“E a casta acadêmica sorri….”

Quando o maior (desde ”O Imbecil Coletivo”) inimigo da casta acadêmica declara em vídeo que Theodor Adorno é, segundo informação que ele está ainda investigando (mas que adianta crer verdadeira), o verdadeiro compositor das canções dos Beatles, é natural que a casta acadêmica comemore, não?

Há uns dois ou três dias, youtubers, comentaristas de jornal e de internet gargalham do vídeo onde Olavo de Carvalho expõe seus conhecimentos sobre Beatles, rock’n roll e beatnicks. Quem não? Desde suas intervenções sobre a necessidade de levar em conta argumentos dos terraplanistas seus inimigos não desfrutavam de um banquete tão generoso; mesmo quando das intervenções sobre terraplanismo (que de fato não o eram, apenas admitiam a possibilidade da hipótese e observavam que havia mesmo uma proibição de questionamentos), os inimigos (eles, os adversários, colocam as coisas nesse nível de combate) tinham que extrair conclusões e interpretações dos escritos olavianos para elaborar piadas. Com este vídeo, não. Basta exibi-lo. Não há qualquer necessidade de comentários adicionais. É, ele só, a piada. E ninguém despreza armamento com munição farta.

Que se ganha com extravagâncias do tipo? Que adianta nesta guerra contra a ditadura dos professores universitários discutir terraplanismo e autoria de canções dos Beatles? Não se percebe ganho, exceto talvez para Olavo – mas mesmo este suposto ganho eu também não alcanço. Talvez firmar-se, cada vez mais, como um perseguido pelo status associado casta acadêmica-imprensa.

Que leva um autor de observações agudas sobre a presunção e ignorância da casta acadêmica a discorrer sobre assuntos nos quais manifesta ignorância? E que exibe ao tratar destes, presunção?

Lembro de amigo que padecia de psoríase que lhe tomava todo o dorso, além de dores de fundo nervoso. Recorria então a um acupunturista coreano que, sabedor que seu paciente continuava bebendo e fumando muito, e que por isso o tratamento não apresentava melhoras duradouras, concluiu:

“Eu construo a casa de um lado e você destrói de outro.” E abandonou o paciente.

Assim noto o que se conhece por Direita, no Brasil. A cada vitória, ou pequeno avanço comemorado como vitória, estes inimigos do sistema de Poder do PT e associados (ou Poder da casta acadêmica) presenteiam-se com o luxo da tentativa e erro, onde só poderia haver ações calculadas com o cuidado máximo. Ora, empirismo tem hora, e esta hora não se pode admitir enquanto se está em desvantagem em uma guerra. Quando a Universidade e a Imprensa (e por consequência a Política) estão quase todas elas (para não dizer todas elas) nas mãos inimigas. Onde deveria haver a ação concentrada de forças há a bravata, o imediatismo e o individualismo. Panelinhas substituindo redes de pessoas e grupos contra o inimigo comum.

E a casta acadêmica sorri…

Como não sorriria quando observa que lições recentes não tiveram o aprendizado mínimo? Vejam este episódio da Bienal do Livro…ora, o que escrevi sobre mostra no Palácio das Artes sobre arte erótica continua válido:

“Por que não se guardaram para organizar frentes de eleitores para pressionar autoridades (começando pelo Legislativo, claro) na adoção de uma medida que é vital para o que dizem defender (a mente das crianças): a proibição de usar crianças como público compulsório do que quer que seja extracurricular?”

“Notas”- 14/10/2017

Preferiram, estes que nada aprendem, chamar a Polícia e oferecer, uma vez mais, o espetáculo da ignorância política. E artistas, jornalistas, ativistas e todo o grande elenco dos formadores de opinião não desperdiçaram a oportunidade de retratar os adversários da casta acadêmica e simpatizantes do Governo Jair Bolsonaro como uns primitivos obscurantistas.

Mas voltando à piada da semana, a parceria Beatles-Adorno…Olavo ainda conseguiu associar Beatles com o que considera “satanismo explícito” e com os beatnicks- sobretudo a morte da esposa de um destes escritores em uma brincadeira de Guilherme Tell. Aos que nunca leram uma linha do “Naked Lunch” do William S. Burroughs (o tal escritor que matou a mulher com um tiro na testa) nem mesmo viram a adaptação do livro para o cinema por David Cronenberg – lançado no Brasil como “Mistérios e Paixões” e disponível em DVD), estas informações batidas no liquidificador talvez passem por transmissão oral de conhecimento literário-cultural. Aos que conhecem o universo beat, ou dele possuem o mínimo de conhecimento, são conversa jogada fora, erudição de Google para impressionáveis que se impressionam por qualquer coisa dita por um sujeito que fale de costas para lombadas de livros acomodados em prateleiras.

Claro que há, entre os que riem deste episódio, pessoas que já escorregaram em situações semelhantes. Lembro do Lobão comentando em redes sociais sobre “denúncia” segundo a qual Chico Buarque comprava música de compositores (vídeo retirado de um especial onde Chico “confessava” utilizar destes compositores, em tom de piada). Segundo Lobão, “muitas máscaras destes coronéis da MPB ainda vão cair”; eram dias em que Lobão tomava para si a missão de “destruir o hype da Esquerda”. Segundo ele, muito do que o Brasil precisava viria desta destruição.

Mas “como destruir o hype da Esquerda assim?” perguntava eu em https://fernandopawwlow.wordpress.com/2016/03/25/notas-25032016/

“Como destruir o “hype’” da Esquerda quando alguns dos comentários mais ridículos da internet são de direitistas? Como demonstrar que a Esquerda – sobretudo a brasileira – é grotesca quando se toma piada de Chico Buarque sobre comprar composições como uma confissão de fraude artística?”

Que estes gargalhadores de agora estivessem há meses no campo olavista (como Lobão neste episódio do Chico Buarque) talvez diga algo, não?

Noto em muitos destes comentaristas que apoiam Bolsonaro e Olavo, os tais “vaporwaves” alguns dos comentários mais ridículos da internet e a arrogância que fez muitos “militantes de ambientes virtuais”(MAVs) serem mais um motor de desmoralização do PT que tropa de choque temível.

E Jair Bolsonaro – e seu Governo – precisam de uma militância eficaz e combativa. Sem ela, ele nada poderá. São já nove meses sem comunicação efetiva dos méritos do seu Governo (e de prestação de contas) que atinja a população. O desperdício de capital político em iniciativas como tornar o filho Eduardo embaixador nos Estados Unidos talvez não possa ser reparado se não houver concentração de energia em tornar seu governo visível à maioria. E em cumprir o que seus eleitores esperavam quando votaram nele contrariando a casta acadêmica e a Imprensa: medidas contra a criminalidade, carga total em votar no Congresso leis que contemplem o cidadão comum e não caprichos de professores universitários doutores em causas da violência.

Como fazer frente à casta acadêmica nestes combates no Congresso se seus apoiadores se sentem à vontade para emitir juízos controversos e inúteis? Como deter deserções quando seu lado do campo de batalha cobre-se de ridículo?

A cada vez que estes presunçosos de internet se manifestam a casta acadêmica sorri…segura da duração de seu domínio.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.