Sobre Olavo de Carvalho
“Vai escrever texto sobre o Olavo, Pawwlow? Fui no teu blog logo a morte foi anunciada, você escreveu vários textos sobre ele…”
Recebi algumas mensagens do tipo de ontem para cá, alguns releram textos nos quais mencionei o escritor falecido no último 24, outros me pediram links dos quais eu julgasse meus melhores textos sobre ele. Procurando no meu blog, encontrei vários.
Acredito que a morte de Olavo de Carvalho era já esperada por quem estivesse acompanhando o silêncio das suas redes sociais desde o anúncio de adiamento de uma aula de seu curso, até porque saíra do Brasil ainda muito debilitado. Ainda assim, quem não esperava que ele se recuperasse a tempo de ser uma influência nas eleições de 2022 e ser, depois destas, o crítico implacável tanto de um possível governo do PT quanto de um hipotético segundo Governo de Jair Bolsonaro (embora Olavo até suas últimas declarações demonstrasse não acreditar em vitória de Lula)?
Não era seu aluno ou seu devoto (no caso dele as duas condições tendem a ser indissociáveis), mas um leitor atento ao que ele escrevia desde 1997, 1998. Os textos da “Bravo!” e da “Primeira Leitura”, alguns textos publicados na “Folha de S. Paulo”, uma entrevista ao Boris Casoy….logo depois a leitura d’ “O Imbecil Coletivo”, logo depois “O Jardim das Aflições”…penso que com muitos o trajeto foi mais ou menos este também.
Há, penso, diferença entre estes que o conheceram no final da década de ‘90 (eu o conhecia sem saber, tinha em casa uma revista “Planeta” dos anos ‘80 com um – excelente – artigo sobre René Guenón escrito por…Olavo de Carvalho) e o público que o conheceu do seu programa através do “YouTube”; os primeiros são admiradores críticos de Olavo de Carvalho e o examinam à luz do conjunto de suas qualidades e defeitos, os segundos em sua maioria semivirgens ou virgens mesmo de leituras e tiveram nele talvez sua única janela para o universo dos livros e das ideias e portanto, tomavam-no como guia indiscutível; um guru, um semideus, um deus.
Com o avanço de sua celebridade, a distância entre os dois grupos de admiradores de Olavo só aumentou. Não era possível o convívio harmonioso entre quem chegou ao Olavo atraído por sua cultura e habilidade expositiva, vindo de outras leituras e que reconheceu no autor mais um nome digno de ser acompanhado e quem dele conheceu apenas os vídeos e mensagens de redes sociais. Os tais olavettes de YouTube, o fã-clube das camisetas “Olavo Tem Razão”, os que adquirem seus livros mais como amuleto que como leitura.
(Não que olavettes mais antigos também não pudessem ser caricaturais. Alunos de seu curso que nada leem que não seja indicação do Olavo não diferem muito do público dos vídeos e das máximas de suas redes sociais que reproduzem ao infinito na internet)
“Você conhece o ‘Decálogo de Lênin’? “
“Não, o que tenho em casa de Lênin, e sobre Lênin, não traz este texto, engraçado…”
“Você precisa conhecer o Professor Olavo…Olavo de Carvalho …você não conhece? Ah …conhece…e acha que sabe mais de Lênin que ele…”
O diálogo acima me teve como vítima ou testemunha tantas vezes…tantas vezes vi nele a demonstração acabada da razão pela qual a luta contra a casta acadêmica (que Olavo tanto combateu) estaria, para sempre, perdida. Todo o esforço admirável exibido n’ “O Imbecil Coletivo” de demonstrar a presunção e a cultura de decoreba (quando muito) dos professores universitários foi demolido pelo próprio Olavo e seus adoradores.
Textos que escrevi lamentando o auxílio que Olavo e esta gente deram à casta acadêmica estão no blog. Às vezes citei seu nome, outras vezes só descrevi a ajuda involuntária dada de presente aos ditos professores universitários, sem nomear; precisava? Acho que não. E tive uma razão pessoal: nunca desejei fazer nome nem no olavismo nem no antiolavismo, duas correntes que são, para muitos, meio de vida. Meios de vida que se sucedem, como num plano de carreira: o sujeito demonstrava ser um devoto feroz (atacando e perseguindo os que ousavam questionar o mestre), e depois com a promoção dada pelo referido mestre, alcançava a notoriedade (medida por números de seguidores no YouTube e nas redes sociais) e se promovia a anti-Olavo. Nunca quis isso, não precisava disso.
Tive um texto publicado no “Mídia Sem Máscara” (o que trata sobre o debate de Olavo com Alexandr Dugin, “Fim de Debate Que Não Houve”) após este ter sido elogiado por Olavo no seu programa (no qual várias perguntas minhas foram lidas) e desentendimento pouco tempo depois. Ao questionar uma afirmação de Olavo (que garantia não ter havido censura a livros durante a Ditadura), disse admirá-lo mas não ser seu devoto. Olavo leu a mensagem e acusou-me de não querer ser rotulado como olavette por temor do julgamento alheio e me atribuiu horror à sua linguagem, sem que minha mensagem tratasse disso. A coisa foi replicada por olavettes, e daí em diante evitei citá-lo, só o fazendo em casos em que não o citar seria, ou plágio, ou crítica covarde. Quando era comportamento comum a ele e aos alunos e divulgadores-diluidores, aludia ao comportamento, à colaboração inestimável aos que asseguram não ser possível cultura adquirida senão por meio de professores universitários. O autodidatismo se desmoralizando, esta a minha preocupação.
O legado de Olavo… ainda é cedo demais. O que vejo não me parece animador; nulidades que gravam vídeos com suas estantes de livros estalando de novos (preciso escrever que parecem virgens de manuseio?) ao fundo citarão por muito tempo ainda “Decálogo de Lênin” e pensadores medievais e citações latinas de decoreba. Será para muitos, repito, carreira, meio de vida. Suspirarão pelo “Professor Olavo”, garantindo que se não fosse ele, ninguém no Brasil conheceria Escola de Frankfurt (textos de Paulo Francis sobre a dita Escola publicados desde a década de ‘60) e Antonio Gramsci (textos de Mino Carta citando-o, incontáveis), para dar dois exemplos. Poderia acrescentar Raymond Aron e Ortega y Gasset. Também Mircea Eliade. Olavettes medem todo o conjunto de intelectuais ou aspirantes a, partindo de suas ignorâncias; “se eu não conhecia estes nomes, ninguém….” (eu, por exemplo, conheci René Guenón via Olavo- o que escrevi no início deste texto- mas não posso assegurar que outros não o conheciam, que foi Olavo o primeiro…) e não acredito que mudarão o comportamento com a morte do escritor, ao contrário. Professores universitários poderão contar com ajuda involuntária por anos ainda.
Como escrevi sobre outras mortes de pessoas talentosas e que ocupavam espaço considerável, há avanço do deserto no Brasil. Não imagino substitutos para Helio Fernandes, Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Luiz Melodia, Chico Anysio, Paulo Francis (citando os que escrevi sobre) . Olavo de Carvalho sendo mais uma perda deste porte.
Deixo o julgamento do que é absurdo ou não (e quase sempre é o juízo da casta acadêmica quem o decide) no que ele falou ou escreveu aos articulistas que se apresentam como juízes de ideias, árbitros do que é pensável ou não. Prefiro rever alguns de seus bons vídeos (assistia a um no exato instante em que a morte foi anunciada nas redes) e reler seus bons textos (material da década de ‘90; o material anterior também admirável, sobretudo os textos para a “Planeta”), reler “O Jardim das Aflições” (na minha opinião, o seu trabalho mais substancioso). Ler sem me ocupar em formular juízo que não o técnico.
É o que aconselho aos meus leitores. Olavo de Carvalho aconselharia o mesmo, acredito.