Sobre Lei da Gravidade na Política
“Caindo a Dilma, o resto será consequência, o lulopetismo se derreterá por si”.
Li afirmações do tipo nos dias pré-impeachment de Dilma Rousseff colunista depois de colunista, li também este raciocínio no coral dos comentaristas. Veio o impeachment (que este blog nunca comemorou ou viu nele algo de produtivo) e o PT robusteceu-se e desafiou tetos durante todo o mandato de Michel Temer. A tal consequência lógica não veio.
A luta seguinte foi pela prisão de Lula, a qual eliminaria a candidatura que liderava pesquisas. Não comemorei esta prisão, e escrevi sobre o que considerei improvisado no episódio; Lula fazendo do ato da prisão um comício desmoralizante. A prisão de Lula criou polaridade que beneficiou Jair Bolsonaro; não tanto por ele, mais pelo que o candidato da casta acadêmica (e por óbvio do PT e do Pós-PT) propunha ou pelo que colocava como antagônico ao que milhões de brasileiros desejavam: combate à criminalidade, adoção do ponto de vista (ou como preferem alguns, ”lugar de fala”) das vítimas. Mas fosse outra Esquerda (mais sensível às vítimas – e bem menos “lacradora”- e mais crítica aos dogmas da casta acadêmica) quem garantiria que a polarização filha da prisão de Lula não a beneficiaria?
Lula solto perde relevância; quando preso, era o mártir. Este capítulo bastaria para negar a dita lógica das consequências infalíveis que dispensam esforços. Não?
Muitos dos apoiadores de Bolsonaro (ainda que apoiadores apenas por aversão ao PT e ao Pós-PT) parecem ainda acreditar que a Lei da Gravidade na Política pode substituir esforços e exercícios de aprimoramento.
“O Povo (ah, essa fantasia!, o que há é a Massa) não quer mesmo a volta do PT. Não adianta tentarem colocar a culpa das mortes pelo Coronavírus no Governo Federal, pois a população está se revoltando, dia depois de dia, contra prefeitos e governadores.”
Sim, mas há cada vez mais quem responsabilize Bolsonaro pelos episódios desta pandemia que causam escândalo (como prisão de pessoas em espaço aberto, sem aglomerações e soltura de estupradores e latrocidas), gente que se pergunta por que, afinal, votou nele.
Estas pessoas estranham a ausência de maiores pronunciamentos (não se cometa o erro de considerar lives em redes sociais e canais de vídeo como pronunciamentos, sim?) e mesmo denúncias no plano internacional sobre ditaduras municipais e estaduais. A Lei da Gravidade não está se confirmando; a crença de que entre o Governo e possíveis alternativas, o Governo seria sempre a opção escolhida se ainda tem fundamento, não confirma a Lei da Gravidade na Política, a Oposição não vem diminuindo. O Governo vem colecionando desertores dia depois de dia e mesmo entre os que ainda reafirmam o voto, a disposição de defendê-lo parece diminuir.
Afinal, o mais apaixonado partidário acaba por se perguntar se não está lutando mais que beneficiários diretos do Poder; blogueiros vizinhos do Poder estarão formando redes de apoio? Combatentes de redes sociais estão à altura do desafio?
Leitores me cobraram pelo texto passado, que afinal quis dizer? Estaria culpando o Governo pela campanha que sofre? A vítima teria toda culpa e não os algozes?
Bom, o desafiante tem que lutar mais que o detentor do cinturão…Bolsonaro parece ter subestimado o grau de violência que sua mera existência como candidato despertaria; “eu ganhando e contando com os apoios que surgem dia depois de dia…governar será simples consequência”. A Lei da Gravidade encarregada, por este raciocínio, do trabalho que deveria ser realizado por institutos de estudos políticos, partidos formados a partir dos institutos de formação política, mais as redes de blogueiros e comentaristas. Trabalho também realizado com matéria do tempo. Não, não levaram em conta que arrivistas e entusiastas de ocasião não formam a massa compacta que uma guerra do tipo exige e o resto tem sido o que vemos: um presidente sozinho cercado de alguns bem-intencionados que também não contam com muita artilharia. E desta constatação sombria surgem as combustões como as demonstradas na reunião ministerial.
Ah! o vídeo da reunião ministerial…como se falou palavrão ali…jornalistas saídos de meios sociais onde a linguagem deve ser a mais puritana, não? O cinismo de jornalistas exibindo modos de beatas avistando obscenidades berradas em muros não escandaliza e isto me parece o escândalo dos escândalos. A desfaçatez com que se trata o leitor como débil mental é tomado como uma mera obrigação. Não se percebe o grotesco, isto diz muito. Ou deveria dizer. Na verdade, um item a mais a ser desperdiçado por pretensos observadores.
Ou observadores que se acreditam de Oposição imaginam que as pessoas que estão ocupadas imaginando como reinventarão a vida após a destruição da economia farão este trabalho por mera consequência, como uma Lei da Gravidade que desmoralizará por si estes puritanos da hora? “Ah, para quê? todos estão vendo mesmo”, o refrão que todos que desejam não enfrentar o serviço entoam.
Vejo alguns lamentando Felipe Neto no “Roda Viva”… ora, como disse Arthur do Val, Felipe Neto tem relevância ainda que lamentemos tal relevância; que fizeram muitos dos que protestam contra a escolha da TV Cultura para entrevistado no sentido de promover (como liberais, em primeiro momento, e esquerdistas agora) seus talentos em polêmicas como se promoveu Felipe Neto? Qualquer um com milhões de seguidores em redes sociais merece, sim, uma matéria e uma entrevista. Não se movimentaram para promover polemistas que pudessem ser adversários das malícias e simplificações do pensador político do YouTube.
Ou imaginaram que uma Lei da Gravidade se encarregaria de derrubar Felipe Neto das alturas numéricas apenas com o exame ligeiro de suas fragilidades? Mesmo porque, repito, não se trata de derrubá-lo ou arrebatar seu público, mas de criar público para os que poderiam ser uma possibilidade de alternativa. E isto, este esforço, não tenho percebido.
Promoveu-se, no lugar de combatentes formados em institutos próprios, aventureiros que demonstraram empolgação combinada com preguiça intelectual, e destes aventureiros vieram as decepções mais pungentes. E queixam-se agora dos milhões de seguidores de Felipe Neto e da recepção dada a um fenômeno de público?
Como escrevi no texto anterior, “não que não tivessem um plano B, não tinham plano A”…
O presidente mandar menos que prefeitos e governadores (e ser desafiado pelo STF sempre que a oportunidade aparece) é mera consequência de um exemplo da Lei da Gravidade aplicada pela natureza da Política, não pela ação dos seus inimigos.
Como gostaria de estar errado… não poderei deixar o Brasil quando este sonho alcançar o chão, puxado pela Lei da Gravidade.