Sobre a volta de Lula ao palco
Leitores deste blog sabem o que sempre pensei e penso da opção de combater o sistema de Poder do PT e associados (Poder da casta acadêmica) pela via judicial. O que sempre escrevi das capas “bombásticas” da “Veja” no período petista, por exemplo. O meu juízo sobre articulistas deste meio que anunciavam o fim da facção política inimiga por obra de “denúncias que farão com que petistas saibam que sábado é o mais sombrio dos dias” (lembram?). Os títulos pomposos, os textos simplistas e entupidos de adjetivos…
“O presidiário Lula”, “o ex-presidiário Lula”; expressões que bastavam a muitos como talismãs políticos. Os memes, as gargalhadas, a valentia fácil nas caixas de comentários…
Tratei disto tudo em meu blog, fui mesmo repetitivo.
A verdade é que colocá-lo na cadeia pareceu a muitos mais fácil que tentar o trabalho de desmontar seu governo diante da população; o trabalho de formiga que economistas da Oposição fizeram durante o Regime Militar parece (não, não apenas pareceu, muitos não se convenceram, mesmo agora) a estes anunciadores do Fim instantâneo do Petismo uma perda de tempo, um desperdício de energia.
E o resultado está aí: Lula de volta ao campo das hipóteses, ao palco de onde não saiu nem mesmo preso. Sim, a volta do que não partiu, a realidade confirmando a piada. Contando com a plateia dos populares que acreditam (e por que não acreditariam, se não se empreendeu o esforço de esclarecimento?) que seu governo foi o melhor desde a Primeira Missa. Em grande estilo, conclamando populares a desafiar o Governo atual e reafirmando sua condição de vítima de erro judiciário.
Ataca-se, nas discussões de internet, Edson Fachin por este ter se utilizado de uma questão técnica (a competência da Vara de Curitiba) para decidir pela anulação. Que se pensasse na possibilidade de pormenores técnicos colocarem tudo a perder. Confiou-se na popularidade, na “Onda Conservadora”, nas figuras mais gastas da retórica de orador de diretório de agremiação direitista. Nem as acusações de parcialidade mais bem formuladas por observadores tanto do PT como independentes fizeram estes ditos coveiros do petismo se perguntar se tudo isto não teria algum preço. E este veio, e salgado, nos dias de declínio de popularidade do governo de Jair Bolsonaro.
O voto de Fachin veio poucos (um? dois?) dias depois de Lula ter se mostrado disposto a ser o candidato do PT, removendo a candidatura certa (estimulada pelo próprio Lula) de Fernando Haddad. Há quem veja nesta coincidência algo mais que coincidência. Eu vejo sincronicidade; Lula não abriria mão da pré-candidatura até que esta se mostrasse inviável; por que se acomodaria como uma relíquia do PT quando a possibilidade de reeleição de Bolsonaro não é desprezível? Relíquia das Esquerdas, melhor dizendo; Lula não parece desejoso de inaugurar o Pós PT com sua aposentadoria – não será o Miguel Arraes e Leonel Brizola de si mesmo. Como disse Fidel Castro sobre Fidel Castro: “Este morto pode ainda fazer planos … este morto não morreu.”
Os amigos leitores acreditam mesmo que este retorno do Lula sob holofotes, com orquestra e coral, ensinou algo aos cientistas políticos improvisados, aos vlogueiros, aos astros de internet e aos jornalistas-torcedores? Eu não acredito que estes sujeitos consigam assimilar lições; o público para o qual trabalham os deformou; tornaram-se (os que algum dia tiveram alguma capacidade de análise) seguros de sua infalibilidade, ainda que aumentem a coleção de previsões negadas, eleição depois de eleição.
Lula, se não estou errado, conta com a possibilidade da derrota e já tem, dobrado no bolso do colete, o discurso pronto: responsabilizará a Imprensa e a infiltração das “ideias reacionárias” na população que ele parece acreditar sua devedora. Como foi Presidente eleito e reeleito e que fez a sucessora estará longe de ficar estigmatizado como um fracassado, ainda que sofra esta derrota. Se perder, perderá, acredita, para um político carismático e que conta com eleitorado considerável. Erra, penso, quem o considera temeroso deste confronto. Teme mais, repito, a morte em vida, a acomodação à condição de retrato na parede das Esquerdas. Não se considera, com razão, um velho.
Vitorioso, apresentará suas contas aos vencidos.
Não me junto aos que o consideram despreparado para qualquer das duas hipóteses. Não vejo sabedoria nos que subestimam adversários, sobretudo adversários astutos e experimentados, como Lula.
O que não parece estar claro a muitos é que desde a primeira vitória do Lula, o problema não estava nele e no seu partido e sim nas razões que tornaram esta vitória (e, claro, as seguintes) possível. Mais que possível; inevitável, fatal.
“E Bolsonaro, se perder?”
Não acredito que se refaça do golpe, do baque. Bolsonaro e todos que se mostraram dispostos a negar o sistema de Poder do PT e associados terão dificuldade em conseguir outra chance.
O Poder tolera ainda menos desaforo que o dinheiro.
Sobre Helio Fernandes, morto aos cem anos
“Helio Fernandes morreu”, o aviso seco me colocou ciente da morte do jornalista mais antigo em atividade no Brasil (quase certo que no Mundo). Lia-o desde minha adolescência, uma admiração que transcende questões de afinidade de ponto de vista.
Escrevi alguns textos sobre ele no blog. Texto sobre sua luta pela indenização pelas perdas que seu jornal sofrera durante a Ditadura foi publicado na Tribuna da Internet e no Brasil 247. Outro texto (também publicado na Tribuna da Internet) propunha livro de entrevistas como o “Depoimento” de Carlos Lacerda, ideia que não parece ter animado qualquer jornalista. Parece que algumas entrevistas (nas quais não havia maiores questionamentos sobre voltas e reviravoltas das opiniões de HF), ainda que longas, pareciam bastar. E não bastavam; uma figura como ele exigia um livro de entrevistas, um trabalho de fôlego maior. Mencionei esta necessidade a alguns jornalistas, e as respostas variavam do silêncio a comentários ligeiros sobre a importância de um livro assim. O fato de o tempo estar se esgotando não parecia sensibilizá-los.
Houve a grata surpresa da entrevista de Helio Fernandes ao Ancelmo Gois e ao Alberto Dines para o “Observatório da Imprensa”, surpresa pelo fato de Helio e Dines terem trocado palavras ásperas, não pelo espírito de pesquisa e seriedade de Alberto Dines, um jornalista dedicado a analisar de forma historiográfica e crítica o ofício. Entrevista sobre a qual também escrevi.
Nos meus textos sobre Helio Fernandes, expressei minha admiração e minha tristeza por não o conhecer pessoalmente; textos que estão no arquivo do blog e que respondem aos interessados o que penso sobre o jornalista que o Brasil perdeu hoje.
E, portanto, no dia da sua morte, prefiro nada escrever. Meus deveres para comigo, no que tocam esta admiração, cumpri sem esperar pela sua morte.