Sobre a primeira prova das ruas de Jair Bolsonaro presidente

Quantos não temeram por um fiasco neste 26 de manifestações de apoio ao Presidente Jair Bolsonaro? Os números das pesquisas não o exibiam desprestigiado, com cerca de 30% a menos de apoiadores entre os seus eleitores? Eu próprio escrevi sobre o que considerava motivos para a decepção de parte dos seu eleitorado (o último post publicado no blog).

Não considero o Presidente e o seu círculo ágeis em responder às ameaças, e sou um crítico da Reforma da Previdência (considero-a mal explicada, mal discutida e um risco político), mas não me arrependo do voto, e ainda tenho em Bolsonaro o meu candidato para 2022. E penso que muitos dos que foram às ruas neste 26 têm as mesmas reservas que eu e a mesma disposição em reeleger este governo.

E por que não teríamos esta disposição em manter o apoio? Que seus opositores, tanto do PSDB e círculos associados quanto do PT e círculos associados, têm como credencial para cobrar deserções da base de apoio popular a este círculo político eleito em 2018? Não erraram bastante, não deixaram seu quinhão de promessas a cumprir?

Penso mesmo que as ruas estiveram, neste domingo, repletas de gente que mais abomina as gestões (tanto do PSDB quanto do PT) anteriores à atual que dos admiradores apaixonados desta.

“Tudo, menos esta gente de volta”- o grito estampado em cada manifestante portando bandeira ou envergando camisetas da Seleção de futebol ou amarelas com palavras de ordem.

E esta demonstração de nenhuma saudade dos governos apoiados pela Imprensa mereceu desta Imprensa a cobertura que teve: apresentadores que não se preocuparam em disfarçar caretas de menosprezo, tomadas de ângulos que retratassem meia dúzia de cinco manifestantes (a de São Paulo não permitiu estes malabarismos de edição, he he), “analistas políticos” que passaram horas minimizando as concentrações de gente ou retratando-as como sinais de ameaça à democracia, etc, etc

A viagem recente de Bolsonaro ao Nordeste já deveria ter servido de aviso aos ditos “formadores de opinião”: as ruas não mais compram suas palavras como nortes; a bússula do que apresentou-se por anos como “fonte confiável de informação” sofrendo questionamentos. E …como não sofrer questionamentos quem demonstra não ter apego aos fatos e sim aos mandamentos ditados por grupos de pressão, sobretudo os oriundos ou apoiados pela casta acadêmica? Até demorou para as massas darem as costas aos “isentos”, aos “profissionais”, não?

E é, afinal, disto que se trata: ataca-se Bolsonaro e seus eleitores por estes terem ousado tentar a escalada do Poder sem a permissão dos senhores da discussão pública no Brasil (o mesmo se dá com Donald Trump nos Estados Unidos – ataca-se ele e seus eleitores não pelas faltas alegadas, mas por Poder – Trump elegeu-se sem apoio dos grandes grupos de comunicação de massa).

Tudo, segundo estes supostos senhores das discussões públicas, culpa da internet; “deu voz aos imbecis”. Sim, os profissionais (sobretudo se oriundos das faculdades de Comunicação) acusam os amadores de funcionar como agentes de imbecilização, além de concorrentes desleais. Mas como não perceber que vlogueiros e blogueiros têm conseguido espaço graças ao tipo de serviço encontradiço nos órgãos de comunicação, tanto no impresso como no eletrônico: erros grotescos de Português, imprecisões (quando não falhas indesculpáveis de apuração), matérias ligeiras redigidas por verdadeiras juntas de redatores, etc, etc

Daí alguns blogueiros (e mesmo vlogueiros) terem conseguido público igual ou maior que muito colunista famoso, e influência maior que a de muito órgão de comunicação.

Por que não teriam?

Quando mesmo os veteranos não formados em Comunicação assimilam os cacoetes dos jornalistas formados pela Universidade e apresentam decadência notável em seus textos, o público sente-se tentado a desertar deste público (cativo?) e procurar alternativas.

Como não desistir (repito: mesmo dos melhores) dos medalhões do Jornalismo se a multidão de hoje da Av. Paulista foi para eles um “fracasso”? Como não considerar a Imprensa mainstream ridícula se esta se rebaixou ao ponto de ser apenas um boletim da casta acadêmica? Como não cancelar assinaturas e abandonar autores preferidos quando órgãos e autores parecem alheios à vida real de milhões de pessoas?

Os que marcharam no dia 26 não apenas apoiaram Bolsonaro e pautas estabelecidas por organizadores; marchou-se para, uma vez mais, declarar: “Vocês da Imprensa dirigem-se aos seus pares apenas. Nada temos a aprender com o que vocês escrevem e dizem. Vocês são o Brasil de alguma produção audiovisual de época, nada mais.”

E como o que elegeu Bolsonaro não foi compreensível aos que prefeririam acusar seu eleitorado de “racista” e de “fascista”, assim continua incompreensível o que leva seus eleitores marcharem para apoiá-lo mesmo com críticas a fazer, mesmo com decepções.

Mirando o espelho, jornalistas praguejam contra a internet e contra a “massa estúpida”, estranhando ausência de respostas.

Fernando Pawwlow

Jornalista e autor brasileiro, tendo sua produção escrita marcada por uma postura crítica e cética em relação ao cenário político, arte, cultura e formadores de opinião.