nada mais.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.