O Preço da Capitulação
Sim, Alexandre Frota, Ciro Gomes aceita o seu pedido de desculpas; claro que esclarece que não leva muito em consideração o que você disse antes.
Lobão, os canais (impressos ou eletrônicos) da mídia dócil à casta acadêmica incluirão você nas suas pautas; lembrarão sua “responsabilidade” quanto à eleição de Jair Bolsonaro e te questionarão (sempre, não deixarão uma aparição sem este questionamento) se para combater o PT valeria mesmo qualquer coisa, enquanto comentaristas advertirão a cada aparição sua – e a cada postagem nas redes sociais- que não pretendem perdoar sua oposição ao PT que “nos conduziu até este inferno”.
São preços a pagar. Não são? Não seria justo pagar preços no ato da capitulação?
O preço da capitulação costuma ser rigoroso.
Alguns atribuem à orientação de Luciano Ayan o tom adotado nas críticas ao Governo e ao suposto “guru” Olavo de Carvalho pelos dois arrependidos; pode ser, algumas colocações de Lobão na entrevista ao Gilberto Dimenstein pareciam saídas dos artigos e tuítes de Ayan e mesmo Frota retuíta, às vezes no mesmo instante de Lobão, tuítes de Ayan (ou retuitados por este). O que acredito é que ambos sentiram pressa em desvencilhar-se do que lhes parecia um peso; apoio a um Governo no qual não se sentiam mais representados e encontraram nos textos de Luciano Ayan as justificativas mais à mão. Que descontentes procurem o responsável pela ascensão de Ayan ao posto de analista-oráculo.
O que me espanta é a pressa em apresentar desculpas, em beijar as mãos dos oponentes de meses atrás. Uma coisa é declarar-se insatisfeito, desiludido e mesmo arrependido, outra é referir-se ao Governo com fúria não percebida mesmo nos partidários do sistema de Poder do PT e associados. Também uma coisa é declarar desilusão e divergências incontornáveis com Olavo de Carvalho, outra é qualificá-lo como “farsa perigosa”, como fez Lobão. Frota tem mágoas justificadas, ao meu ver; discípulos de Olavo (a hoje “Milícia Vaporwave”) atacaram-no com os mesmos argumentos da Esquerda (“ator pornô”, “partner de travesti em filme pornô”), sem defesa do Olavo.
Mas… como lembrei no parágrafo acima, Alexandre Frota era já referido apenas como ator pornô pela Esquerda à qual ele parece ansioso por se enturmar. Lobão foi banido dos programas onde os artistas querem e precisam aparecer para promover seus lançamentos. Ambos parecem esquecidos – e esquecidos de algo de apenas meses atrás. Esquecidos e dispostos a formar o bloco da “política civilizada”, ou “Pós-PT”. Compondo a ala direitista potável; ala que, pode sim criticar o PT, desde que, desculpando-se de joelhos toda vez que pedir permissão para se pronunciar.
“Você, que ajudou a eleger o Bolso, pense muito bem antes de abrir a boca, tá?”
Como o bad boy pródigo retornando ao lar e comprometendo-se a cumprir sem queixas e com sorriso o itinerário Casa-Trabalho-Casa, na cama às 21:00. Talvez uma cerveja (vá lá, duas) nos churrascos da família, duas vezes por ano. Missa aos domingos, adeus amizades do tempo da Perdição.
Este será o preço da capitulação: aceitar o Poder e os limites que este impõe.
Pois esta Esquerda do sistema de Poder do PT e associados e do “Pós-PT” exige a rendição total, sem qualquer negociação. Esquerda composta por ativistas que aprenderam que a Esquerda que admite egressos da Direita sem maiores cobranças pode até ser mais carismática e abrangente, mas também mais vulnerável às erosões. Vinicius de Moraes, San Tiago Dantas, D. Helder Câmara, Roland Corbisier, Abdias do Nascimento foram aceitos e celebrados como aquisições preciosas pelas Esquerdas pós-Getúlio Vargas. Eram um outro Brasil e uma outra Esquerda. Estes senhores de hoje parecem acreditar que vivem neste Brasil ainda dócil ao conhecimento e ao talento (sim, Frota é orador carismático e talentoso). Acreditam (ou parecem muito acreditar) mesmo que terão sobrevivência no “Pós-PT” em igualdades de condições com os desafetos de, repito, meses atrás.
Não, não terão. Terão uma sobrevida ornamental na hipótese mais gentil. Na mais ríspida terão, sempre que a ocasião se apresentar, seus bocados de cuspes e pontapés.
Não adiantará muito Lobão acenar com sorrisos aos senhores da Cultura no Brasil e Alexandre Frota buscar aceitação das personagens às quais dirigiu palavras que lhe custaram processos e arrancaram gargalhadas dos seus seguidores. Frota desculpando-se com Ciro Gomes…
Ora, Ciro Gomes é outro que, por mais que flexione seus joelhos, será tratado como um “coronel nordestino” indigno de confiança. Pontapé no rosto após pontapé no rosto serão os pontos de sua biografia política quando ele for já História.
E isto me faz lembrar do evento recente na Faculdade de Direito do Largo de S. Francisco onde Reinaldo Azevedo foi aplaudido por reafirmar que Lula fora condenado sem provas. Visível sua postura de bom menino aceito afinal no meio dos bad boys. Com qual finalidade um jornalista referencial (talvez o mais comentado de sua geração) aceita desempenhar este papel? Acaso acredita mesmo que esta plateia de aplausos e assovios esqueceu mesmo seus textos que ajudaram, e muito, a desmoralizar as forças que tal plateia representa?
Mas…como não desejar dissociar-se de um Governo que parece caminhar para a desmoralização (por inércia) e de grupos de apoiadores ridículos e primários, uma Direita cujo repertório parece todo contido em almanaque de trocadilhos ginasianos e interjeições como “Chola Mais” e “Chupa!”?
O ideal seria que insatisfeitos com o Governo e seus apoiadores ridículos exibissem a coragem que noto em ativistas e formadores de opinião que não votaram em Bolsonaro, mas também não votaram no candidato do PT e associados (Fernando Haddad) e não se permitem ser conduzidos às cordas por uma fração de segundo sequer. Falo de esquerdistas independentes. A Direita terá que perder muito do que a caracteriza como Direita para atingir este estágio de independência e coragem, mas este é assunto para textos vindouros (prometo).
O triste é que talvez seja a última chance, em um prazo histórico de décadas pela frente, dos inimigos da casta acadêmica tentarem a conquista do Poder.
Desmoralização consumada, e confirmada pelas deserções, o Pior será pior que tudo que se imaginou.