Sobre os panelaços de Bolsonaro

“Ouça aqui da minha janela: o bairro inteiro batendo panelas contra Bolsonaro”, informa-me um morador do Rio de Janeiro.

“Qual alternativa os panelistas apresentam?”

“Mourão.”

Hamilton Mourão habita os sonhos dos que não desejando, sob qualquer hipótese, a volta do esquema de Poder do PT e associados, desejam livrar-se do governo de Bolsonaro, ou das pressões por ter apoiado Bolsonaro por parte de gente do círculo social. Nome menos malhado por parte da Imprensa e do meio artístico (e sobretudo da instância superior a estas duas, a Casta Acadêmica), Mourão parece a estes desejosos de paz uma alternativa desejável, uma promessa de sossego. Estes desejosos de armistício são, por estes dias, os colaboradores mais devotados do “Pós-PT”.

“Derrubado Bolsonaro e assumindo Mourão, todos os esforços serão para derrubar Mourão”, respondo.

O Brasil é país de gente com memória curta, ou seletiva ao extremo; quantos lembram da campanha “Cadê o Lima?”, hein?

O Cel. Lima, amigo de Michel Temer, era invocado em toda e qualquer ocasião, não se falava do então presidente que sucedeu Dilma Rousseff após o erro histórico do Impeachment (sim, erro; o mandato deveria arrastar-se até o último segundo, o esquema de Poder do PT e associados desmoralizando-se até o inimaginável) sem que o nome do amigo fosse também mencionado. Era o argumento final dos petistas e devotos do petismo. Hoje quem lembra do “Lima”?

“Canalha” e digno de toda perseguição é todo aquele que sentar na cadeira presidencial sem o apoio da casta acadêmica, esta é a Verdade. Os eleitores que descumprirem as determinações do clero acadêmico também devem sofrer sanções e destas sanções fogem os eleitores de Bolsonaro que se juntam aos batucadores de panelas, ou se calam diante deles. Só que duvido que isto adiante algo.

Duvido, pois os militantes do lado oposto compenetraram-se da missão da guerra total; nesta modalidade de luta política rendições são desprezadas, inúteis como tática de sobrevivência. Eles, os militantes do esquema de Poder do PT e associados, entenderam (ou resolveram remover das faces qualquer máscara) a natureza essencial da política: Poder é questão de guerra e conciliações são teatro de boas maneiras enquanto se ganha tempo. Percebida a inutilidade da encenação, a caça aos pescoços começa.

Jair Bolsonaro deixou-se conduzir às cordas com docilidade tocante, outra verdade neste momento de constatações desagradáveis. Econômico em pronunciamentos na TV aberta, mais econômico ainda nas interpelações judiciais, Bolsonaro cometeu mesmo o que Olavo de Carvalho qualificou, nesta semana de panelaços, como “suicídio político”.

Começando pelo começo, quantos foram processados entre os que insinuaram (insinuações berradas) que o atentado que Bolsonaro sofrera era uma farsa? Não, não se trata de exigir que o Presidente processasse tuiteiros desconhecidos fora de seus círculos ou comentaristas anônimos, mas formadores de opinião conhecidos e replicados, sim. Pois era a obrigação de um Presidente que zelasse não apenas por sua honra pessoal (e familiar), mas pela própria manutenção do cargo e da governabilidade, interpelar seus acusadores. “Estava acamado”; sim, estava, mas e os filhos tão operosos nas redes sociais e os tuiteiros “vaporwaves” nada poderiam ter feito?

Depois as insinuações (quando não acusações frontais, abertas, sem cuidado de olhar para os lados) sobre o envolvimento de Bolsonaro no assassinato da vereadora Marielle Franco; alguns gritos de indignação com reportagem da Globo (quando do episódio do porteiro do condomínio comum ao Presidente e a um dos acusados de envolvimento no assassinato)… e só. Nenhum processo, nenhuma movimentação de apoiadores para defender o Presidente de uma acusação deste porte.

Morre por estes dias o ex-Secretário-Geral da Presidência (e candidato provável à Prefeitura do Rio de Janeiro), Gustavo Bebianno, e insinuações não faltaram, pelo fato de serem, Bebianno e o Presidente, desafetos notórios. Insinuações publicadas em colunas de jornalistas conhecidos, não apenas de tuiteiros lidos por família, namorada e amiguinhos. Algum processo, alguma interpelação?

Estas acusações sem resposta enérgica fizeram e fazem estragos na credibilidade de qualquer um. Por que desperdiçariam então uma pandemia (Coronavírus) para minar ainda mais o respeito da população ao Presidente?

Eu não me surpreendo, sabia (desde antes da eleição) que esta Presidência sofreria por ausência de colunas que a sustentassem. Votei sabendo (e não me desculpo ou permito ser enquadrado por quem não possui moral para enquadrar e/ou interpelar qualquer pessoa). Escrevi (texto publicado em 03/02/2018) sobre escolher Bolsonaro sem ilusões:

“Não sei, acredito que não (no texto, eu respondia a interlocutor sobre acreditar Bolsonaro capaz de realizar bom governo). Há o aparelho do Estado, desenhado nas últimas décadas no feitio da planilha dos engenheiros sociais, a se moldar, na expectativa de eleitores simplistas, e portanto, apressados. Que recolherão o apoio assim que perceberem que ele como Presidente não poderá entregar toda a mercadoria prometida na eleição. Há ausência de redes de apoio que duvido sejam confeccionadas no tempo desejado. E sem estas redes de apoio, sem movimentos sociais não esquerdistas, Bolsonaro não terá como deter avanços de quem se organizou, e milita, há décadas…digo mais: houvesse esta rede política não institucional, Bolsonaro não precisaria sequer do cargo de Presidente. Sem ela, o cargo valerá quase nada.”

“Notas”- 03/02/2018

Acredito que Olavo de Carvalho também não foi surpreendido com as dificuldades; talvez com a apatia de Bolsonaro e do seu círculo frente aos ataques, sim. Mas mesmo esta surpresa me parece sem justificativas; Bolsonaro acreditou no apoio que viria por parte da massa despertada, porém dispersa e desorganizada e neste conjunto não se pode confiar numa luta contra setores organizados e habituados aos confrontos; Bolsonaro só viu o quanto havia de movediço neste apoio depois do fato consumado.

Talvez Olavo devesse, desde o começo, lá atrás na campanha, ter gravado mensagem assim: “ô Bolsonaro, você vai se arrebentar se aceitar ser Presidente sem partido forte e sem militância aguerrida, rapaz. Te derrubarão em menos de dois anos. Sai dessa, você não vai conseguir governar porra nenhuma, merda nenhuma. Candidate-se ao Senado, rapaz, forme uma frente parlamentar de Direita, seja uma Oposição forte, foi assim que o PT tomou o País. Não há pressa, hã?!?”

Ou se pronunciado com mais energia depois da eleição, cobrando de Bolsonaro campanha de mobilização mais efetiva para cumprir as promessas de campanha (sobretudo às relacionadas ao combate à criminalidade). Mas os pronunciamentos de Olavo sobre o Governo tratam de nomeações (ou não-nomeações) dos seus seguidores (como no episódio no qual cobrou de Regina Duarte seu apoio para a pasta da Cultura).

Os avanços do Governo em obras (sobretudo no Nordeste) e na pasta de Sérgio Moro (alguns itens aprovados do Pacote Anti-Crime) têm divulgação ineficaz, e a Oposição assim consegue fixar nas mentes a narrativa do Governo ineficaz, senão inexistente.

Acrescentem, leitores, as deserções dos aventureiros, as traições, as afoitezas de alguns e as hesitações de outros e verão que os panelaços foram até tardios.

Cabe ao Governo afastar-se das cordas às quais aceitou ser conduzido, ou estes serão apenas os primeiros de muitos concertos de panelas e vozes.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.