Sobre rachaduras no edifício
Sim, sei que saiu reportagem sobre militantes bolsonaristas na Internet que receberiam dinheiro público para monitorar outros tantos militantes bolsonaristas, ou robôs; conversas de WhatsApp teriam sido divulgadas e seriam a prova de que existe um esquema organizado de linchamento de dissidentes.
Bom, não li nem lerei a matéria (pois não assinante da publicação), mas tirando a novidade de que militantes responderiam a pessoas próximas ao Governo e que haveria remuneração, nada me é muito estranho, muito admirável. Quem acompanha a militância que essa Direita pratica, sabe que o nível de argumentação é baixo, com insultos, simplificações e exibições de ignorância grotesca.
Não se tomou o cuidado de peneirar, desde o que se pode chamar de início, militantes valiosos de escumalha de internet. Peneirava-se com peneira frouxa, pode-se dizer. O sujeito sabendo meia dúzia de clichês, um punhado de memes, citações de Olavo de Carvalho, era já um formador de outros quadros.
Fundar canais no YouTube com conteúdo de replicações e traduções malfeitas, ou trechos do “True Outspeak” do Olavo também era currículo que habilitava a líder de grupos de WhatsApp. Caso os vídeos terminassem com o “Decálogo de Lênin”, tanto melhor. Muita celebridade de internet nasceu assim. Quem consegue contar quantos youtubers surgiram no período com a fórmula “Vídeo ao volante do carro – YouTuber de costas para estante de livros”?
Mesmo o autor da reportagem, com seu texto sem brilhos, com presença frequente de expressões como “mimimi” e alvo de piadas na caixa de comentários quando mantinha coluna na “Veja” foi, por ter feito uma compilação de Olavo de Carvalho, promovido a analista político, jornalista de prestígio.
(Não adiantará Olavo de Carvalho referir-se a ele, doravante, como “puxa-saco”. Ele é obra do Olavo)
Então nada pode assustar, surpreender ou enojar quem observa há algum tempo a base de apoio entre os formadores de opinião entre eleitores de Jair Bolsonaro. O que está acontecendo era previsto e escrito por todos os observadores atentos, incluindo aqui este blogueiro (consultem o arquivo): assim que Bolsonaro subisse ao Poder veria que não teria colunas de sustentação nas quais se apoiar.
E chega assim ao final do primeiro ano de Governo sem conseguir divulgar o que seus ministros fazem de bom e seus esforços no Congresso, pois escolheu como correias de transmissão elementos fracos e dispersos desde o início.
Falei aí em cima sobre divulgar feitos dos seus ministros, não? Pois Elio Gaspari, sim, Elio Gaspari, fez texto louvando a fala do Ministro Abraham Weintraub aos donos de faculdades. Elio Gaspari, autor de palavras ora satíricas ora amargas sobre este ministro. Por que não foi esta militância ruidosa, e pelo que se apresenta, paga, com blogueiros e tuiteiros tão operosos, a divulgar o momento ministerial?
Maquiavel no “Tito Lívio”observava que o temor de represálias era o freio da maldade humana e Leon Trotsky advertia sobre atores políticos que se permitem ser ridicularizados por suas ações. Como um Governo com tantos inimigos se permite ficar sem forças para adotar represálias políticas e se deixa ridicularizar por apoiadores grotescos? Como se trata o Poder com tamanho menosprezo acreditando que não pagará qualquer preço? Confiando apenas que o eleitorado confiará nele comparando-o ao sistema de Poder do PT e associados?
Repito: nada me surpreende, talvez a velocidade que se verificou entre infiltrações ao processo de rachadura do edifício. Hoje tudo é mais rápido, parece que processos intermediários foram sendo eliminados neste mundo de facilidades, de atalhos.
Criar grupos de estudo antes da mais mínima ação política?
“Não, nao temos todo este tempo.”
Selecionar mais, barrar analfabetos ou obrigá-los a frequentar aulas de formação de quadros, para evitar que aventureiros iletrados sejam promovidos a agentes políticos e formadores de opinião?
“Não podemos nos dar ao luxo de escolher muito.”
Verificar através de observações, não importa que sejam estas frutos de testes, os graus de comprometimento, para evitar que carreiristas sejam promovidos e depois abandonem o front assim que a trincheira receber as primeiras visitas de explosivos?
“Assim não chegaremos a lugar nenhum, temos pressa, o PT pode voltar…”
E assim chegou-se a este quadro onde o Presidente pode contar (tendo contra si a casta acadêmica e seus braços na Imprensa e no mundo dos espetáculos) com alguns abnegados, com seus filhos e consigo próprio. E com aqueles que não abandonaram ainda o barco (e talvez nunca abandonarão) porque não seriam aceitos em outro.
E estamos no primeiro de seus quatro Outubros, apenas.