Os manuais de Leslie Lipson e Roger Gérard Schwartzenberg

“Os Grandes Problemas da Ciência Política” de Leslie Lipson (Ed. Zahar) deveria ser passagem obrigatória a leituras mais exigentes, sobretudo as obras constantes na “Coleção Pensamento Político” da UnB (Universidade de Brasília). Lipson não se vexa de explicar o básico em linguagem que o leitor não iniciado consegue compreender e formar grupos de discussão; livros assim são necessários onde não falta pedante citando autores que é possível a uma criança perceber que não se leu o suficiente (quando não se trata de citação de quarta capa). O estudioso avança aos poucos, começando pelo começo, como eu próprio expus aqui no blog minha convivência com livros https://fernandopawwlow.wordpress.com/2017/03/09/notas-09032017/

Não se precisa comprar o Liberalismo do Autor, que considero quase infantil na ingenuidade em diversos pontos para se ter proveito de seu livro, uma espécie de Manual Introdutório (não sei a qual público se dirigia quando da primeira edição em 1965). Leslie Lipson assegura que “a Política é a grande aventura da Civilização”, a Política tratando o Universo de homens em sociedade, como casos concretos e não abstrações fabricadas nos campi por leitores apressados de teorias complexas e que exigem exame responsável e criterioso.

Há muito Liberalismo padrão, mas observações que, aos iniciandos são material de reflexões e extrapolações, como, por exemplo: Lipson observa que a vida em grupos ou galáxias de grupos, A Sociedade, cresce na gradação do domínio da Natureza e sofisticação da Vida. Em uma guerra, as sofisticações cedem lugar às preocupações mais elementares de sobrevivência. Enumera então episódios que registram este avanço e recuo da ideia do Progresso e do recuo à luta pela solução de carências imediatas. Uma coletânea de obviedades? Talvez, mas obviedades que levam às reflexões sobre estes espasmos da Sociedade que encontram sua síntese na luta política. Política entendida como esforço na trajetória do Homem ao ser social, não um ramo do reino animal vindo ao centro do palco por engano. Há a crença nas palavras mágicas como “Igualdade” e “Democracia”, e exemplos que na verdade as negam, mas Lipson sabe temperar estes conceitos com episódios menos manjados, ao menos. As boas intenções dos professores liberais são sempre negadas pela Realidade, que exibe a caçada dos fracos pelos fortes (mencionada sempre de passagem nos compêndios liberais), mas não se lê livros para concordar sempre com o autor. Que no caso faz bem seu papel de enfeixar eventos históricos e as questões recorrentes no estudo do Poder.

Trata-se, repito, de um livro didático, ou quase. Não considero inteligente saltá-lo com desprezo e pedantismo. Muita nota consegui extrair deste estudo.

O livro de Roger Gérard Schwartzenberg, “Sociologia Política” (Ed. Difel) é, embora também um manual expositivo das ideias políticas, mais complexo. Embora declare, na apresentação, escrever para qualquer grau de estudante, de qualquer ramo de “Humanas”, o autor não exibe didatismo fácil e sempre procura interpretar cada autor ou evento que cita com profundidade. Ao introduzir autores como Aristóteles e Maquiavel, por exemplo, situa-os entre os precursores da Sociologia Política, a qual, segundo Schwartzenberg, precede há séculos a Sociologia como disciplina independente, de Comte e Durkheim. Pode haver quem conteste esta afirmação, mas é algo mais que encadear nomes e datas como num catálogo telefônico enfeitado com citações de duas linhas de cada autor.

As bibliografias são espantosas. Encontram-se no encerramento de cada seção do livro, ocupam várias páginas, e são comentadas. De livros tidos por ele como “clássicos” e “obrigatórios” a panfletos de ocasião, ou registros de Congresso sobre determinado tema a números especiais de revistas de Ciências Sociais. Os scholars franceses do tempo do livro (segunda metade da década de 1970, as primeiras edições) ao que parece não deixavam provocação de polemistas sem respostas, no caso artigos caudalosos e o autor não parece disposto a negligenciá-los.

Como marxista e homem de partido (Partido Radical de Esquerda), passa pelos autores e correntes de ideias com entusiasmo de crítico de rock sobre bandas e cantores ou redatores de revistas de moda sobre estilistas e masons. O que torna seu livro necessário (pois hoje, mais que em outros tempos, a confusão de conceitos impera), e é necessário se ter noção mínima da genealogia das ideias, saber de onde surge tanto candidato a Ditador com modelos de sociedade perfeita na mente. Os inimigos deste sonho de sociedade depurada de defeitos (mais até que os aficionados por esta fantasia) precisam conhecer os fundamentos do que se discute nas Universidades, na Imprensa e que se torna realidade por ação de ativistas organizados e bem municiados por dinheiro e apoio jurídico. O fato é que estes cruzados da Sociedade Perfeita são liderados por gente que lê, ativistas que têm por adversários gente que considera suficiente ver alguns vídeos e que julga bobagem ler um livro de um comunista, volumoso ainda por cima. “Quantas páginas tem isso? Acho que ganho mais vendo o vídeo do Secretário do Curso ‘Seja Um Intelectual Conservador Você Também’ ” Pois o livro de Roger Gérard deveria ser aproveitado por admiradores e/ou não admiradores do marxismo, não é primário como cartilhas para militantes nem impenetrável como certos materiais lançados pela casta acadêmica; o sujeito só sai sem conhecer as principais vertentes do Marxismo, por exemplo, desta leitura, se for muito preguiçoso e desatento, pois o livro examina com a profundidade que um manual introdutório permite o “Marxismo Fundamental” (Marx e Engels), o “Marxismo Soviético”(Lênin e Trotsky) e o “Marxismo Crítico”(Escola de Frankfurt e epígonos). O mesmo se dá com os Partidos, os Grupos de Pressão, os Movimentos Sociais, etc. Sempre apoiado, reitero, por bibliografia exaustiva e talvez completa sobre os temas e autores.

Dois livros que inspiraram notas que irei publicando aqui, entre outras tantas notas de leitura. Dois argumentos poderosos contra a ideia de que certos temas e autores são inacessíveis a quem conta apenas com curiosidade faminta.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.