Sobre Eddie Van Halen
Iggy Pop, em uma entrevista à revista “Bizz” (José Emílio Rondeau?), declarou ter se inspirado muito mais em pintores, escritores e ditadores que em músicos. Também sou assim; atletas, cineastas, políticos (ditadores ou não) e músicos me inspiram a escrever muito mais que escritores. Sobretudo músicos. O senso de disciplina e o aprimoramento constante no ofício me servem como lembretes; muitas vezes lembretes amargos
“Quanto tens praticado? A mão doendo de tanto escrever? Quantos cadernos de rascunho já consumidos até as capas? A caneta já inteiriça ao braço e mão?”
Sim, músicos me inspiram mais que colegas de ofício, mesmo porque muitas grandes estrelas do mundo da música são, na sua maioria, mais simpáticos e humildes que qualquer subliterato e subintelectual de café.
A morte recente de Eddie Van Halen me enviou ao início dos anos ‘80, começo também de minha adolescência e enraizamento de muitas das minhas obsessões. Meu irmão ano e meses mais velho já tocava sua guitarra e comprou número dedicado ao Eddie Van Halen de série de revistas dedicada a guitarristas. O clip de “Jump” nos programas de TV pré-MTV Brasil exibiam o músico jovem e sorridente extraindo seus sons como que brincando apenas. A tal revista mostrou, em seus depoimentos, o que havia por trás de uma aparente facilidade humilhante: esforço, domínio da técnica obtido por estudo obsessivo da técnica de outros guitarristas, horas de prática e absoluta paixão pelo ofício.
Líamos e relíamos (eu, meu irmão e colegas de bairro e fixação por rock) a tal revista até que ela se tornasse inaproveitável pelo manuseio. E nosso círculo soube assim que instrumentos e mesmo equipamentos (como pequeno amplificador) eram transportados pelo guitarrista mesmo ao banheiro. Que eram referidos como “minha criança preciosa”. E talvez tivéssemos, alguns de nós, a primeira lição sobre ser relevante admitindo dívida aos mestres do ofício, pois eram muitas as referências à sua adoração por Eric Clapton.
E era o sujeito do solo de “Eruption”, da participação em “Beat It” do Michael Jackson, das faixas divertidas dos discos do seu grupo, Van Halen. Tudo executado como quem brinca, tudo sem afastar a expressão de menino travesso (expressão que o acompanhou até os dias de barba e cabelos grisalhos).
Minha geração pode ter o orgulho de ter sido contemporânea deste artista gigantesco. As homenagens recebidas pelos artistas seus contemporâneos nas redes sociais não permitem dúvida sobre sua relevância. De Steve Vai a Patti Smith que o vislumbrou “into the celestial realm where all is music”, muitos reverenciaram sua pessoa e tudo o que significou desde seu surgimento no final da década de ’70.
Eu por meu lado, terei sua lembrança como um cobrador sobre os ombros no cumprimento de obrigações com meu instrumento.
“Afinando a caneta, Pawwlow? Gastando cadernos, Pawwlow?”
Sobre Zuza Homem de Mello
Tive a ventura do acesso às revistas de anos anteriores ao meu tempo de leitor. Minha adolescência pegou estas publicações ou já decadentes ou ainda boas, mas distantes do que foram. Sebos e colegas mais velhos me valeram então. Entrevistas da “Playboy”, artigos de “Status”. Quantas vezes me referi a estas preciosidades no blog?
Houve outra publicação que o acesso aos seus números mais antigos me foi importante na formação de leitor e de gosto musical: “Somtrês”. Nomes como Paulo Ricardo Medeiros (o Paulo Ricardo cantor, autor, também por esta época, das revistas-pôster lançadas pela Ed. Três), Ana Maria Bahiana, José Emílio Rondeau, José Augusto Lemos (estes dois leria muito na futura revista “Bizz”) e o ídolo (desde então) Ezequiel Neves.
Havia na revista um nome que assinava textos sobre discos de jazz (outro que escrevia a respeito na publicação: Ruy Castro) e de música brasileira e que me forneceu muito do conhecimento que tenho a respeito: Zuza Homem de Mello. Era ilustrativo e não tão divertido (no sentido de engraçado ou excêntrico) que alguns outros nomes da revista e, por esta razão, fui gostando dos seus textos aos poucos. O jeito de conversa, de aula dada com aluno e mestre sentados lado a lado; o autor conquistou este leitor pela suavidade e não pelo impacto. Meus dezesseis, dezessete anos não o sabiam figura importante; sabiam-no, porém, um mestre, um conhecedor do que escreve, um compartilhador de informações. Pois não se poderia escrever textos como aqueles sem muito saber e sem muita paciência para leitor que se supõe inculto mas merecedor de obter informações.
Um texto em particular me ganhou, me impôs sua assinatura como a de alguém a considerar: a reminiscência de uma tarde chuvosa em São Paulo no final da década de ‘60. Caetano Veloso era o visitante, nesta tarde. O jornalista colocou itens de sua coleção para o então jovem cantor e compositor que era estrela de programas da TV. Lembro que entre os nomes citados, havia o de Billie Holiday. Talvez Chet Baker também. Arriscaria Miles Davis.
Li este texto, lembro aos leitores, no final dos anos ‘80; posso me enganar, portanto. Mas lembro da descrição que Zuza fez do jovem tímido, que só interrompia o silêncio para comentários rápidos após cada faixa e no momento de virar o disco.
Lembro sobretudo que Zuza terminava o texto apostando que muito do amor de Caetano Veloso por São Paulo teve início nesta tarde. Isto dito sem arrogância, sem falsa modéstia também. Um micro ensaio, uma crônica memorialística em um espaço onde não se espera, de ordinário, encontrar estes dois gêneros.
Se Caetano Veloso começou a ter São Paulo no seu mapa mental nesta tarde, ignoro. Asseguro que Zuza Homem de Mello ganhou um leitor atento e um admirador, eu, a partir deste texto. Quando soube de sua morte, foi desta página que me lembrei de imediato, de coração. E li dele muitas outras. Mas esta evocação de uma tarde chuvosa ouvindo jazz…
Com sua partida, o Brasil perde um dos últimos mestres, um dos últimos referenciais. Não parece que os homens que decidem as coisas no mundo da Imprensa tenham noção do desfalque deste material humano de qualidade. Que se faz para repor? É ainda possível surgir críticos (em qualquer ramo) do tipo?
Não é o que tenho visto em portais e blogs. Há a ausência para as gerações mais novas destes parâmetros e isto me parece (escrevo sobre este perigo desde a morte do Chico Anysio) um dos maiores desastres do Brasil: a expansão do seu deserto mental.
Que leiamos os livros e releiamos textos (procuremos nos sebos) em revista do Zuza Homem de Mello, pois. Só há ganho.