Sobre deserções após sete meses na guerra
A oposição furiosa ao PT não foi, para alguns, investimento no “Pós-PT”?
Tenho me perguntado isso desde que, por notas e artigos na imprensa de oposição ao governo de Jair Bolsonaro, venho tomando conhecimento dos “desiludidos”, dos que se declaram “preocupados com os rumos da Democracia”entre seus apoiadores da campanha presidencial. Deslizes e falhas ocasionais servem como justificativa aos que desejam desertar após sete meses de guerra.
Escrevi aí em cima sobre “deslizes”? Acrescento aos ditos deslizes e falhas os deslizes e falhas atribuídos pela máquina de desmoralização – na imprensa estabelecida e na internet – ao Governo, como a suposta declaração da ministra Damares Alves na qual a ausência de calcinhas justificaria estupros em determinada região do Brasil; procurando pela declaração, encontra-se a interpretação truncada da declaração que nem de longe justificava estupros e responsabilizava vítimas. Antigos correligionários, como Alexandre Frota, engrossaram o coro anti-Damares.
E como este exemplo, outros poderiam ser dados. O que vale é atacar um Governo que tem que administrar país com herança que não se deixaria ao inimigo mais odiado; milhões de desempregados que agora são contabilizados, sem qualquer rubor, como obra do governo atual por jornalistas de nome, gente que deveria ter algum respeito aos leitores e aos fatos. Que jornalistas de nome, estabelecidos no ofício, ajam como militantes partidários, choca menos que o espetáculo da capitulação de pessoas que atingiram o status de formadores de opinião militando no anti-PT. De uns, o esperado; não engoliriam o Presidente, como não engoliram o candidato que desafiava o Poder da casta acadêmica e da Imprensa, de outros, o susto; em sete meses, portam-se como inimigos do Governo e de forças às quais devem muito do êxito pessoal. Em uns, a coerência; em outros, o cálculo.
Pois trata-se de cálculo; caso o Governo seja mesmo um fracasso, o Futuro como Direita tolerável e apresentável nos salões está garantido. Para este fim, bater em Jair Bolsonaro e em Olavo de Carvalho é, além de inevitável, imprescindível.
O “Pós-PT” é, como já escrevi no blog em outros textos, muito mais elástico e abrangente que o sistema de Poder do PT e associados. Compreende o próprio PT, o PSOL, o PDT, o PC do B e demais siglas associadas mais movimentos ditos sociais, as Esquerdas de pautas específicas, ONGs e mesmo uma Direita pontual e bem-comportada, respeitadora da casta acadêmica, da Imprensa e das instâncias do dito “Globalismo”. O chamado “arranjo perfeito”; quem for contra este acordo de potências só pode mesmo ser um louco, um criminoso a ser eliminado das hipóteses da Política, e da vida social caso resolva enfrentar o “sistema perfeito” a sério.
E o “Pós-PT”, também como escrevi no blog em outras ocasiões, não é algo cronológico: ele pode existir com o sistema de Poder do PT e associados antes de substituí-lo (como o PT coexistiu com o antigo PCB antes de enfraquecê-lo de forma definitiva), e portanto, já existir. E agir nas redes sociais, como um comando invisível, porém perceptível.
As redes sociais exibem, sobretudo no Twitter, uniformidade notável de pautas e termos. Leitores atentos identificam os grupinhos; os twitteiros mestres e os retuitadores menores. Mas claro que mesmo twitteiros de prestígio retuítam tuiteiros semidesconhecidos, de barbinha de lenhador e óculos de armação colorida. Na semana passada, os twitters de Lobão e Alexandre Frota retuitaram, às vezes quase que ao mesmo tempo, as mesmas coisas. Coincidência, não?
Como observo certos jornalistas e certos formadores de opinião de internet, pude calcular qual a matriz de muitos destes ataques. Como outros tantos também podem calcular, não são iniciativas sutis ou preocupadas em passar despercebidas. Vislumbrei o bico e a plumagem de certa ave entre as folhas.
Penso que os inimigos da casta acadêmica e do sistema de Poder do PT e associados – todos etiquetados e vendidos como “Direita” ou “Extrema Direita”- têm seus bocados de responsabilidade no surgimento desta Direita domesticada e habilitada a ser recebida em programas de TV; o exclusivismo, a tacanhice e imediatismo de setores que dominam o que responde por Direita -ou Extrema Direita – tratam de desestimular adesões duradouras, ou antes estimular deserções.
Alexandre Frota, por exemplo, uma hora cansaria de ser tratado com desconfiança e de ser apontado como “ator pornô” a cada manifestação de discordância; Lobão, por outro exemplo, cansaria de ser apontado como um devedor do Olavo de Carvalho – antes por alunos, agora, pós-rompimento (rompimento que Lobão parece ter jogado como carta na sua reabilitação na mídia), pelo próprio. Frota, com razão, lembra que “ator pornô” era apontado a ele pela Esquerda (a mesma Esquerda que ele parece tão disposto a perdoar) e que era um passado que pareceu ser esquecido por direitistas quando ele, Frota, era um apoiador da Direita. Lobão também me parece razoável ao lembrar que já era um nome conhecido já de décadas quando olavistas o acolheram.
Sinto-me à vontade para escrever sobre Alexandre Frota e Lobão. Escrevi sobre ambos em outras ocasiões.
Sobre Frota, defendi sua relevância e legitimidade em texto publicado em 31/03/2018
“Notas” – 31/03/2018
Sobre Lobão, escrevi texto que me foi elogiado por muitos colegas, parece mesmo texto dos mais lidos no meu blog, e que serve agora para lembrar como começou sua ligação com Olavo de Carvalho.
Publicado no blog em 14/06/2013
Notas dos “Cadernos”: “Empirismo abstrato ” como bússola política e “Não falem do Olavo”
e ainda sobre Lobão, sobre o preço que ele pagou por esta parceria, publiquei no blog em 23/01/2016
“Notas”- 23/01/2016
Não, Lobão não foi “retirado, por piedade, do ostracismo” por Olavo de Carvalho. Quando Lobão citou-o em entrevista, lançava então o segundo livro, “Manifesto do Nada na Terra do Nunca”, que seguiu o sucesso do livro anterior, a autobiografia “50 Anos a Mil”, com shows lotados e DVD, “Sexy, Lino e Brutal”, recém-lançado, com sucesso. Não me parece um ostracismo.
Que hoje Alexandre Frota e Lobão ajam como membros da ala-Direita do “Pós-PT” não muda a história recente de ambos. Não se combaterá o “Pós-PT” com essas traquinagens.
O “Pós-PT” só poderá ser enfrentado com idêntico esforço de concentração de forças.
Mas isso é assunto para textos futuros.