Sobre a necessidade de ser Oposição
Não entendo o apetite pelo Governo, pela posição governamental. Não acredito que se faz mais no Governo do que na Oposição; a pressão por agendas públicas e formação do imaginário político popular me parecem incompatíveis com as funções administrativas. Lógica elementar que sempre que a exponho soa como excentricidade a muito interlocutor.
Talvez décadas de entrevistas com líderes políticos declarando o desejo pelo Poder “para fazer algo, para realizar o que lutei como oposicionista, como teórico” tenham nutrido na classe política (ou no que responde por classe política) a fixação pelo trono presidencial. Carlos Lacerda, por exemplo, resumia assim sua obsessão pela Presidência. Foi bom governador de um estado que compreendia uma cidade, mas…tantos outros políticos também fizeram e fazem ainda, declarações semelhantes.
O exemplo do PT que ditou políticas durante os oito anos de governo do PSDB depois de tantas lutas nos governos anteriores parece ser algo a se ignorar. E é o exemplo a ser estudado e digno de emulação. Lembro da primeira derrota presidencial… foi seguida pela criação do Gabinete Paralelo e por uma Escola de Sindicalistas em Belo Horizonte.
Ser Oposição, demorar-se na Oposição, este o ideal político de quem de fato tem percepção nítida do que é o Poder, do que significa exercitá-lo.
Fundar institutos, periódicos, redes de periódicos, redes de institutos, associações de advogados amigos da sua facção política… estes seriam os passos necessários, indispensáveis, indiscutíveis e inadiáveis.
Tudo que o sistema de Poder do PT e associados fez e faz e que o Pós-PT herda, e arrisco dizer que partidos europeus de Esquerda e o Partido Democrata fizeram nos Estados Unidos por décadas até a retomada formal da situação.
Pois o que nega esta ciência política destina-se ao malogro, ao suceder de ondas de popularidade, passageiras como toda onda. O Poder não muda de mãos de fato.
Donald Trump saindo da Casa Branca logo depois de ter contas em redes sociais suspensas saiu de fato do Poder? Transmitir o cargo ameaçado de prisão por seus então oposicionistas foi, de fato, despedida do Poder?
A lentidão na resposta aos ataques que sofreu mostra que seu dinheiro e sua energia teriam sido melhor empregados em formar redes de oposicionistas. Este seria seu meio de influenciar, e mesmo transformar, a sociedade americana. Mas cismou em ser Presidente e o resto os leitores já sabem …
Décadas de militância na Oposição e Trump jamais precisaria passar pela calçada da Casa Branca, entendem?
O mesmo pode ser dito de Jair Bolsonaro; falta de carreira como oposicionista explica suas dificuldades em ser Governo.
“Mas ele não foi Oposição ao PT, e antes disso, ao PSDB? Não chegou mesmo a declarar que Fernando Henrique Cardoso merecia o fuzilamento por sua política alinhada aos Estados Unidos?”
Bom…Oposição não é isso, é formar alianças com setores de pensamento igual ou assemelhado, é formar entidades de combate, é se fazer conhecido da maioria como encarnação de uma facção ideológica ou política… formar, ou tentar formar, um partido.
Que disso foi feito por Bolsonaro em suas mais de duas décadas no Congresso? Qual movimento fez em direção à massa indecisa, às pessoas que, não sendo de Extrema Direita, ou mesmo de Direita, não admitem governo de Extrema Esquerda, ou mesmo de Esquerda? Qual esforço de absorção desta maioria sem dono foi empreendido (esforço no qual a Esquerda é experimentada, habituada, consciente de que é um dever primeiro), ou sequer iniciado? Falo de esforço, não de senso de oportunidade frente a uma suposta onda direitista. Não preciso escrever a resposta.
A resposta vemos na ausência de quadros orgânicos no Ministério (a marca da improvisação; nomes insatisfeitos entre profissionais de carreira nos ministérios e autarquias ao que parece são desconhecidos do Presidente e seu círculo imediato), na lentidão nas respostas aos ataques, na falta de agilidade política frente aos fatores inesperados (como a pandemia da covid) e na maneira desastrada de responder (e repito, respostas tardias) aos ataques à figura presidencial, às calúnias ao Governo.
Ainda convalescente do atentado, sofreu acusações sobre a veracidade do mesmo, e não teve qualquer auxiliar (sobretudo os filhos, tão operosos nas redes sociais) a colher impressões destes ataques para processo. Nem mesmo entre comentaristas (jornalistas ou não) famosos (pois declaram, com razão, não poder processar milhões de perfis nas redes sociais ou em caixas de comentários). Mesma inoperância quando teve nome envolvido no assassinato de Marielle Franco. Quando sempre nomeado como “miliciano”, etc, etc
A disposição para agir surge em…resposta a uma sugestão irônica de Ruy Castro sobre suicídio. Sim, após cerca de dois anos de ataques que renderiam condenações seguras, processa-se uma piada. De quebra, promovendo um (sem dúvida competente, mesmo brilhante) biógrafo e cronista de amenidades culturais, como Ruy Castro, a analista político digno de respostas governamentais e processos que se entendem como destinados a assuntos sérios…
Que é esta piada embrulhada para presente senão falta de prática como oposicionista militante e dedicado ao estudo da ciência do Poder?
Agora o episódio das latas de leite condensado… o que mereceria exigência de direito de resposta desperdiça-se em desabafo (com os palavrões que tanto escandalizam jornalistas e atrizes tão puritanos) em uma reunião com artistas amigos.
Não há dia em que não vejo minhas previsões (estão no blog) sobre o que seria este governo de improviso confirmadas; acreditou-se que seria fácil, que bastaria “expulsar os petistas que desgraçaram o Brasil”para que tudo funcionasse, como consequência.
Bolsonaro será, cada vez mais, prisioneiro de arranjos políticos aos quais deverá dar mostras frequentes de fidelidade se não desejar ter fim como o de seu amigo norte-americano. As promessas de campanha aprovadas no Congresso como garantia de cargos serão, com alguma sorte, a vantagem possível. Mas ele dependerá de um outro capital que por sua vez depende da reeleição: tempo. Já se passou cerca de metade do mandato…e a popularidade vem se desgastando. Não se transferiu ainda para o campo adversário, é verdade, mas por quanto tempo?
O domínio da casta acadêmica não encontra resistência por falta, quase absoluta, de noção da gravidade do desafio por parte de seus ditos adversários. Surra depois de surra, quanto se aproveita como lição? Quantos fatos são anotados como casos de estudo?
Onde os institutos independentes? As redes de blogueiros, de jornalistas não alinhados aos setores hegemônicos? A aceitação realista da derrota (Norman Mailer escreveu algo como “a depressão é o preço psíquico da negação da derrota”), para começo de conversa.
Estudos sérios, não cursos para formação de “elites intelectuais que salvarão o Ocidente “, institutos que poderão absorver pessoas da massa que deverão começar estudos pelo começo, com paciência. Trabalho para, se iniciado enquanto digito este texto, apresentar primeiros frutos talvez depois de dez anos. Como os grupos que dominam a casta acadêmica e a política fizeram há décadas, quando eram Oposição.
Porque Oposição é começar pelo começo, sem pressa de colheitas precoces e malformadas. É ter como habitat a sombra e a espera. Mas sem perder de vista a cidade a tomar. Sem estrelismos, sem caciques, sem “fominhagens” tão típicas dos ditos inimigos do Poder de hoje. Cuidando para não ser ninho de futuros traidores, sobretudo.
Só depois o avanço.