Mariel Reis na “Machado”

“ Pawwlow, conhece a ‘Machado’?”

A pergunta de um leitor amigo levou-me à revista eletrônica “Machado”, nunca ouvira falar da publicação. E…não sabia o que estava perdendo; reportagens, quadrinhos, charges, traduções, entrevistas (uma com Neil Gaiman dividida em duas edições), ensaios, e textos originais (contos e poemas), todos bem ilustrados por artistas e impressos em cores (ah! o tratamento cromático da “Machado”…); capricho, dedicação. Não duvido que nas reuniões para a fundação da revista deliberaram entregar ao leitor revista eletrônica onde beleza e conteúdo formassem peça inteiriça. Uma preciosidade, a “Machado”; uma demonstração de carinho e cuidado, cortesia do editor Delfin.

Nos três números que vi, encontrei colaborações de escritor que venho acompanhando desde ano passado e sobre o qual escrevi no blog, Mariel Reis.

São dois contos e uma peça em um ato, os três merecendo ocupar lugar em futura coletânea do escritor.

A peça, “Estamos Os Dois A Sós”, em um ato, retrata uma dupla de amigos – homem e mulher- que divide o aluguel de um apartamento de centro urbano no tempo presente. Nada que rime, ainda que se force muito a pronúncia, com glamour. Teresa e Carlos, os dois amigos que coabitam surgem cada um num cômodo. A Mulher na sala, o homem no quarto. O homem parece desejoso de dormir e a mulher entregue à contemplação dos famosos que têm suas vidas expostas em revistas. Gente que viaja para destinos exóticos e se hospeda em hotéis luxuosos e não divide apartamento, procurando o sono para enfrentar o dia seguinte. Gente bonita, gente de sucesso.

Mas a mulher acredita fazer parte do mundo da revista que folheia, protesta contra determinado final de noivado de uma atriz, já antevê o noivo procurando-a após ser dispensado pela noiva. O que irrita Carlos:

“Você é apenas uma empregada. Você varre, lava, passa e cozinha. Ou descobriu algum parente rico que deixou herança para a pobrezinha.”

(Mariel Reis na rubrica : “Teresa alisa o roupão como se o tecido fosse seda e estivesse vestindo um manto real”)

E batem à porta. E é o personagem da revista. E disposto a retomar o romance com a habitante do apartamentinho. Resta ao coabitante declarar para o astro:

“Eu moro aqui com ela.”

A certa altura, Carlos diz: “Alguém precisa decidir. Estamos ou não dormindo?”

Pois logo depois chega noiva da revista para buscar o amor de Carlos enquanto Teresa se resolve com o astro.

O dia surge, Carlos e Teresa abraçados um ao outro, na mesma cama; fora tudo um sonho, receberam visita? Por que não conversar sobre o evento?

Teresa, pragmática, fecha a peça:

“Não. É melhor levantarmos, senão nos atrasamos para o trabalho.”

Não é a vida de milhões, o sonhar acordado com celebridades, enquanto empilhados nas grandes cidades, padecendo o inferno na vizinhança medíocre, nos transportes urbanos superlotados, nos empregos sem futuro, nos casamentos condenados?

Com os fatores da sobrevivência e as multidões dos devaneios, apaga-se a luz.

Isto dito por Mariel como numa comédia romântica, sem mentir sobre o que significa no dia depois de dia procurar pela Felicidade.

Os dois contos estão, sem qualquer favor, entre os melhores de sua produção de alguns livros e outras tantas revistas e blogs pela internet: “O Erotômano Imperfeito “ e “O Sonho”.

No “Erotômano”, Mariel começa por traçar o painel do subúrbio de forma bem-humorada, com pinceladas breves, quase um guia para o leitor do seu chão, no feitio do Manuel Antônio de Almeida no “Memórias de Um Sargento de Milícias”:

“Minha mãe não largava do meu pé, dizendo para eu arrumar uma garota, acabar com as reuniões que se estendiam até altas horas da noite, com a presença daquelas mulheres de papel, de dois amigos que traziam também as suas e de uma menininha safada do quarteirão fronteiro da casa ( …) Porque a parada era dura com as meninas e elas só tinham uma coisa em mente: casar. Um pirralho como eu, casar? (..) Nas brincadeiras de médico eram generosas : ofertando para consulta suas partes ocultas para injeção, curavam-se do mal que as afligia.”

Evolui para o retrato psicológico e terno do Machado de Assis das primeiras páginas do “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: (…) porque essa história tem a ver com a primeira vez e a maneira inesperada como encontrei o meu amor, mesmo sendo o primeiro (…) a vida é ensaio para inúmeras respostas que não se concretizam, como a própria existência é um ensaio inacabado”. Sobre a locação da história, Mariel registra, também machadiano, “nesta cidade, nigérrima e triste. Triste como uma noite que não se orgulhasse de suas estrelas, nem de sua luz emitida por constelações distantes, por planetas quem sabe até mortos”.

O conto é pontilhado de reflexões marielísticas que inspirariam elogios de Machado: “é barato ser bonito hoje em dia: é só ter um limite de cartão de crédito muito alto e o conhecimento de um bom cirurgião”, “os animais quando estão no cio se amam em algum grau?”, “ Mulheres arrancam assuntos dos motivos mais inesperados, quando menores parecem vir de algum lugar escondido, como aquele jardim secreto que só elas visitam.”

Como machadiano é o desenvolvimento do enlace amoroso dos dois adolescentes de bairro: “Valentina me mostrou o caixãozinho do passarinho de estimação (…) só queria mesmo ampará-la, tê-la quieta como o passarinho que enterramos na praça perto de casa. Quando acabou o enterro, ela me beijou (..) Talvez fosse mesmo o amor, seguido sinistramente pela morte, rastreado no peito de um sacana como era eu, naquele dia mal iluminado da minha pré-adolescência.”

O fim nos leva ao Nelson Rodrigues de “ A Vida Como Ela É”:

“Mas um dia cruzei com Valentina em uma das ruas do centro – já mulher e com filhos. Tinha cicatrizes pelo corpo, estava morando em uma dos bairros mais distantes, casada com um sujeito ciumento, que toda vez que cismava que a sua preta estava dando mole para alguém, a marcava com a brasa do cigarro (..) A carne é triste (…)”

A vida sentimental registrada como homenagem aos grandes da literatura, condensados por um autor dos dias da literatura como exercício consciente de releitura e metalinguagem.

“ O Sonho” é dos grandes momentos da ficção de Mariel Reis, não é exagero supor que ele esconde uma novela ou romance em suas poucas páginas.

Um narrador onisciente acompanha o desembarque de um sujeito de um táxi e sua requisição de um quarto de hotel, onde dorme, após certo esforço em lidar com sua realidade cansada e com o ambiente inóspito.

Pois tudo é espinhoso no hotel: o tratamento dado como a um velho, o recepcionista, “homem com uma cor de pele acentuadamente negra” que lhe trazia “recordações incômodas”. Bom, mesmo chegar ao hotel não fora agradável, pois suspeitando do taxista durante a viagem. O corpo, embora transportando mente lúcida e alerta, lembra como estocada certeira na mente a finitude. “Lentamente experimentou o peso do corpo em cada um dos degraus, parava como se esperasse a qualquer momento a construção ruir.” Mesmo o hotel, como edificação, parecia-lhe um adversário: “A porta escura do aposento custou a entender que ele forçava passagem, tendo então que empurrá-la com violência para abri-la.”

E esta é a realidade do personagem desperto.

O mergulho de olhos fechados exibe a perda brusca de alguém muito querido, perda inegociável com o cobrador do Tempo. As lembranças da vida feliz em família; o saldo positivo dos filhos, as festas, a celebração do que se ergueu junto. Tudo um sonho, um sonho preparatório para o Pesadelo da vida real; ausências, saudades, espera entre resignada e ansiosa da Morte.

“Devia ser um sonho (…) Não era esse o trato. Deus não me deu ouvidos (…) Não tinha o direito. Disse a Ele que estaria sempre à disposição, custaria menos levar meu corpo cansado. Ele não me deu ouvidos. Caprichoso. (…) Deus trapaceou, meu filho custa a entender, trapaceou. (…) Se ela estivesse aqui não me deixaria cometer uma heresia dessas. Bateria na minha boca”.

Foi um sonho desagradável fruto de uma viagem também desagradável?

“Agora aguardo a ansiosa visita, tenha o rosto que for. Não me importa. Se dura ou caroável.(…) Sim, a vida não passa de um sonho.”

Como no “Erotômano Imperfeito” e na peça em um ato “Estamos os Dois…” o que Mariel não conta dos personagens é imaginável, senão visível pelo leitor, do que aparece em cápsulas. Nos três textos, escondem-se páginas e páginas. O contista competente é um fabricante de cápsulas poderosas, um miniaturista minucioso. E “O Sonho” é cápsula que acompanha o leitor após cada releitura, e a miniatura convida sempre para mais uma releitura e mais uma…releitura depois de releitura algum pormenor se exibe mais nítido.

Bom, aos leitores desejosos de mais textos do Mariel Reis recomendo procurar na internet seu material disperso nos blogs e revistas eletrônicas.

E recomendo, uma vez mais, seu twitter, onde Mariel Reis não joga leve: reminiscências, reflexões políticas, culturais e mesmo ( ou sobretudo) metafísicas. Sempre mostrando que ao opinar sobre qual assunto for, leu mais de uma corrente de pensamento a respeito. O que torna seu twitter espaço inteligente e exigente (não é leitura para incultos resolutos ou vítimas de preguiça mental em estado grave); exceção notável entre tantos tuiteiros que exibem seus chavões “espertos” e cultura de quarta capa de livro.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.